A Bulgária era um país fora do nosso plano inicial, e ainda bem que o alterámos! Estamos no país quase há 15 dias e a vontade de o deixar é nenhuma! Desde Blagoevgrad, a primeira cidade em que ficámos, até Harmanli, aquela onde estamos neste momento, que a sucessão de situações felizes nos tem acompanhado! Em todos os sítios por onde passámos até agora arranjámos alojamento em casa de pessoas, excepto num deles, que tivemos vontade de acampar, tal era a paisagem que tínhamos à nossa frente! Em todos os sítios fomos para ficar por uma noite ou duas e no fim acabámos por ficar 4 ou 5! Em quase todos os países em que passámos no leste nos avisaram: “tenham cuidado com a Bulgária…aquilo acho que é só ladrões” e, até agora, – e estamos a 50km da fronteira com a Turquia! – só apanhámos pessoas fantásticas, com vidas fantásticas, com ideais fantásticos e com ideias de futuro no mínimo utópicas mas que, nem por isso, deixam de ser fantásticas!
Aldeias culturais, escolas onde se aprende com a terra, com o céu e conversando com os mais velhos, uma fundação de arte a querer instalar-se em meia dúzia de casas abandonadas na fronteira com a Grécia e mais uma série de projectos que, pelo menos, fazem sonhar! Conhecemos estrangeiros que se mudaram para a Bulgária porque sim, outros porque é barato, outros até em busca do amor ou “(…) traçando duas linhas de canto a canto no mapa do mundo, o centro do universo, se virem, é a Bulgária! E é por isso que aqui estou!” – dizia-nos outro ainda! Encontrámos amigos de amigos em Portugal, que nos deram um lar durante uns dias seguidos e que nos fizeram sentir em casa, tal era a falta que já sentíamos dela! O simples facto de naqueles dias termos podido lavar a casa de banho, colocar a fruta num prato em cima da mesa ou pôr um saco novo no caixote do lixo, fez-nos sentir nas nuvens, tal era o tempo em que já não tínhamos este tipo de tarefas…diárias! Conhecemos pessoas que não comem nada embalado, nenhum fruto ou legume fora de época, nada que leve adubos, que nos levaram a nascentes de água quente, a meio da noite, para que tomássemos o nosso banho diário, já que na aldeia onde viviam, a água tinha faltado e não sabiam quando voltaria! Conhecemos uma família que vivia numa casa afastada de tudo, e que acreditava que tudo tinha vida: a água, as pedras, os objectos e por aí fora; que vendiam arte – quadros, fotografias, instalações – e que não tinham dinheiro para nada – só para “devorar” cigarro atrás de cigarro – mas que não estavam preocupados, pois sempre que estavam mal, alguém chegava ao seu atelier para adquirir uma peça de arte caríssima que os ajudava a sobreviver mais uns tempos! Um casal mais novo que nós, que vivia num apartamento no centro da cidade – mas com o sonho de viver numa aldeia onde a “televisão” não chegasse – sempre com a casa cheia de gente: amigos, conhecidos ou alguém que, tendo sido encontrado na rua e sem sítio para dormir, foi parar lá a casa e por lá ficou 2 dias. Viviam dos trabalhos que apareciam, e à noite juntavam-se com uma série de amigos na rua para conviver, dançar, e tocar para quem passasse, em troca de umas moedas que eram repartidas por todos no fim! O impressionante, é que muita gente parava, batia palmas e agradecia o facto de ali estarem, a aquecer aquela noite que ainda não era muito fria! Ficámos alojados em casa doutro casal que viajava pelo mundo sempre à boleia, que se recusava a apanhar transportes públicos e que, o primeiro voo que fizeram, foi também o seu último, pois a partir daí, também se recusavam a apanhar aviões! Tinham acabado de chegar de uma viagem de 10 meses pela Ásia, Austrália e Nova Zelândia (o famoso voo) sempre à boleia, sempre a acampar, a comer o que encontravam na rua e do que as pessoas lhes davam e a passar por experiências incríveis, como aquela em que ficaram 5 dias acampados ilegalmente junto à barreira de coral australiana, experiência que custa normalmente, mais de 100€ por apenas duas horas!
O que levamos da Bulgária, além das pessoas que encontrámos, são as paisagens incríveis! Os Balcãs são, sem qualquer sombra de dúvida, a nossa parte favorita na Europa! A Bulgária tem tudo o que se pode desejar para uma viagem se tornar inesquecível! Rios, montanhas, pessoas bondosas, paraísos selvagens, mar, custo de vida muito baixo, história e um sem número de outras coisas que nos põe a pensar: Como é que ainda ninguém descobriu isto? – e depois nos vê responder: Ainda bem! Sairemos para a Turquia amanhã mas, no nosso regresso a Portugal, já estamos a planear um regresso a uma ou outra cidade para, além de rever pessoas com quem queremos passar muito mais tempo, aceitarmos o convite do Francisco – um professor a leccionar português numa universidade em Sofia – para falar com as suas turmas acerca da nossa experiência! E esta foi, talvez, uma das coisas que mais nos impressionou na Bulgária: a quantidade de pessoas interessadas no português mas, mais do que isso, a terem aulas, a estudar e a falarem perfeitamente! Como é que um país que nenhuma ligação tem com Portugal, tem tanta gente interessada na aprendizagem da sua língua? Não conseguimos descobrir e quando perguntávamos a um búlgaro o porquê do português, na maior parte das vezes a resposta era só uma: Porque eu adoro português, é a língua mais bonita que existe! – e aquele saudosismo que nada gostamos, mas que é tão frequente em nós – os portugueses – fazia-nos soltar um sorriso de orelha a orelha! A Bulgária marcou-nos a sério!