Há uma situação que se repete com alguma frequência nas famílias: a prestação da casa, o crédito automóvel, um ou dois créditos pessoais e, pelo meio, o cartão de crédito que foi sendo utilizado para fazer face a despesas extraordinárias. Individualmente, cada prestação pode parecer suportável. O problema surge quando olhamos para todas em conjunto.
É nesse momento que algumas famílias começam a procurar uma forma de reorganizar as suas responsabilidades. E uma das possibilidades passa por consolidar vários créditos num único financiamento, utilizando um imóvel como garantia.
A ideia pode ser simples: juntar diferentes dívidas, substituir várias prestações por uma única e, através de um prazo mais longo e de uma garantia imobiliária, conseguir reduzir significativamente o encargo mensal.
Mas há uma coisa que convém deixar clara desde o início: consolidar créditos não significa pagar menos dívida. Significa reorganizar a forma como essa dívida é paga. E esta diferença é fundamental.
Ter um imóvel pode mudar as possibilidades
Quando falamos de consolidação com garantia hipotecária, muitas vezes pensamos imediatamente numa família que já tem crédito à habitação.
Imagine um casal que comprou uma casa há alguns anos e que, entretanto, acumulou um crédito automóvel e alguns créditos pessoais. O imóvel pode permitir estruturar um novo financiamento que agregue essas responsabilidades, utilizando a casa como garantia.
Mas esta possibilidade não se limita a quem tem crédito à habitação.
Imagine agora alguém que é proprietário de uma casa que recebeu por herança, que comprou sem recurso a financiamento ou cujo crédito já foi totalmente liquidado. O facto de não existir crédito à habitação não significa que o imóvel não possa ser utilizado como garantia de um financiamento, desde que sejam cumpridas as condições exigidas pela instituição financeira e exista capacidade para suportar o novo crédito.
O imóvel passa, neste caso, a desempenhar uma função diferente: deixa de ser apenas património e pode ser utilizado como garantia para obter financiamento.
É precisamente por isso que, quando analisamos uma situação de endividamento, não devemos olhar apenas para os créditos que existem. Também é importante perceber que património existe e que papel esse património pode desempenhar na reorganização financeira.
Onde está a vantagem?
A principal vantagem de uma consolidação deste tipo costuma estar na redução da prestação mensal.
Imagine uma família que paga atualmente:
- 850 euros de crédito à habitação;
- 300 euros de crédito automóvel;
- 250 euros de crédito pessoal;
- 150 euros em cartões e outros financiamentos.
São 1.550 euros todos os meses destinados ao pagamento de créditos.
Uma operação de consolidação poderá permitir substituir várias dessas responsabilidades por um único financiamento, com uma prestação significativamente inferior.
Se essa prestação passar, por exemplo, para 1.050 euros, ficam disponíveis 500 euros por mês.
Para uma família que estava a sentir dificuldade em chegar ao fim do mês, a diferença pode ser muito relevante. Mas é precisamente aqui que temos de parar. Porque aqueles 500 euros não são dinheiro que apareceu.
É dinheiro que deixou de ser necessário para pagar prestações naquele momento, muitas vezes porque aumentámos o prazo durante o qual vamos pagar a dívida.
E é aqui que a consolidação deixa de ser uma simples questão de “baixar a prestação”.
Não é o melhor de dois mundos
Esta é provavelmente a ideia mais importante deste artigo.
É tentador pensar que consolidar créditos permite simultaneamente reduzir a prestação, pagar menos juros e resolver o problema das dívidas. Na realidade, as coisas não funcionam necessariamente assim.
Os créditos pessoais, automóveis ou cartões podem ter prazos relativamente curtos. Ao consolidá-los num financiamento garantido por um imóvel, podemos conseguir uma taxa mais baixa e uma prestação muito inferior, mas também podemos passar a pagar essa dívida durante muitos mais anos.
A prestação baixa, mas o relógio da dívida pode começar a andar mais devagar.
Imagine que existem 40.000 euros de créditos que seriam pagos nos próximos cinco anos. Ao integrá-los num financiamento com uma duração muito superior, o esforço mensal diminui, mas esses 40.000 euros passam a estar associados a um prazo muito mais longo.
Por isso, não devemos comparar apenas:
“Antes pagava 1.550 euros. Agora pago 1.050 euros.”
Devemos também perguntar:
“Quanto vou pagar no total e durante quanto tempo?”
Uma prestação mais baixa pode ser exatamente aquilo de que uma família precisa para recuperar margem financeira. Mas essa vantagem só é verdadeiramente útil se for acompanhada por uma estratégia.
O que fazer com a folga mensal?
É aqui que acredito que está a diferença entre uma consolidação que apenas adia o problema e uma consolidação que pode ajudar a reorganizar as finanças.
