Vivi num país da América Central onde, quando chovia muito – e se chovia muito –, a água inundava as ruas trazendo para a superfície as águas pluviais. Ao longo das ruas semi-alcatroadas havia valas onde caranguejos cinzentos faziam a sua casa e, invariavelmente, essas valas transbordavam com uma mistura de água da chuva, do esgoto e, quando estava maré alta, do mar.
O cheiro não era agradável mas, durante algum tempo, vinha à superfície o resultado inevitável da atividade humana que costuma passar despercebido. Na verdade, em situações “normais”, as águas pluviais acabam por ser descarregadas no mar das Caraíbas sem o devido tratamento, e a sujidade torna-se invisível. Ela continua lá e tem efeitos poluentes, mas é mais fácil fingir que não existe quando não lhe sentimos o cheiro.
De uma maneira ou de outra, é assim em todo o lado. A aversão à sujidade não se traduz necessariamente numa obsessão pela limpeza. Os esgotos passam debaixo dos nossos pés, o nosso lixo é enterrado, as excrescências do nosso modo de vida são escondidas. Longe da vista, longe do coração.
Da mesma forma que aceitamos como inevitável que todo este lixo seja produzido como resultado do nosso modo de vida, também aceitamos como inevitável que o nosso modo de vida produza pobreza, uma espécie de excrescência chata do nosso conforto. Não pretendo dizer que estas pessoas são a sujidade das nossas sociedades, mas são objetivamente assim tratadas.
O processo de desenvolvimento industrial e pós-industrial foi tratando de lidar com este fenómeno. Ao longo do tempo, os indesejáveis foram sendo empurrados para bairros específicos, depois para as periferias das cidades, depois para o Sul global. Varrer a sujidade para debaixo do tapete não é a mesma coisa que limpar, mas temos perdido muito tempo e gasto muita energia a criar um tapete cada vez maior.
Não admira que, volta e meia, à semelhança das águas pluviais, haja “sujidade” a emergir. O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa acha que o programa Volta criou um “drama social” porque tem “imagens de pessoas a entrar dentro dos caixotes de lixo”.
A ironia não me passa ao lado. Lembro-me de, antes de ter emigrado, ver os caixotes do lixo da minha cidade-natal cheios de gente à conta das políticas implementadas por um governo do qual Carlos Moedas foi Secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro. Primeiro-ministro esse que, não satisfeito, via uma qualquer virtude no sacrifício (dos outros) e dizia que era preciso “ir além da Troika”. A ironia não passará ao lado de ninguém que tenha memória.
Mas este caso ilustra bem esta cegueira coletiva que acha que o problema de haver pobres é eles serem visíveis. A pretexto de obras e ações de limpeza, o problema da existência de pobres foi sendo “resolvido” varrendo-o para debaixo do tapete. Não admira que o edil ache que o problema da pobreza surge quando essas pessoas se tornam visíveis.
Quando migrantes aparecem na nossa costa e nos nossos aeroportos, vindos de zonas do globo que, à força do neocolonialismo e da globalização, se transformaram em guetos sobreaquecidos e desérticos, o que chateia as pessoas não é a existência de pessoas a viver naquelas condições, é o topete de saírem de debaixo do tapete e se tornarem visíveis.
Para alguns, por conta de um racismo cada vez mais normalizado, trata-se, efetivamente, de lixo que deveria voltar para a lixeira, que é onde pertence. Outros, cuja consciência impede pensamentos tão grotescos, limitam-se a ornamentar o seu discurso com palavras de caridade achando, ainda assim, que tudo seria bem mais fácil e mais bonito se esta “sujidade” toda não estivesse à vista.
O mundo hiper-estilizado em que vivemos não é compatível com isto. Mas vamos precisando de um tapete cada vez maior. Varremos a miséria dos outros para longe como, aliás, varremos a nossa própria miséria para dentro das nossas casas onde vivemos isolados, em frente à televisão, com relações interpessoais cada vez menos significativas e cada vez mais artificiais.
Os decisores políticos vão navegando sob orientação dessa ideia de limpeza e nós vamo-nos deixando enganar. Porque não há pessoas a viver em situações miseráveis se elas estiverem lá longe, longe da vista e longe do coração. E se elas não existem, não precisamos de mudar nada, e se não precisamos de mudar nada, podemos continuar entretidos com tanques, piscinas e trotinetes.
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