01 – Deolíndia – A nossa razão primeira para viajar, durante 2 dias inteiros, num comboio até Goa, foram eles, os Deolinda! Na viagem anterior, mudámos o nosso trajecto para estarmos com eles em Paris, quando o nosso plano era outro! Agora, também com outro plano em mente, mudámo-lo de novo! É sempre especial estar com portugueses fora de casa, e então quando estes portugueses nos são também especiais, tudo tem um gostinho mais…português! Foi bom partilhar longos momentos com eles, ouvi-los ensaiar, ouvi-los em concerto outra vez, só mais uma vez, mas não a última, temos a certeza! Longe de casa, com portugueses, em Goa! Lindo! 02 – Agonda – Uma centena de quilómetros abaixo de Panjim, fica Agonda, uma pequena praia a norte da famosa e turística Palolem – o postal das praias da Índia – encalhada entre duas colinas e no meio de uma vasta vegetação, com dois quilómetros de areia fina, onde vacas, cães e pessoas se cruzam no normal dos dias. Ao sairmos do autocarro, sabíamos que era um dos sítios menos turísticos, o que não sabíamos era que o quase inexistente turismo, a beleza da praia e os preços mínimos nos iam manter ali durante oito longos dias! Quando em casa, procuramos fugir ao ritmo e ao quotidiano dos dias, mas com mais de um ano em viagem, encontrá-lo, era aquilo que mais necessitávamos! 03 -Finalmente – Sei que o tempo em Portugal não tem andado nos conformes. Nem o tempo, nem a economia. Duas coisas que, felizmente na Índia, ainda não tivemos o infortúnio de lidar com. Estamos a atravessar as nossas férias nesta odisseia: praia, sol, mar, comida, dormida com os pés na areia, dias que correm sem planos, sem tarefas a fazer. Faltava-nos isto e, finalmente, cá estamos! No fim do mês voltamos às bicicletas, pelas quais já morremos de saudades e continuamos estrada fora até Calcutá, bem no este do país. Vão ser dias bem diferentes, com horário, etapas, obrigações. Até lá, vamos aproveitando o descanso que as bicicletas nos dão! 04 – Thali – O Thali está para a gastronomia indiana como o hindi para a língua: é o prato que liga o país! De norte a sul, de este a oeste, todos os restaurantes o servem, com duas ou três coisas diferentes mas, quase sempre, confecionado da mesma forma. O arroz branco, acompanhado de lentilhas amarelas, dois pequenos recipientes de diferentes vegetais e condimentos, os pickles, o curd (parecidíssimo ao iogurte) e um ou dois chapatis, o famoso pão achatado que substitúi os talheres. Em versão não vegetariana, só o pedaço de galinha ou, raramente cabra, acompanha o arroz. Acessível, podemos experimentar no mesmo prato diferentes paladares. Nós, encontramos ajuda na colher, os indianos tudo comem à mão, acto que requer prática! Quando daqui sairmos, seremos uns experts, com toda a certeza! 05 – Cochim – Uma das desilusões desta viagem. Cochim fica no coração do Kerala, o estado mais a sul da Índia e também o mais literado. A passagem de portugueses, primeiro, depois holandeses e mais tarde ingleses, fizeram a história de Cochim. O centro antigo, mais conhecido por Fort Cochim – nome dado depois do forte em volta da cidade construído pelos portugueses – é o sítio mais atrativo da cidade. Chegámos, passeámo-nos e tentámos encontrar remniscências de um Portugal antigo: nas ruas, nos nomes, nas igrejas, nas pessoas. De Portugal, pouco resta: uma basílica, a primeira igreja construída – que agora nem católica é, mas sim protestante – uma meia dúzia de casas com aspecto lusitano, uma delas um hotel chamado Vasco Guesthouse, onde, afirma o proprietário, Vasco da Gama viveu e morreu e nada mais. A cidade foi transformada e destruída pelo turismo. No centro da mesma, um museu indo-português financiado pela Gulbenkian, mostra-nos em três pequenas salas, memórias do nosso país, poucas. Não encontrámos razão para ficar mais do que uma noite e só as redes chinesas instaladas no mar, fazem deste sítio um apelo à fotografia. 06 – E tudo seria perfeito! – Dentro do museu indo-português e à nossa pergunta sobre a maioria religiosa no Kerala, o responsável responde-nos: primeiro hindus, depois cristãos, logo a seguir muçulmanos e poucos judeus. “Mas todos vivemos em paz, no Kerala!” e, para o provar, leva-nos até à fechadura característica da região. Nela, podemos ver motivos de todas as religiões que o habitam e ainda mais motivos chineses, um dos povos que também povoou a região, trazendo as tão famosas redes de pesca, postal da cidade. Nós deliciamo-nos com a fechadura e pensamos que se assim fosse em todo o lado, “tudo seria perfeito!”