Se uma família consegue libertar 500 euros por mês, não deveria simplesmente incorporar esses 500 euros no seu novo nível de despesa.
A folga criada pela consolidação deve ter um destino.
Uma parte pode ser utilizada para construir ou reforçar um fundo de emergência, criando uma almofada financeira para despesas inesperadas e evitando que a família volte a recorrer ao crédito perante o primeiro imprevisto.
Outra parte pode ser utilizada para amortizar antecipadamente o novo financiamento, sempre que as condições e os custos associados tornem essa opção adequada.
Porque o objetivo não deveria ser chegar ao fim do novo prazo e descobrir que estivemos 20 ou 25 anos a pagar uma dívida que poderia ter sido liquidada muito antes. Se a consolidação permitiu reduzir a prestação em 500 euros, não significa que tenhamos de gastar os 500 euros. Podemos, por exemplo, decidir que 250 euros ficam destinados ao fundo de emergência e outros 150 euros são utilizados periodicamente para amortização, mantendo os restantes 100 euros como margem adicional no orçamento.
Os valores são apenas ilustrativos. O princípio é o que importa: uma consolidação deve criar espaço financeiro, não espaço para voltar a contrair dívida.
E existe outro risco: transformar dívida sem garantia em dívida com garantia
Há ainda uma questão que não podemos ignorar. Quando utilizamos um imóvel como garantia, estamos a colocar um património de grande valor por trás da dívida.
Um crédito pessoal pode não estar garantido por um imóvel. Numa consolidação hipotecária, a situação é diferente: a casa passa a estar associada à garantia do financiamento.
Isto pode permitir melhores condições, mas também aumenta a importância de cumprir o contrato.
Por isso, uma consolidação com garantia hipotecária não deve ser utilizada simplesmente para “ter dinheiro disponível” ou para continuar a financiar um nível de consumo que o rendimento familiar não suporta. Deve ser encarada como uma ferramenta de reorganização. E essa distinção é essencial.
Então, quando pode fazer sentido?
Não existe uma resposta igual para todas as famílias.
Pode fazer sentido quando existem vários créditos, diferentes taxas, diferentes prazos e um esforço mensal elevado, e quando existe um imóvel que pode ser utilizado como garantia. Pode permitir simplificar a gestão financeira, reduzir o peso das prestações e recuperar uma margem que antes não existia.
Mas essa margem precisa de ser aproveitada.
Se a consolidação baixa a prestação de 1.500 para 1.000 euros e, seis meses depois, a família está novamente a utilizar cartões e a contratar créditos pessoais porque voltou a gastar 1.500 euros por mês, pouco mudou. A dívida foi reorganizada, mas o problema financeiro manteve-se.
Consolidar créditos pode ser uma oportunidade para recomeçar. Não deve ser uma oportunidade para repetir os mesmos comportamentos.
Antes de consolidar, faça três contas
A primeira é simples: quanto pago hoje por mês e quanto passarei a pagar?
A segunda é mais importante: quanto vou pagar no total pelo novo financiamento?
E a terceira talvez seja a mais importante de todas: o que vou fazer com a diferença mensal que vou libertar?
Se não existir uma resposta concreta para esta última pergunta, talvez estejamos apenas a comprar tempo.
Se, pelo contrário, a redução da prestação permitir criar um fundo de emergência, deixar de utilizar crédito para despesas correntes e começar a amortizar progressivamente a dívida, então a consolidação pode fazer parte de uma estratégia de reorganização financeira mais ampla.
É também importante comparar propostas e analisar todos os custos envolvidos na operação, porque uma redução da prestação não é suficiente para avaliar uma solução de crédito.
O objetivo não deve ser apenas respirar melhor este mês. Deve ser construir condições para respirar melhor daqui a alguns anos.
E se não tiver um imóvel?
Até aqui falámos de uma solução que depende da existência de um imóvel que possa ser utilizado como garantia.
Mas e quem vive numa casa arrendada? Ou quem não é proprietário? Ou quem simplesmente não tem um imóvel disponível para dar como garantia?
Isso não significa que não existam alternativas.
Existem outras formas de consolidar ou reorganizar créditos, embora as condições, os montantes, os prazos e os custos possam ser diferentes.
E essa será precisamente a nossa próxima conversa.
Na próxima semana vamos falar de consolidação de créditos para quem não é proprietário de um imóvel.
Porque ter uma casa pode abrir determinadas possibilidades de financiamento, mas não ter uma casa não significa que não seja possível procurar uma solução para organizar melhor as dívidas que já temos.
Ter finanças com cabeça não é fugir das dívidas.
É perceber como estão organizadas, quanto nos custam e o que podemos fazer para voltar a ter controlo sobre elas.
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