Às nove da manhã, já havia mortos a regressar em sonhos no Kursaal. Às onze e meia, Jean Valjean voltava a roubar o famoso pão que há quase dois séculos lhe estraga a vida. Nada mau para primeiro dia de festival. San Sebastián começou esta sexta-feira, 18 de setembro, sem perder tempo com aquecimentos: Geister / Ghost Song, de Fatih Akin, abriu a Secção Oficial numa sessão de imprensa matinal antes da gala desta noite; Os Miseráveis, de Fred Cavayé, teve, às 11h30, a sua primeira projeção para imprensa e acreditados, embora a apresentação oficial com a equipa esteja marcada para amanhã. Pelo meio, Werner Herzog anda pela cidade como Werner Herzog anda pelo mundo — aparentemente convencido de que tudo o que os outros consideram impossível merece pelo menos uma longa-metragem — e recebe esta noite o Prémio Donostia, entregue pelo ator Orlando Bloom (Bucking Fastard), antes da projeção de abertura de Ghost Song. É, portanto, um arranque muito alemão, do realizador de Bukcking Fastard, que veio diretamente da Competição de Veneza para um festival basco onde o cinema francês também decidiu entrar pela porta grande.
Fatih Akin: morrer aos vinte anos ainda não resolve uma história de amor
Ghost Song começa com uma balada adolescente, um melodrama sobrenatural ou um anúncio particularmente sofisticado a uma operadora de telecomunicações do Além. Farasha e Faris têm vinte anos, conhecem-se numa festa de finalistas, apaixonam-se num olhar e, nessa mesma noite, ela morre. Problema. Ou talvez apenas o princípio de tudo. Farasha consegue regressar aos sonhos de Faris durante quarenta noites e Akin constrói a partir daí uma história de amor entre dois mundos, filmada a preto e branco, atravessada pela espiritualidade islâmica da sua própria formação e contaminada pela manga e pela anime que descobriu através dos filhos. O realizador de Contra a Parede, Do Outro Lado e Em Pedaços — depois de Amrum, apresentado em Cannes em 2025 — decidiu fazer aquilo a que chamou uma espécie de “cinema de autor para adolescentes”, o que dito assim parece uma contradição comercial, mas talvez seja precisamente aquilo de que certo cinema europeu anda a precisar: lembrar-se de que o público não nasce aos cinquenta anos com uma assinatura da Cahiers du Cinéma.
Akin vai buscar a Your Name, A Silent Voice, Miyazaki e companhia uma gramática emocional que Hollywood já não monopoliza e mistura-a com uma tradição europeia muito menos preocupada em explicar o sobrenatural. São 106 minutos sobre desejo, luto, juventude, morte e essa extraordinária arrogância que todos temos aos vinte anos de acreditar que nem a morte deve ter a última palavra. O mais interessante está precisamente aí: Ghost Song não parece querer transformar o fantasma numa engenhoca narrativa, mas numa extensão da incapacidade de aceitar a perda. O preto e branco, que nasceu durante a montagem depois de Akin se habituar a trabalhar sem cor, empurra a história ainda mais para um território de sonho e de memória. Akin troca aqui parte da violência social dos seus filmes anteriores por uma violência talvez mais primitiva: a de descobrir que amar alguém não lhe concede automaticamente direito à eternidade. Para uma abertura de festival, é uma escolha estranha, melancólica e bastante mais interessante do que começar com uma produção tão respeitável que já esteja morta antes dos créditos iniciais. A primeira receção local sublinhou precisamente esse lado hipnótico e emocional da obra.
Victor Hugo, 178 minutos e nenhum sinal de reforma
Depois foi a sessão de nova versão de Os Miseráveis. Sim, outra vez. Victor Hugo escreveu o romance em 1862 e, desde então, Jean Valjean já teve mais vidas cinematográficas do que James Bond, Batman e, provavelmente, Drácula juntos. A questão deixou há muito de ser “porquê adaptar novamente Os Miseráveis?” e passou a ser “o que é que ainda podemos fazer com Os Miseráveis?”. Fred Cavayé responde de forma bastante francesa: não mexer demasiado na mobília, mas escolher atores suficientemente fortes para que ninguém esteja a olhar para as cortinas. São 178 minutos de Jean Valjean, Javert, Fantine, Cosette, Marius, Thénardier, barricadas, miséria, justiça, redenção e a eterna pergunta de Hugo: uma lei sem humanidade continua a ser justiça ou transforma-se apenas numa forma burocrática de crueldade?
Vincent Lindon é Jean Valjean e isso, à partida, resolve metade do problema. Lindon tem aquele rosto que parece trazer já incorporadas quarenta páginas de sofrimento social, dois sindicatos em greve e uma discussão com o Estado francês. Tahar Rahim é Javert e oferece-lhe a oposição certa: disciplina, obstinação, autoridade e a convicção particularmente perigosa de quem nunca duvida. À volta deles estão Noémie Merlant como Fantine, Camille Cottin e Benjamin Lavernhe como os Thénardier, além de Vassili Schneider, Megan Northam e Marie Colomb. Cavayé não tenta desmontar Victor Hugo para provar que é mais inteligente do que Victor Hugo — empreendimento que costuma acabar mal — e prefere uma adaptação de grande fôlego clássico, musculada, respeitadora e construída em torno do confronto Valjean/Javert. É, simultaneamente, a sua principal força e o seu limite: uma das primeiras reações ao filme aqui em San Sebastián considera precisamente que a fidelidade ao romance produz um drama histórico sólido, muito bem interpretado, mas pouco interessado em reinventar o material. Concordo.