07 – Palácio Tirumalai Nayak – Construído em 1636, hoje somente o portão principal, o hall de entrada e o grande salão de dança sobrevivem. O centro do edifício, uma mínima parte do original, tem 75 por 52 metros e dá bem para imaginar a dimensão do palácio aquando da sua construção. É considerado um dos edifícios arquitectonicamente mais bonitos e importantes do sul da Índia. Nas suas centenas de colunas brancas, apaixonados eternizam o seu amor, levando já os responsáveis pelo palácio a deixar vários cartazes afixados proibindo o “amor eterno”. Lá de cima, esculpidas em todo o lado, bizarras e grotescas figuras olham-nos e acompanham-nos a cada passo! 08 – Sri Meenakshi Temple – Um complexo de seis hectares faz o mais bonito postal de Madurai. Construído a partir de 1560 por Vishwanata Nayak, a mando do então governador Tirumalai Nayak, a sua história remonta a 2000 anos atrás, quando Madurai era capital do império Pandyan. Constítuído por 12 torres coloridas e esculpidas com animais e figuras celestiais, todas elas medindo entre os 40 e 50 metros, acompanhar os milhares de peregrinos que aqui chegam todos os dias, é uma experiência única. Com alguns locais de oração onde aos não-hindus é proibida a entrada, este é um dos locais mais sagrados do sul da Índia e podemos passar horas dentro do mesmo, apreciando todas as esculturas, todos os rituais, escutando a música, as orações. Os tectos coloridos e os motivos pintados nas paredes nos vários corredores, fizeram deste local um dos nossos favoritos no país.
09 – Pormenor – São aos milhares: deuses, divindades, animais, objectos, armas, actos, emoções, cenas de guerra, casamentos, morte, tudo esculpido em 12 diferentes torres que fazem deste complexo o postal ideal! A máquina dispara a cada imagem, a cada passo e perdemo-nos torre acima procurando as esculturas mais originais. A religião hindu atinge neste templo colorido, o máximo da sua beleza. São pelo menos dez mil os visitantes diários que, a juntar ao famoso complexo, têm sempre na ideia que Madurai foi também o sítio onde Gandhi decidiu, em 1921, que nunca mais usaria roupa nenhuma a não ser o khadi, o famoso e tradicional pano que ajudou a eternizar a sua imagem. 10 – Chola Living Temples – Pensado por Rajaraja I e completado em 1010, o complexo de Chola Living Temples, protegido pela UNESCO é a mais emblemática obra de arquitectura Chola na Índia. Dedicado a Siva, este complexo de 240 por 120 metros, foi construído com pedras de granito trazido de uma distância de 50 quilómetros. O templo principal tem uma altura de 61 metros e é todo ele esculpido com imagens de deuses, divindades e outros rituais. A toda a vota do templo, nomes de músicos, poetas e bailarinos lembram que esta foi uma importante área de desenvolvimento das artes. Frente ao principal templo, uma estátua do touro Nandi, feito numa pedra única com 25 toneladas, é uma das maiores estátuas dedicadas ao mesmo em todo o país.
11 – Peregrinos – Chegam de todo o lado para prestar homenagem aos seus deuses e divindades, para rezar, para visitar ou simplesmente para acompanhar alguém. Os indianos movimentam-se em prol da fé como antes nunca vimos em nenhuma outra religião. Vêm aos grupos, maioritariamente de homens e enchem comboios, autocarros e fazem com que a Índia nunca pare, nem por um minuto, mantendo o país acordado. São milhões que cruzam todos os dias de ponta a ponta, tendo como destino um qualquer templo, por mais pequeno que seja, numa colina por mais afastada e distante de tudo que esteja. Vêm quase sem qualquer roupa, usando somente os trajes tradicionais e ficam-se só por umas horas, apanhando um novo transporte que os leve a outro qualquer lugar! 12 – Mamallapuram – A maior parte dos templos, grutas e esculturas foram completadas durante o reinado de Narasimha Varman I (630-668 DC) e de de Narasimha Varman II (700-728 DC). Património Mundial da UNESCO, este espaço, juntamente com o mais antigo templo no sul da Índia, conhecido pelo Shore Temple, mesmo em cima do mar e do complexo Five Rathas, constitui uma visita obrigatória a esta pequena povoação. À chegada ao local, deparamo-nos com uma das mais impressionantes obras, um painel de 30 por 12 metros (fotografia), onde se podem ver animais, deuses e outras divindades, bem como algumas fábulas dos livros hindus Panchatantra, que é rasgado a meio por uma fissura que, originalmente, teria água a correr, representando o Ganges. Ainda no meio do imenso espaço de templos e esculturas, uma imensa rocha em forma de bola, desafia todas as regras da lei da gravidade. O sítio ideal para a fotografia eterna!
13 – Preços – Não concordamos. Ponto. Apesar de muitos turistas nos dizerem que “não está mal”, continuamos a achar que a política de preços diferentes para turistas e locais é ridícula e sem fundamento. O facto de pensarem que assim é porque temos mais dinheiro, é errado. Na Índia existem mais de três dezenas de bilionários e todos eles, se vierem visitar um monumento, pagam como locais e têm bem mais dinheiro que nós. O facto de dizerem que vimos de fora e temos mais dinheiro, é errado. Um indiano a viver em Inglaterra, com nacionaidade inglesa, tem um salário com certeza, maior do que o meu e quando vem à Índia, paga como se fosse indiano. Está mal. Depois, sendo um sítio protegido pela UNESCO, deveria conceder o mesmo acesso a toda a gente, ao mesmo preço, ou não fosse o monumento Património Mundial da Humanidade. Muitas razões poderia apresentar. Imaginemos nós que, a partir de hoje, cobrassemos mais dinheiro aos alemães e aos noruegueses por visitar os monumentos em Portugal, só porque achamos que ganham mais do que nós…no mínimo impensável, não?