Rankings das escolas, definição de metas curriculares, avaliação de manuais, exames nacionais a cada final de ciclo, tudo isto que foi sendo feito entre 2000 e 2015 teve como resultado a melhor prestação dos alunos portugueses nas provas internacionais a que foram sendo sujeitos durante aqueles anos.
A partir de 2016, porém, e com a definição do perfil do aluno em 2017, fomos gradualmente deixando de olhar para a educação enquanto formação de futuros quadros com qualidade. Isso exige conhecimento geral, um saber assente em leituras, ancorado na curiosidade científica, e não foi a exigência e o rigor o que perseguimos, mas sim um modo provinciano de estarmos “up to date” para sermos muito modernos.
A partir de 2017, agimos de forma irresponsável: gradualmente substituímos o saber ler e o saber escrever, o saber pensar e o questionar por um modelo virtual, digital, de educação.
A internet, os computadores, eis o que, quase caricaturalmente, define hoje o nosso ensino. Abandonámos há muito a leitura exigente, crítica, e preferimos o embuste do ChatGPT, dos smartwatches, enfim, de toda a parafernália tecnológica que nada garante a não ser o laxismo e uma ilusão de progresso. Não se vê o óbvio: não há uma estratégia nacional para a educação. E, digo-o há muitos anos, tal estratégia nacional deve passar, tem de passar, por uma aposta definitiva nas Humanidades. Concretizo: não deveria ser possível a nenhum estudante do 12º ano candidatar-se à universidade cometendo erros ortográficos, escrevendo uma sintaxe ilegível, sem ter lido na íntegra obras do currículo – e não só de Português.
É inaceitável, a meu ver, que, seja no público ou no privado (tenho essa experiência e vi e vejo isto há anos), um aluno não saiba, ao fim de 12 anos de ensino, regras de acentuação, datas de acontecimentos culturais e políticos, sociais e históricos, relevantes na história da Humanidade. É mesmo grave que, estudando-se Filosofia, não se leiam obras e não se conheçam o pensamento de Parménides, de Platão, de Aristóteles, de São Tomás de Aquino, de Descartes, de Kant, de Hegel, de Nietzsche…
Hoje não vemos nenhum aluno com uma edição do Fédon ou do Discurso do Método, da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, na mão. O resultado do PISA não deve espantar ninguém. Só mesmo a incúria de ministros e de equipas ministeriais fascinados pelo que é modernaço esquecem que há um princípio basilar na educação: para a formação de crianças e de adolescentes, a leitura dos clássicos, do que não morre, é essencial.
Desde 2017 e, especialmente, com e depois da pandemia, a educação tornou-se o lugar da facilidade em tudo (para o aluno) e, para mascarar a ausência de saber e de exigência nas escolas, tornou-se o inferno burocrático (para os professores); um inferno de relações humanas: de professores esgotados e fartos da sua profissão, oscilando uns entre o “deixa andar” de aulas onde grassam a indisciplina, a incompetência e a desistência, oscilando outros entre o porreirismo serôdio (o professor amigalhaço dos alunos) ou o frio executor de grelhas avaliativas, ou ainda o fanático adepto do digital que transforma as aulas em permanentes sessões de jogos didáticos, com recurso ao digital.
Há ainda, neste tempo de progressismos vários, os defensores da IA nas escolas e nas universidades, os que consideram genial já ninguém ter de saber escrever porque o ChatGPT faz tudo por nós. Ora, como escreveu Eduardo Guerra Carneiro: “Isto anda tudo ligado.” Lamentamos os resultados do PISA, mas não eram de esperar tais resultados?
Exames não exigem nada
Outra achega: a prova da falência educativa em Portugal passa também, por um lado, pela indigente forma como hoje, chegados ao 12º ano, os alunos portugueses entram nas universidades. Já me referi à total ausência de leituras, à soez incultura dos que hoje vão para a universidade. Dou mais uma ajuda, apresentando o óbvio: os exames a que são submetidos os alunos nos últimos 15, dez anos, não exigem nada. São de um facilitismo que roça a idiotia. O caso mais escandaloso é, julgo, o Exame de Português e também o Exame de História. Já quase não têm de saber escrever, nem têm de ter lido nada os estudantes que hoje fazem esses exames. São, pois, muitos anos de laxismo, de ignorância oficializada a que se soma a qualidade da formação de professores, pensada toda ela sem verdadeira preocupação em garantir qualidade científica nas aulas.