E talvez não seja necessário reinventá-lo. A pobreza continua por aí, a desigualdade também, o fanatismo legalista — quando se impõe ordem em excesso acaba por culminar em caos — não parece ter entrado em reforma e homens convencidos de que aplicar uma regra é mais importante do que compreender uma pessoa continuam a ocupar cargos bastante respeitáveis. As ideias de Victor Hugo envelheceram, de facto, melhor do que seria desejável. Fred Cavayé percebe isso e faz de Os Miseráveis maisum exercício arqueológico do que uma gigantesca máquina narrativa sobre o confronto entre justiça e misericórdia. Quase três horas depois, sobra uma evidência: mudaram as roupas, os penteados e os meios de transporte; a espécie humana continua com alguns problemas de argumento por resolver.
Herzog recebe um prémio. O mundo continua insuficientemente estranho
Mas o protagonista institucional deste primeiro dia chama-se Werner Herzog. O realizador de Aguirre, a Cólera de Deus, Fitzcarraldo ou O Enigma de Kaspar Hauser recebe esta noite o Donostia por cerca de seis décadas e perto de oitenta filmes feitos segundo uma regra artística muito simples: se existe uma maneira sensata de rodar uma cena, provavelmente não interessa. Herzog chegou a San Sebastián depois de Veneza com Bucking Fastard, protagonizado por Rooney Mara, Kate Mara, Orlando Bloom e Domhnall Gleeson, uma história de irmãs gémeas que falam em uníssono, partilham sonhos e até o mesmo homem, porque uma relação sentimental normal seria, evidentemente, demasiado convencional para Werner Herzog. Orlando Bloom, que já estava em San Sebastián desde quarta-feira, é precisamente quem lhe entrega o PrémioDonostia na gala das 20h30. Quando perguntaram recentemente ao alemão por que razão continua a interessar aos jovens, respondeu essencialmente que é porque os seus filmes são muito bons. Aos 84 anos, a falsa modéstia já seria uma perda de tempo.
Este primeiro dia também serve para perceber a dimensão do menu que nos espera e sobretudo aquilo que estreia mesmo aqui, porque muito já vimos em outros festivais: Andrey Zvyagintsev traz Minotauro, vindo de Cannes; Hope, de Na Hong-jin, está igualmente nas salas; Brad Pitt chegará com Heart of the Beast, de David Ayer; Marion Cotillard acompanha Nicole Garcia em Milo; Jesse Eisenberg traz The Debut; Rami Malek surge em The Man I Love, do próprio presidente do júri, Ira Sachs; e pela cidade irão passar Penélope Cruz, Ricardo Darín, Jeremy Irons, Pablo Larraín, Diego Luna, Cristian Mungiu, Pawel Pawlikowski, Tsai Ming-Liang, Noémie Merlant e uma quantidade de gente suficiente para transformar o Hotel María Cristina numa espécie de aeroporto de estrelas com melhores sofás e todos eles ocupados. São 263 títulos de 47 países e, no meio dessa abundância, José Luis Rebordinos cumpre a sua última edição à frente do festival antes de entregar a direção a Maialen Beloki, que já é, há alguns anos, o braço direito do atual diretor. Por isso, aqui existe igualmente uma importante passagem de testemunho: a partir de 2027, pela primeira vez, uma mulher comandará o Zinemaldia/Festival de Cinema de São Sebastián.
E amanhã, Naomi Watts
E quando ainda estivermos a digerir os fantasmas de Akin, Victor Hugo e a metafísica particular de Herzog, amanhã chega Naomi Watts ao centro da festa. Na verdade já está em San Sebastián, mas no sábado, 19, às 22h15, recebe no Kursaal o segundo Prémio Donostia desta edição, entregue pelo cineasta J. A. Bayona, antes da projeção de The Housewife, estreia na longa-metragem do canadiano Ben Shirinian. Watts chega com uma carreira onde cabem Mulholland Drive, de David Lynch, 21 Gramas, O Impossível, King Kong, Promessas Perigosas e Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), duas nomeações para o Oscar e aquela rara capacidade de passar do cinema independente para Hollywood sem parecer ter mudado de profissão.
Por enquanto, o Dia 1 fica entregue a um fantasma apaixonado, a um condenado que tenta deixar de o ser e a Werner Herzog, que, aos 84 anos, continua aparentemente a ser um rapaz convencido de que a realidade sofre de falta de imaginação. San Sebastián começou bem: Ghost Song pergunta se o amor consegue atravessar a morte, Os Miseráveis pergunta se a justiça consegue sobreviver à lei e Herzog, felizmente, continua sem fazer perguntas que possam ser respondidas com facilidade. Amanhã há mais. E isto ainda agora começou.