No fundo, o que as tradições religiosas fizeram foi apenas conformar-se com as civilizações existentes, o que levou as mulheres a tornarem-se vítimas de violência, seja na dimensão moral, psicológica, patrimonial, financeira, física ou sexual. E isto sucedeu praticamente em quase todas as épocas e culturas dominantes.
Porém, e apesar de a fé cristã ser acusada recorrentemente de promover esta situação discriminatória e indigna, a verdade é que a violência de género não encontra base teológica nos textos sagrados dos monoteísmos, tendo em atenção uma exegese séria.
Segundo a investigadora brasileira Lidice Meyer, autora do livro “Cristianismo Feminino” (Editora Mundo Cristão): “A Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, possui histórias de mulheres que sofreram algum tipo de violência masculina, chegando em alguns casos ao feminicídio. Muitas destas histórias ocorrem em um contexto patriarcal que não raramente privilegia o direito do homem em detrimento ao da mulher. O que não se comenta, porém, é que na grande maioria dos casos relatados as suas histórias visam sinalizar um sistema em desequilíbrio. O pouco conhecimento e a leitura superficial destes textos têm causado há séculos um grande mal à mulher na igreja. A interpretação inadequada do texto bíblico tem muitas vezes sacralizado relações de violência contra a mulher ao invés de gerar conscientização e a busca de um melhor relacionamento entre os gêneros. E assim, se o cristianismo primitivo se pautava na igualdade de gêneros e na dignidade da mulher, isto foi se perdendo no decorrer do caminho até nossos dias.”
Ainda agora o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, compartilhou um vídeo da CNN na sua rede social no qual diversos pastores cristãos afirmam que mulheres não devem ter direito ao voto. É neste ponto que estamos, com a agravante de inúmeros estudos académicos concluírem que “grande número de mulheres cristãs que sofrem violência dentro de suas casas serem orientadas pela liderança da igreja a silenciarem-se em prol da manutenção do casamento”. Isto sucede no Brasil e em muitas outras partes do mundo. O mesmo país onde, ao que se sabe, 50% das trabalhadoras são demitidas devido à maternidade e depois demoram cerca de quatro anos para regressar ao mercado de trabalho.
Os mantras da submissão e da obediência ao marido, retirados de textos bíblicos descontextualizados, apenas pretendem estabelecer o controlo pessoal e social sobre a mulher, manipulando-a através da culpa por não seguir tais orientações eclesiais. Nietzsche dizia que o casamento está fundado sobre o instinto de propriedade (a mulher e os filhos como propriedade) e sobre o instinto de dominação que se organiza na família como uma pequena soberania.
Há que combater este cristianismo bafiento, misógino e deturpador da palavra e da acção de Jesus Cristo, a começar pela formação adequada das lideranças religiosas, mas também pela consciencialização das mulheres, que não devem tolerar em caso algum a violência doméstica. Quando um líder religioso diz a uma mulher que sofre persistente violência do marido sobre ela ou os filhos menores, que tenha paciência, mantenha a relação e ore a Deus pela mudança do marido, devia dizer que ore, sim, mas à distância e que tem o dever de denunciar tal crime.
A verdade é que ninguém fez tanto pela mulher como Jesus de Nazaré, como se pode atestar pela simples leitura dos evangelhos. Enfrentou a sede de sangue dos machos perante uma mulher fragilizada por ter sido apanhada em adultério. Todavia esses mesmos religiosos deixaram ir o adúltero em paz quando a lei de Moisés prescrevia penalidade idêntica para ambos os amantes.
O Mestre prestou sempre atenção às necessidades, dores e sofrimento das mulheres em inúmeros episódios, não fazendo qualquer espécie de discriminação com os homens. Quem se diga cristão e exerça violência de género contra as mulheres está em contramão com o evangelho de Cristo e a própria essência da fé.
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