Quando compramos casa existe uma sensação natural de missão cumprida. Encontrou-se o imóvel, escolheu-se o banco, reuniu-se a documentação necessária, assinou-se a escritura e, finalmente, recebe-se a chave de casa. Para muitas famílias, é nesse momento que termina a preocupação com o crédito à habitação.
Na realidade, é precisamente aí que ela deveria começar.
Um crédito à habitação é, para a maioria das pessoas, o maior compromisso financeiro de toda a vida. Será pago durante trinta ou quarenta anos e, ao longo desse período, praticamente tudo pode mudar: os rendimentos, a situação profissional, a composição do agregado familiar, as taxas de juro, os produtos disponíveis no mercado e até a forma como os bancos avaliam o risco dos clientes.
O que fazia sentido no dia da escritura pode deixar de fazer sentido cinco, dez ou quinze anos depois. No entanto, milhares de contratos permanecem exatamente iguais durante décadas, não porque continuem a ser os mais adequados, mas porque nunca mais foram analisados.
Este comportamento torna-se ainda mais curioso quando comparado com outras decisões do dia a dia. Muitas pessoas comparam preços antes de comprar um eletrodoméstico, mudam de fornecedor de eletricidade para poupar alguns euros por mês ou renegociam contratos de telecomunicações assim que termina um período de fidelização. Contudo, continuam a pagar um crédito à habitação durante anos sem nunca voltarem a questionar se as condições contratadas continuam a ser as mais ajustadas à sua realidade.
E essa diferença pode representar milhares de euros ao longo da vida do empréstimo.
Importa, por isso, esclarecer uma ideia que continua muito presente. Rever um crédito não significa que exista um problema financeiro. Pelo contrário. Na maioria das situações, os melhores resultados conseguem-se precisamente quando a situação financeira é estável. Quem apresenta um bom histórico de pagamentos, rendimentos consistentes e uma taxa de esforço equilibrada reúne, normalmente, melhores condições para negociar junto das instituições financeiras.
Esperar por dificuldades reduz opções. Antecipar aumenta a capacidade de escolha.
Mas afinal, o que pode ser revisto num crédito à habitação?
Muito mais do que muitas pessoas imaginam.
O spread, por exemplo, pode em determinadas circunstâncias ser renegociado, sobretudo quando o perfil financeiro do cliente melhorou ou quando existem ofertas mais competitivas no mercado. Também os seguros associados ao crédito, nomeadamente o seguro de vida e o seguro multirriscos, podem representar uma parte significativa do encargo mensal. Em muitos casos existem alternativas que permitem manter níveis de proteção semelhantes por valores substancialmente inferiores.
O próprio tipo de taxa merece uma análise periódica. Um contrato celebrado em taxa variável pode fazer hoje mais sentido em taxa mista ou até em taxa fixa, dependendo da evolução do mercado, da estabilidade financeira e/ou perfil de risco da família e da necessidade de previsibilidade dos seus encargos mensais.
Em determinadas situações poderá ainda justificar-se uma transferência do crédito para outra instituição, sempre que o conjunto das condições oferecidas seja mais favorável. Naturalmente, nenhuma destas soluções é universal. Cada contrato possui características próprias e deve ser analisado de forma individual.
Vejamos um exemplo.
Imagine um empréstimo de 250.000 euros contratado há cinco anos. Na altura, um spread de 1,20% poderia ser perfeitamente competitivo. Entretanto, o mercado evoluiu, o cliente manteve uma situação profissional estável, aumentou os rendimentos do agregado familiar e nunca falhou uma prestação.
Se conseguir reduzir o spread para 0,75%, a prestação mensal poderá diminuir algumas dezenas de euros. À primeira vista, uma poupança de 50 ou 60 euros por mês pode parecer pouco relevante. No entanto, estamos a falar de cerca de 720 euros por ano. Ao longo de quinze anos, essa diferença ultrapassa facilmente os 10.000 euros.
E tudo isto sem mudar de casa.
O mesmo raciocínio aplica-se aos seguros. É relativamente frequente encontrar situações em que uma família paga 100 euros mensais pelo seguro de vida associado ao crédito, quando poderia obter uma cobertura equivalente por 60 ou 70 euros. Uma diferença de 30 euros por mês representa mais de 360 euros por ano e pode ultrapassar os 7.000 euros ao longo de vinte anos.
São valores suficientemente expressivos para justificar algumas horas de análise.
Mas importa também desmontar outra ideia muito comum: nem sempre mudar é melhor. Existem contratos antigos com spreads particularmente competitivos, períodos de taxa fixa muito vantajosos ou condições específicas que não compensam ser alteradas.
É precisamente por isso que a decisão nunca deve partir da vontade de mudar. Deve partir da vontade de perceber, de analisar, de comparar, em suma: de melhorar.
Primeiro analisa-se. Depois compara-se. Só no final se decide.
Na prática, existem alguns momentos em que faz particularmente sentido voltar a olhar para o crédito à habitação: quando já passaram vários anos desde a contratação, quando os rendimentos do agregado aumentaram, quando terminou um período de taxa fixa, quando o contexto das taxas de juro sofreu alterações relevantes, quando existem outros créditos que justificam uma reorganização financeira ou, simplesmente, quando nunca foi feita qualquer análise desde o dia da escritura.
Nenhuma destas situações obriga a alterar o contrato. Mas todas justificam que a decisão seja tomada com base em informação atualizada e não apenas por inércia.
Porque gerir um crédito não é assinar um contrato e esperar quarenta anos. É garantir que esse contrato continua alinhado com a realidade da família e acompanha as diferentes fases da sua vida financeira.
Ter finanças com cabeça não significa mudar de banco todos os anos nem procurar constantemente uma prestação mais baixa. Significa compreender que um crédito à habitação é um compromisso vivo, que deve ser acompanhado, analisado e ajustado sempre que isso fizer sentido.
Porque contratar um crédito acontece num único dia. Gerir esse crédito acontece todos os meses, durante décadas.
E é precisamente nessa gestão contínua que muitas famílias conseguem recuperar margem financeira, reduzir pressão sobre o orçamento e construir uma relação mais saudável com o dinheiro.
No próximo artigo vamos abordar um tema particularmente relevante nesta altura do ano: a gestão do orçamento durante as férias.
As férias são um momento para descansar, criar memórias e aproveitar o tempo com a família e os amigos. Mas também são uma época em que, sem darmos por isso, é fácil perder o controlo das despesas e comprometer a margem financeira que demorámos meses a construir.
Vamos refletir sobre como encontrar o equilíbrio entre viver plenamente as férias e manter uma gestão financeira responsável.
Porque ter finanças com cabeça não significa deixar de viver.
Significa garantir que os momentos de prazer de hoje não se transformam nas preocupações financeiras de amanhã.
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