Há cerca de um ano, investigadores alertavam para o facto de a contagem de espermatozoides estar a diminuir cada vez mais, prevendo ainda que o cenário continuasse da mesma forma.
Numa análise realizada por Hagai Levine, da Universidade Hebraica de Jerusalém, e por Shanna Swan, da Escola de Medicina Icahn, em Nova Iorque, EUA, descobriu-se que a contagem média de espermatozoides diminuiu globalmente 51,6%, entre 1973 e 2018.
A mesma investigação concluiu que desde 1972 o declínio era de cerca de 1% por ano, mas desde 2000 o decréscimo anual tinha sido, em média, superior a 2,6%.
Identificada pela primeira vez em 2017, esta tendência tem estado a acelerar, de acordo com investigações, o que tem deixado os investigadores preocupados e em busca de respostas.
Agora, uma equipa de investigação que avaliou, ao longo de 13 anos, o possível impacto dos smartphones na contagem de espermatozoides, descobriu que homens entre os 18 e os 22 anos que referiram utilizar os seus telemóveis mais de 20 vezes por dia tinham um risco 21% maior de ter uma contagem geral de espermatozoides mais baixa.
Além disso, os investigadores deram conta de que estes homens tinham um risco 30% maior de terem uma baixa concentração de espermatozoides. Contudo, a equipa não mencionou de que forma é que os voluntários utilizavam os seus telemóveis, ou seja, se quando pegavam neles enviavam mensagens ou telefonavam a alguém, por exemplo.
Por outro lado, os investigadores perceberam que à medida que a tecnologia foi melhorando ao longo do tempo, nomeadamente no que diz respeito aos smartphones, o impacto na contagem de espermatozoides começou a diminuir. Ou seja, aparentemente, o maior efeito foi observado nos telefones 2G e 3G mais antigos, em comparação com as versões 4G e 5G modernas.
No bolso das calças
Nesta investigação, 85% dos participantes decidiram colocar os seus telemóveis nos bolsos das calças quando não estavam a usá-los, apesar de poderem decidir o local onde os guardavam.
Os resultados revelaram que os homens que usavam os seus telemóveis entre uma e cinco vezes por dia ou menos de uma vez por semana tinham contagens e concentração de espermatozoides bastante maiores do que os que utilizavam mais vezes.
À medida que o uso do telemóvel aumentou, a contagem de espermatozoides diminuiu, com os níveis mais baixos a serem encontrados entre os homens que usam o telefone 20 ou mais vezes por dia, dizem ainda os investigadores.
A equipa, que também avaliou o impacto dos telemóveis em diferentes períodos de tempo, encontrou a maior associação entre baixa contagem e concentração de espermatozoides e o uso do telemóvel entre 2005 e 2007. À medida que as empresas passaram do 2G para o 5G, a associação enfraqueceu, referem ainda os investigadores.
Alexander Pastuszak, professor na Escola de Medicina da Universidade de Utah, em Salt Lake City, explica, citado pela CNN, que os “os telemóveis estão constantemente a enviar e a receber sinais” e que o mesmo acontece de forma mais intensa quando estão a ser utilizados.
O especialista diz ainda que esses sinais vão variar “dependendo se estamos a conversar ou a enviar dados”.
Estes dispositivos emitem campos eletromagnéticos de radiofrequência de baixo nível, ou RF-EMF. Se emitirem na sua potência máxima, o tecido circundante pode aquecer até 0,5 graus Celsius, afirma ainda o estudo.
Os campos eletromagnéticos de radiofrequência são bastante reduzidos quando enviamos mensagens de texto e aumentam ao descarregarmos ficheiros grandes, por exemplo, de acordo com o Departamento de Saúde Pública da Califórnia.
Estudos observacionais em humanos descobriram que o uso frequente de telemóveis estava ligado a um declínio na viabilidade do esperma, e que também tinha impacto na forma como o esperma navegava. Contudo, esses estudos foram pequenos e não controlaram fatores importantes como o tabagismo e o consumo de álcool, por exemplo.
A questão de os sinais emitidos pelos smartphones poderem prejudicar fortemente a fertilidade masculina tem sido uma fonte de controvérsia e debate durante anos entre a comunidade científica. Pastuszak afirma que este estudo, pelo contrário, é “um pequeno avanço nessa discussão porque é um grande estudo epidemiológico que parece ter sido muito bem conduzido”.
“É um estudo do mundo real, e isso é bom na minha opinião. No entanto, devemos ser cautelosos quanto à sua interpretação, já que apenas mostra uma associação entre o uso do telemóvel e a qualidade do sémen”, adverte.
O especialista diz ainda que “a contagem total de espermatozoides pode não refletir reduções reais no potencial de fertilidade” e que “é a qualidade do esperma que conta”. “Se tiver esperma de qualidade, há uma chance boa, razoável ou até mesmo grande de ter um filho, mesmo que tenha apenas um punhado de esperma”, afirma ainda.