Desde pequena que Ursula von der Leyen se habituou a lidar com ricos e famosos. E não há muitas mães de família que se possam dar ao luxo de dizer que já foram beijadas por George Clooney ou que andaram ao colo de Hugh Jackman – para falarmos apenas de duas figuras de Hollywood. Na Alemanha, ela é uma figura pública há mais de quatro décadas (por ser filha de um mediático barão democrata-cristão que presidiu aos destinos da Baixa Saxónia) e agora prepara-se para ser reconhecida no resto do mundo, graças ao cargo para o qual foi indigitada a 2 de julho – presidente da Comissão Europeia.
Com 1,60metros, 60 anos, sete filhos já adultos e uma carreira política feita de polémicas, esta ginecologista pode muito bem tornar-se a primeira mulher a liderar a UE. Para tal, basta-lhe receber a luz verde do Parlamento Europeu, onde dia 16 deverá fazer o discurso da sua vida e submeter-se a um rigoroso interrogatório sobre os seus intentos enquanto sucessora do luxemburguês Jean-Claude Juncker, cujo mandato termina em novembro.
Caso supere o teste da próxima semana, a ainda ministra da Defesa da Alemanha vai dar razão aos que lhe chamam Teflon-Uschi (combinação da abreviatura de Ursula com o tecido ultrarresistente que serve também para descrever alguém que parece sobreviver a todo o tipo de contrariedades). No final de 2013, ela recusou o convite de Angela Merkel para ser ministra da Saúde, reivindicando a tutela dos militares. A chanceler fez-lhe a vontade e entregou-lhe a pasta que mais carreiras políticas costuma liquidar.
Mulher de armas
Desde 1949, ano de fundação da República Federal da Alemanha, o país teve apenas oito chefes de Governo, mas os ministros da Defesa foram 17. Ursula von der Leyen tornou-se, assim, a primeira mulher a dar ordens aos generais das Bundeswehr (as Forças Armadas). Só que a relação deixou muito a desejar, apesar de ela ter aumentado o orçamento do setor em 40% nos últimos cinco anos. Escândalos sobre infiltrações da extrema-direita, sobre custos inflacionados em consultadoria, sobre material obsoleto e incapacidade para cumprir missões obrigatórias (metade dos caças e os seis submarinos do país não estão operacionais) levaram Leyen a afirmar que as suas tropas têm um sério problema de “comportamento”, de “comando” e de “espírito de corpo”. Claro que os visados ripostaram e, face à previsível ida da ministra para Bruxelas, respiram já de alívio.
Nos labirínticos corredores da UE em Bruxelas, Ursula von der Leyen já é conhecida por VDL e ela própria tem aí andado numa roda-viva para seduzir tudo e todos, de modo a garantir os votos necessários à sua nomeação oficial pelo Parlamento Europeu. Em rigor, precisa do apoio de 376 dos 751 eurodeputados (a maioria simples), mas ela quer mais e pretende superar a votação recolhida por Jean-Claude Juncker em 2014 (422 votos). Dessa forma, pode também argumentar que as principais famílias políticas europeias estão do seu lado e que não ficou dependente do PPE nem dos representantes populistas de países como a Hungria, que se revelaram decisivos na maratona negocial que conduziu à sua indigitação, no início do mês, sob proposta do Presidente francês, Emmanuel Macron, enterrando o sistema dos spitzenkandidaten (os candidatos previamente designados pelos partidos do PE).
Na última terça-feira, 9, o sempre bem informado Politico noticiou que Ursula von der Leyen já tem a sua equipa constituída e que continua a negociar com os diferentes grupos parlamentares em Bruxelas. Uma das suas prioridades passa por conseguir o apoio da bancada dos Verdes (74 eurodeputados), nem que para tal se disponha a oferecer um lugar de comissário a um ecologista, algo que nunca ocorreu antes. No entanto, segundo o Financial Times, isso pode não chegar, porque os Verdes estão interessados numa mudança radical da Política Agrícola Comum e querem ver aprovado um novo pacote legislativo de impostos ambientais.
No entanto, convém recordar que VDL há muito que se habituou a ultrapassar desafios que pareciam impossíveis. Em 2017, foi das poucas dirigentes da CDU que defenderam a aprovação do casamento homossexual, colocando-se ao lado dos sociais-democratas e da oposição.
Em 2015, foi acusada de ter feito plágio na sua tese de doutoramento, mas conseguiu manter a sua popularidade e reputação. Em 2011, quando era ainda ministra do Trabalho, contrariou Angela Merkel ao defender um salário mínimo e ao apoiar a instauração de quotas para as mulheres, tendo levado a sua avante. E, em 2007, enquanto ministra da Família, provocou uma minirrevolução ao duplicar o número de creches e infantários e ao garantir licenças de parentalidade, pagas, aos pais alemães. Um currículo surpreendente e que deve chegar para ela se instalar na cidade onde nasceu. Afinal, foi na capital belga que veio ao mundo a menina dos olhos de Ernst Albrecht, o economista que desempenhou funções de alto-funcionário da antiga CEE, entre 1958 e 1976, para depois se tornar o todo-poderoso ministro-presidente da Baixa Saxónia. Falecido em 2014, quando a filha estava a visitar o Afeganistão, tem razões de sobra para se sentir orgulhoso do percurso de Röschen (Rosinha), forma carinhosa como sempre tratou aquela que poderá em breve ser a mulher mais poderosa da Europa.