Manuel Maria Carrilho (MMC) – Proponho-lhe que comecemos esta conversa pelo fenómeno político que mais consequências teve nos últimos tempos, o regresso de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, em novembro de 2024. Terá sido, como sempre se diz, algo de completamente inesperado, sobretudo dados os inúmeros casos – fiscais, sexuais, políticos, mais o assalto ao Capitólio, etc. – que envolviam Donald Trump, ou terá havido indícios que não se quiseram ver, como, por exemplo, o facto, que sempre me pareceu um enigma cheio de indícios, de, quando foi derrotado por Biden, Trump ter, contudo, obtido mais dez milhões de votos do que tinha tido na eleição anterior, quando havia vencido. Havia uma cegueira, talvez alimentada por um forte desejo de regresso à normalidade.
Nicole Gnesotto (NG ) – Sim, claro. Antes de mais: será verdade que nada vimos? As pessoas que pressentiram que Donald Trump podia ser eleito não eram de facto a maioria, porque a maioria politicamente correta achava impossível que um homem assim, com todos os defeitos que referiu, pudesse ganhar uma segunda eleição presidencial. Mas a verdadeira surpresa foi a aliança entre Donald Trump e os multimilionários da tecnologia que estavam por detrás dele, e que eram praticamente todos. É isso que distingue esta eleição da primeira, em 2016. Quando foi eleito pela primeira vez, Trump era um homem quase só, eleito quase por acaso. Da segunda vez, tratou-se de algo bem pensado, preparado desde há muito por toda uma série de ideólogos, é um conjunto muito heterogéneo, mas todos estão convencidos de que a democracia já não corresponde aos seus interesses. São essas pessoas que, a meu ver, estão por detrás da vitória de Trump.

