Desde 1 de outubro, o País voltou a vestir-se de cor-de-rosa. Há laços na lapela, divulgação nas redes sociais e apelos ao rastreio. A campanha merece cada um destes gestos. O cancro da mama é o mais diagnosticado nas mulheres portuguesas, com cerca de 9100 novos casos e 2101 mortes estimadas em 2024, e quando é detetado e tratado cedo a taxa de cura ultrapassa os 90 por cento. O “Outubro Rosa” é um dos exemplos mais bem-sucedidos de mobilização em saúde que conhecemos.
Precisamente por isso vale a pena fazer uma pergunta incómoda: e o resto da saúde das mulheres?
A principal causa de morte das portuguesas é a doença cardiovascular. Segundo a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, uma mulher tem cerca do dobro da probabilidade de morrer de doença cardiovascular do que de cancro. Nas mulheres, os sintomas de enfarte são muitas vezes atípicos e confundidos com ansiedade, stress ou problemas gástricos. A menopausa, por sua vez, faz subir o colesterol e a pressão arterial. É um ponto de viragem no risco cardiovascular feminino com consequências que são mensuráveis.
Somadas, estas fragilidades deixam marca nas estatísticas. Na maioria dos países europeus, as mulheres vivem mais anos saudáveis do que os homens. Em Portugal, acontece o contrário. No índice europeu de igualdade de género de 2025, Portugal fica em último lugar da União Europeia no estado de saúde: depois dos 65 anos, as portuguesas passam apenas cerca de um terço do tempo que lhes resta com saúde; os homens, quase metade. Vivem mais, mas uma fatia maior desse tempo é vivida com doença ou incapacidade.
Seria tentador arrumar o assunto como um problema da velhice. Os dados internacionais contam outra história. As mulheres passam 25% mais da sua vida com problemas de saúde do que os homens, e o grosso desse fosso acontece nos anos de maior atividade profissional. Num estudo recente feito em Portugal com mais de 2500 trabalhadoras, quase seis em cada dez acumulam o trabalho com o cuidado de familiares dependentes, e 38% admitem pôr a saúde dos outros à frente da sua. Entre as que cuidam de dois ou mais familiares, menos de metade diz ter apoio prático suficiente para cuidar da própria saúde. Quem cuida de todos é, muitas vezes, a última a ser cuidada.
Isto tem um preço que raramente entra nas contas. Segundo o McKinsey Health Institute e o Fórum Económico Mundial, fechar este fosso poderia reduzir em quase dois terços o tempo que as mulheres passam com má saúde e acrescentar até um bilião de dólares por ano à economia mundial até 2040. Cada dólar investido na saúde das mulheres deverá gerar cerca de três em crescimento económico. Num país envelhecido, com falta de mão de obra e em que, acima dos 85 anos, quase dois em cada três habitantes são mulheres, ignorar estes números sai caro.
O “Outubro Rosa” ensina-nos que a mobilização funciona quando há uma mensagem clara, um gesto concreto e um sistema preparado para responder. Esse modelo pode ser aplicado ao resto da saúde das mulheres, começando por três passos. Primeiro, fazer da menopausa uma porta de entrada. Nesta fase, a consulta com o médico de família é uma boa oportunidade para avaliar também o risco cardiovascular; depois, estudar mais os dados das mulheres. Os registos do Serviço Nacional de Saúde, a investigação clínica e os algoritmos de Inteligência Artificial ganham em usar dados separados para mulheres e homens, para que os diagnósticos sirvam a todos; e, em terceiro lugar, levar a prevenção para o local de trabalho. As empresas podem facilitar o acesso a consultas e rastreios, seja com horários mais flexíveis, seja trazendo-os para dentro de portas. É um investimento com retorno: uma doença detetada cedo custa menos à trabalhadora, à empresa e ao país.
O laço cor-de-rosa tornou-se um símbolo porque pôs o País a falar de uma doença que antes se escondia. Falta agora alargar a conversa. Em novembro, as portuguesas continuarão a viver mais do que os homens, e com menos saúde. Esse dado também merecia uma cor.
Fontes
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- Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Doenças cardiovasculares são a principal causa de morte na mulher [Internet]. Medjournal; 2026 Mar 6 [citado 2026 Out 2]. Disponível em: medjournal.pt
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