Prova disso mesmo é, no ensino do Português, o caso específico de uma universidade em Lisboa, no curso de Estudos Portugueses, o conluio (as pessoas conhecem-se) entre a professora responsável, nesse departamento, pela formação de professores de Português (produziu pouquíssima investigação nesta área e não se lhe conhece nenhuma posição digna de registo, não obstante dar aulas na universidade) e a escolha, sem critério e sem avaliação mínima do currículo, de uma outra docente de Português, sua amiga, que orientará estágio num liceu da capital. Eis Portugal: só porque é amiga da docente que, na universidade, tem a seu cargo a formação de futuros professores, entrega-se a uma professora do Secundário sem obra publicada, sem pensamento ou visão dos problemas da educação, a orientação de estágios…
É este um caso entre tantos outros, parecidos. Mais graves uns do que outros. Mas todos com um diapasão comum: a ausência de uma verdadeira estratégia nacional para a educação. Dos estágios orientados em função de amizades aos lugares de muitos, no EduQa, antigo IAVE, por indicação deste ou daquele ministro, deste ou daquele secretário de Estado, a impressão que temos é de que na educação, no fundo, só importa uma ideia: “safar””, facilitar, inflacionar classificações para os pais não chatearem os professores. Inflacionar notas para que todos – professores, pais e alunos – vivam na paz podre de um sucesso falseado.
Responsabilidade
da Universidade
Os resultados do PISA revelam ainda mais qualquer coisa de que não se fala muito: a responsabilidade da Universidade quanto ao modo como se formam quadros neste país. Neste particular, para além do caso que expus acima, do conluio entre uma professora que tem a seu cargo a formação de professores numa universidade de Lisboa e a amiga dessa professora, docente de Português num liceu histórico e de renome (a orientação de estágios pressupõe que se escolham metodólogos de qualidade e não compinchas de bastidores), creio que uma estratégia nacional para a educação em Portugal passa por uma criteriosa avaliação dos currículos dos professores que, lecionando no Secundário, deveriam estar em permanente contacto com o Superior. A feitura dos programas, desde o 1º ciclo ao Secundário, bem como a conceção dos exames de final de cada ciclo, não exige que se chamem os melhores?
E aqui batemos num ponto que extravasa os resultados do PISA. Não há uma estratégia para a educação no nosso país porque, no fundo, desde o ministro à sua equipa, passando pelos que estão no EduQa, até aos departamentos de universidades e com extensões nas escolas, o que impera é mesmo a mediocridade, o conluio, o facilitismo, a aparência de rigor.
Os resultados do PISA apenas confirmam o que professores como Paulo Prudêncio, José Paulo Santos, Paulo Guinote, Raquel Varela, João Marôco, António Guerreiro, Carlos Ceia, e, antes de todos, Maria do Carmo Vieira, dizem hoje, ou dizem, repetem, há muitos anos: não se trata só de fazer mais exames. A qualidade das aulas é condicionada, foi condicionada por exames nacionais que asfixiaram a dimensão cultural que assiste à educação, em qualquer grau de ensino. Não se trata só de termos estupidamente defendido uma educação para as competências, mas sem conteúdos. Não se trata só de haver quem defenda o digital esquecendo a importância do escrever à mão, a interdependência entre o pensamento, a palavra dita e escrita e a ação. Os resultados do PISA expõem, com a mais cruel evidência, a irresponsabilidade nascida do provincianismo (até João Costa o admite, ele que foi ministro da tutela).
Mas não se disse tudo: é que os estudantes hoje, que se passeiam pelas escolas e pelas universidades, de praxe em praxe, de ganza em ganza, de TikTok em TikTok, perderam por completo uma ideia de escola. Do modo como se sentam ao português que falam, qualquer estratégia nacional para a educação será infrutífera se continuarmos a defender que educar e formar é possível num país onde não se lê, onde a televisão estupidifica, onde não se compram jornais; num país cujos políticos são, eles próprios, na sua incultura, na sua corrupção, fruto de um sistema que se americanizou há décadas; fruto, esse sistema, de reformas que visaram facilitar e que, matando a classe docente com salários indignos, não chama os melhores, mas o refugo.
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