Há uma questão que quase nunca colocamos quando são divulgados os resultados do PISA: quanto tempo demora uma educação a mudar?
Perguntamos quem é responsável. Procuramos as medidas que explicam a subida ou a descida. Comparamos governos, ministros, reformas e resultados. E, perante uma quebra, exige-se uma resposta imediata. Perante uma melhoria, procuram-se rapidamente os seus autores. É compreensível. Mas é uma maneira demasiado curta de olhar para uma realidade que se constrói no tempo longo.
Na apresentação dos resultados do PISA 2025, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, teve razão ao não assumir responsabilidades diretas por resultados que não poderiam, de forma séria, ser atribuídos às políticas do atual Governo. Os jovens avaliados têm atrás de si 15 anos de vida e uma longa trajetória educativa. A maior parte dessa história aconteceu antes da atual legislatura.

Mas, logo depois, o ministro apontou como objetivo que Portugal fique acima da média da OCDE no próximo PISA. A meta é legítima. O problema começa quando uma meta se transforma, ainda que implicitamente, numa relação causal: as políticas que hoje adotamos produzirão, em 2029, os resultados que desejamos.
É uma hipótese muito mais difícil de sustentar. Um jovem de 15 anos não é o produto de uma legislatura. É o resultado de uma história. Uma história que começou na família, antes mesmo da entrada na escola; que passou pela educação de infância, pelo Ensino Básico e pelas sucessivas experiências escolares; que foi marcada pelas condições sociais e económicas, pelas desigualdades territoriais, pelas expectativas familiares, pelos professores que encontrou, pelos colegas, pelas culturas escolares, pelos currículos, pelas políticas de apoio, pela relação com a leitura e com o conhecimento e, hoje, pelo extraordinário universo digital em que cresce.
A escola é decisiva. Mas a escola não é uma ilha.
Esta afirmação, aparentemente simples, tem consequências profundas. Significa que não existe uma relação linear entre uma medida educativa e um resultado de aprendizagem. Uma política pode ser importante sem produzir efeitos imediatamente visíveis. Pode mesmo ser indispensável para melhorar os resultados futuros e, ainda assim, não alterar os resultados do próximo ciclo de avaliação.
Construir confiança
Pensemos nos professores. Suponhamos que amanhã iniciávamos uma política coerente de reconstrução da confiança profissional. Não apenas palavras, mas uma transformação das condições em que os professores trabalham: carreiras mais atrativas e estáveis, menos burocracia, maior autonomia profissional, melhor formação, trabalho colaborativo, reconhecimento da autoridade pedagógica e uma relação diferente entre administração e escolas.
Seria uma política de enorme importância. Mas a confiança não se decreta. Constrói-se.
Uma geração de professores que se sente respeitada não surge de um despacho. Uma cultura profissional não muda numa legislatura. E os efeitos dessa transformação sobre as aprendizagens das crianças não aparecem automaticamente no indicador internacional seguinte.
Há políticas cujo primeiro resultado é criar as condições para que outras políticas possam produzir resultados.
É esta dimensão cumulativa da educação que a política dos indicadores tende a esquecer. O perigo surge quando o indicador deixa de ser um instrumento de conhecimento e passa a ser o objetivo da política. Nesse momento, começa a fazer sentido procurar aquilo que pode produzir uma melhoria rápida no indicador: mais treino para o teste, maior pressão avaliativa, maior concentração nas áreas examinadas, estreitamento curricular, recuperação de exames ou outras medidas suscetíveis de produzir efeitos visíveis num horizonte curto.
Algumas poderão ser úteis. Mas nenhuma substitui aquilo que verdadeiramente importa: construir uma escola capaz de assegurar a todos os alunos acesso a conhecimento profundo, desenvolver pensamento crítico, curiosidade, julgamento e capacidade de viver com os outros.
Quando o indicador se transforma no objetivo, existe o risco de começarmos a educar para o indicador.
Não é uma questão menor. O PISA tornou-se uma das mais poderosas tecnologias de governação da educação contemporânea precisamente porque permite transformar realidades educativas complexas em números comparáveis. Esses números são úteis. Permitem identificar problemas, acompanhar tendências, interrogar políticas.
Mas uma fotografia não explica o filme. E, sobretudo, um resultado não identifica automaticamente as causas que o produziram.
Processos sistémicos
A evolução portuguesa constitui um bom exemplo. Portugal melhorou significativamente os seus resultados no PISA ao longo de vários ciclos e depois conheceu uma quebra importante. Seria tentador encontrar uma política responsável pela primeira tendência e outra responsável pela segunda. Mas a investigação que dirigi no CeiED sobre a evolução de Portugal no PISA, entre 2000 e 2018, conduziu a uma conclusão metodológica que me parece essencial: não encontrámos evidência que permitisse atribuir a melhoria dos resultados a uma política educativa específica.
Isto não diminui a importância das políticas. Obriga-nos, pelo contrário, a compreendê-las melhor. As mudanças educativas são processos sistémicos. Os seus efeitos acumulam-se, cruzam-se e, muitas vezes, só se tornam visíveis quando já não é possível atribuí-los a quem tomou a decisão inicial.
Há aqui uma dificuldade estrutural da democracia. O tempo da política é curto; o tempo da educação é longo.
Um governo governa durante quatro anos. Uma criança aprende durante 15. Uma escola constrói uma cultura ao longo de décadas. Uma profissão transforma-se ao longo de gerações. Uma desigualdade social pode reproduzir-se durante muito mais tempo do que qualquer mandato político.
É por isso que uma política educativa responsável deve trabalhar em duas escalas temporais diferentes. Tem de responder ao presente. Há alunos que hoje não aprendem, professores que hoje estão exaustos, escolas que hoje enfrentam dificuldades. Não podemos pedir ao futuro que resolva os problemas do presente. Mas tem também de construir o futuro. E isso exige continuidade, estabilidade e capacidade para investir em processos cujos resultados talvez só possam ser plenamente avaliados por quem vier depois.
É aqui que a política educativa se distingue de uma corrida eleitoral. Não devemos perguntar apenas onde queremos estar no PISA de 2029. Devemos perguntar que escola queremos ter em 2035 ou 2040.
Que professores queremos atrair para a profissão? Que relação queremos estabelecer entre o Estado e as escolas? Como queremos combater as desigualdades que condicionam as aprendizagens? Que conhecimento queremos garantir a todos? Que capacidade queremos dar aos jovens para viverem num mundo em que a Inteligência Artificial modificará profundamente o trabalho, a cultura e a própria relação com o conhecimento?
Se estas forem as perguntas, o PISA recuperará o seu lugar adequado: não como meta de uma legislatura, mas como um instrumento entre outros para observar a evolução de um sistema educativo.
A metáfora da maratona é, neste sentido, mais do que uma imagem. Numa maratona, não se avalia o atleta apenas pela velocidade num determinado quilómetro. Importam a preparação, a resistência, a estratégia, o percurso e as condições em que a corrida se realiza. E ninguém imagina que uma mudança de treinador aos 30 quilómetros possa explicar, cinco quilómetros depois, todo o resultado final.
Na educação, deveríamos ter a mesma prudência. Não há atalhos para aquilo que demora uma geração a construir.
Talvez esta seja uma das coisas mais difíceis de aceitar na política democrática: algumas das melhores políticas educativas serão precisamente aquelas cujos resultados mais importantes não poderão ser apresentados pelo governo que as iniciou. Mas é essa a natureza da educação.
Governar a educação é aceitar que há coisas que não cabem num ciclo eleitoral, nem num ciclo do PISA. É semear hoje sabendo que, muitas vezes, outros colherão amanhã.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.