No novo escritório de Pedro Almodóvar, situado no moderno edifício de quatro andares da sua produtora, El Deseo, perto da tradicional Plaza de Toros de Las Vendas, os caixotes ainda estão por abrir e os muitos posters alusivos às suas películas estão por pendurar. Mas apesar dos sinais exteriores, que provam a consagração, o realizador – de camisa e T-shirt, duas madeixas grisalhas de cada lado da testa que evocam um pequeno diabo, uma naturalidade desarmante – defende que continua a funcionar como sempre funcionou: fazendo o que lhe apetece.
VISÃO: Confessou, numa entrevista, que foi um «capricho perigoso» incluir a fita a preto e branco, O Amante Minguante, em Fala com Ela. Um realizador consagrado, com um Oscar no armário, não pode fazer tudo?
PEDRO ALMODÓVAR: Foi um capricho, no sentido de que me apetecia fazê-lo. Perigoso porque é tecnicamente complicado, e algo muito diferente do filme, e tem de haver uma razão para ser incluído. Não, não posso fazer tudo! Assumem-se cada vez menos riscos no cinema e fazem-se cada vez mais filmes como
uma fórmula. Eu necessito de renovação. Isso significou sempre fazer os filmes que queria, sem pensar se são comerciais, se os fiz bem ou se são difíceis. Essa independência é o mais importante para mim. O meu compromisso com a indústria é fazer o filme que quero e fazê-lo com todo o meu coração.