E se, de repente, aquelas suas fotos dos anos 90 estivessem numa página de memes, ou se o seu vídeo embaraçoso dos anos 2000 se tornasse viral? Talvez sejam dilemas sobre os quais as gerações anteriores à geração Z nunca tenham precisado de pensar. Mas o que dirão as gerações Z e, sobretudo, a Alfa e, futuramente, a Beta?
Quando um adulto decide publicar, numa rede social, conteúdo de uma criança, seja uma fotografia ou um vídeo, mesmo que, à partida, seja algo aparentemente sem qualquer tipo de questão ética, estará a agir de forma moralmente correta? Ou estará a construir uma biografia da criança, não tendo, à partida, consciência do efeito que poderá ter no futuro?
Sei que esta preocupação pode parecer algo exagerada perante uma simples foto do João e do seu pai na esplanada de um café, com a simples descrição “o lanche do costume”…
Segundo Batista e Costa (2021), os adultos responsáveis, ao publicarem conteúdos online dos filhos, devem ter em consideração a facilidade de propagação, que pode fazer com que esses conteúdos cheguem, facilmente, a uma esfera pública que não estava inicialmente tida em conta, podendo interferir não só na sua privacidade como aumentar a sua exposição a potenciais riscos. Basta um letreiro de um café para alguém mal-intencionado saber que o João e o pai lancham com frequência nesse local.
Outro caso: a Teresa tornou-se – ou foi tornada – influencer aos 5 anos, através da publicação constante de conteúdos seus numa página gerida pelos seus pais. A Teresa irá crescer, formar a sua personalidade e os seus ideais e, se um dia quiser ter essa parte da sua vida omitida, será bastante difícil após tanta exposição.
E sim, claro, todos nós temos aqueles álbuns de família que a nossa mãe mostra a algumas visitas, e que contêm fotos, no mínimo, impróprias. Mas o problema está na escala de divulgação a que um conteúdo físico guardado no móvel da sala pode chegar, comparado com um conteúdo divulgado online. Crescer implicava também que muitas versões anteriores de nós desaparecessem ou fossem esquecidas no tempo. Mas como a Teresa vai conseguir fazê-lo? E, obviamente, a Teresa adolescente/adulta até pode ficar feliz com toda a exposição que os pais lhe deram, mas não teve o direito de escolha…
Também eu já publiquei fotos e vídeos dos meus sobrinhos, ainda menores, pensando que não havia mal. Estarei, através deste sharenting, a contribuir para moldar, à partida, a sua identidade digital antes de começarem a construir autonomamente a sua presença online? Talvez…
Estaremos, assim, perante gerações que nunca terão o seu passado privado? É óbvio que isto soa um pouco a generalização. Continua a haver muitos pais e responsáveis de menores que não publicam qualquer conteúdo online, mas também existem muitos que o fazem.
Permitam-me ainda introduzir o conceito de herança digital (Porfírio, 2025), que reflete aquilo que pode ser herdado no mundo digital, neste caso pelos adolescentes quando assumirem o controlo da sua imagem e da sua pegada digital.
Assim, poderão, à partida, herdar uma biografia e uma identidade que não refletem realmente aquilo que são, mas sim uma representação criada por outrem, que pode até gerar algum embaraço e desconforto.
Este texto não pretende ser uma crítica a quem partilha este tipo de conteúdos, até porque, pensem bem, qualquer utilizador que carregue num vídeo porque na capa está o filho de um influencer a fazer algo engraçado, não estará também a contribuir para o crescimento deste tipo de conteúdos e publicações?
Um estudo recente de Suárez-Álvarez e Pastor-Rodríguez (2026), com 12 pais influencers de França, Itália, Espanha e Reino Unido, concluiu que, das 592 publicações de sharenting identificadas entre as 1788 publicações analisadas (no Instagram e no TikTok), 85,8% mostravam as crianças claramente identificáveis.
De notar, por fim, que deve ser feita uma clara distinção entre um influenciador que expõe o seu filho e tem 100 mil seguidores e um pai que tem uma conta privada no Facebook com 120 amigos – o nível potencial de exposição é, obviamente, muito diferente.
Contudo, dilemas como a construção indeliberada da identidade e da biografia digital da criança continuam a poder estar em causa, bem como os perigos inerentes a tal exposição.
Repito: não é uma crítica. Pretendo apenas que o leitor pense sobre isto e que questione se estaremos a ser eticamente corretos com as “nossas” crianças.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.