Em Portugal, não existe registo do número de casos de tromboembolismo venoso em crianças no País, mas Paula Kjollerstrom, hematologista no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, diz à VISÃO que a incidência é, “provavelmente, semelhante ao reportado na literatura internacional, ou seja, entre 0,07 e 0,14 casos por 10 000 crianças”.
Este valor é até 200 vezes inferior em relação com o número identificado na população adulta. Ainda assim, explica a médica, tem existido um aumento da sua frequência nos mais novos nas últimas décadas, principalmente em crianças hospitalizadas e, na maioria das situações, com fatores de risco associados, como doença oncológica ou infeção grave. “Em idade pediátrica, verifica-se um pico no primeiro ano de vida e outro na adolescência”, explica a especialista.
Quando a trombose venosa, que corresponde à formação de um coágulo, ou trombo, no sistema vascular venoso, não é tratada, a sua evolução pode ser fatal ou provocar lesões progressivas e irreversíveis. “Podem ocorrer complicações agudas como disfunção do órgão ou membro afetado e, nas situações rapidamente progressivas ou com atingimento multiorgânico, pode ocorrer risco de vida”, esclarece Paula Kjollerstrom.
Em relação às complicações crónicas, a médica fala do não reconhecimento ou evolução grave na fase aguda, e incluem a trombose persistente ou recorrente, a síndrome pós-trombótica, que é uma insuficiência venosa crónica pós-trombose venosa profunda, geralmente nos membros, e, no caso do tromboembolismo pulmonar, pode haver evolução para hipertensão pulmonar e insuficiência cardíaca.
Mas há formas, também, de se prevenir a ocorrência destes eventos em crianças, descansa a médica. “Como a maioria dos casos de trombose são diagnosticados em crianças hospitalizadas, a prevenção passa pelo reconhecimento de fatores de risco, como a identificação de infeção grave ou doença oncológica, por exemplo, e pelo tratamento precoce de complicações”, esclarece. Em alguns casos, durante a adolescência, mas também se as crianças forem obesas ou tiverem sido sujeitas a cirurgias grandes, são instituídas medidas preventivas, que podem incluir a hidratação e a utilização de meias de compressão ou farmacológicas.
Se a criança tiver história prévia de trombose ou existir história familiar de trombose, pode ser avaliada a presença de trombofilias, ou seja, alterações da coagulação que podem aumentar o risco de trombose. Nesta situação, a promoção de um estilo de vida saudável é essencial para prevenir a ocorrência de tromboses, acrescenta a especialista.
O que há de novo no seu tratamento
Os sinais e sintomas deste problema dependem da zona afetada e do grau de oclusão. Contudo, os sintomas de tromboembolismo podem, muitas vezes, ser ligeiros ou inespecíficos e, por isso, é fundamental identificar e investigar situações de risco, sobretudo em criança internadas, onde a ocorrência destes eventos é muito mais frequente. Já o seu tratamento em idade pediátrica deve ser feito em centros com experiência e em equipas multidisciplinares, adverte a médica. “A terapêutica deve ser individualizada, e deve considerar-se a urgência da intervenção, risco de sequelas, doenças associadas e preferência, tanto do doente como da família”, acrescenta.
A anticoagulação é o tratamento de eleição na maioria das situações. Os fármacos anticoagulantes atuam, prevenindo a extensão do coágulo e reduzindo o risco de embolia, que é a libertação do trombo para a circulação. Contudo, este tratamento pode ter riscos associados, alerta a especialista, como a possibilidade de hemorragia. “Deverão ser sempre explicados os riscos e possíveis complicações da terapêutica e reforçados os sinais que devem motivar o recurso a serviços de saúde”, esclarece.
Outros tratamentos como a trombectomia ou a fibrinólise são reservados a situações de trombose venosa grave com risco de vida, de perda de membro ou órgão e geralmente em conjunto com a anticoagulação, diz ainda a médica.
Também existem novos tratamentos, anticoagulantes orais diretos, que já são utilizados em adultos e que demonstraram em ensaios clínicos serem, também, eficazes em idades pediátricas, mesmo em crianças pequenas, incluindo recém-nascidos, explica Paula Kjollerstrom. “Não podem ser utilizados em todos os doentes mas, na ausência de contraindicação, têm a vantagem de ser administrados sob a forma de solução oral, o que facilita a sua utilização”, esclarece, referindo que o facto de não necessitarem de análises de sangue para ajustar a dose é outra vantagem que deve ser tida em conta. “Estes tratamentos estarão, a curto prazo, disponíveis para o tratamento do tromboembolismo venoso na criança em Portugal”, garante Paula Kjollerstrom.
Os sinais do tromboembolismo venoso
– Na trombose venosa dos membros, é habitual a presença de dor, edema, calor, circulação colateral e diminuição da mobilidade do membro afetado;
– No pulmão (tromboembolismo pulmonar), a dificuldade respiratória, taquicardia e a dor torácica que agrava com os movimentos respiratórios são as manifestações mais comuns. O tromboembolismo pulmonar ocorre geralmente após a libertação de um trombo dos membros inferiores (trombose venosa profunda), na ausência de tratamento;
– Na trombose dos seios venosos cerebrais, as manifestações habituais são neurológicas, desde cefaleia e vómitos até alteração do estado de consciência e convulsão;
– Quando associado a cateter venoso central (fator de risco isolado, mais comum na criança), o tromboembolismo venoso é geralmente assintomático ou indolente (mau funcionamento do cateter, infeção e/ou circulação colateral proeminente).