Em Moscovo, São Petersburgo e na maioria dos grandes centros urbanos russos, apenas precisa do sorriso para viajar no metro. O seu cartão bancário está associado ao sistema de transportes que também está interligado ao sistema de identificação nacional. Nas lojas pode pagar com um sorriso e nas ruas as câmaras estão nos edifícios, nas passadeiras, nos carros da polícia.
Ainda que não tenha uma conta num banco local, o sorriso é propriedade do Kremlin. Um diário detalhado da vida de cada russo ou residente (ocasional ou permanente). Algo a que o KGB aspirava, mas que a vida analógica não permitia.
Em 2024, mais de um milhão de câmaras de videovigilância estavam instaladas, um terço das quais conectadas a sistemas de reconhecimento facial.
As autoridades apelidam os programas de “cidade inteligente”, afinal as câmaras detetam buracos no pavimento e caixotes do lixo a transbordar. Os mais críticos preferem a expressão “autoritarismo classe conforto”.
E, pensamos, nada disto nos surpreende. A vigilância sistemática é uma característica dos Estados autoritários. A estratégia é sobretudo a de desencorajar a intervenção política, cultivar a apatia. E, para tal, nada mais eficaz do que a tecnologia moderna, que nos acompanha todas as horas do dia e nos lembra de que se não estamos a ser observados é apenas uma questão de o algoritmo consultar o registo.
Mas também nós, aqui no “Ocidente”, temos um diário pessoal. Está no nosso telefone e na nuvem. Tendemos a desconsiderá-lo. “É apenas para nos venderem shampoos ou viagens” que, quando aborrecidos, pesquisamos no Google ou no Instagram.
A Google manteve, durante anos, num data center (o Bigtable) os dados de localização de todos os que interagiam com as suas apps (Gmail, Google Maps, motor de busca, YouTube e mais umas quantas). Um fantástico manancial, que alimenta o negócio dos dados, avaliado em 400 mil milhões de dólares. Provavelmente, desconhecia que numa “minigaveta” estava toda a sua história de vida. A recolha foi recentemente (meados de setembro) considerada pouco transparente e a Google condenada numa multa de 400 milhões de euros… apenas 0,1% do valor do mercadoem 2025.
Mas as bases de dados (da Google e de muitas outras apps que interagem connosco) não servem apenas para melhor servir os nossos impulsos consumistas ou desejos de entretenimento ou vida saudável.
Permitem conhecer cada um de nós e encontrar a mensagem que nos faz comprar mais um creme ou votar num candidato. São um binóculo para o nosso quarto, para as nossas gavetas, para os nossos sentimentos mais íntimos.
O tema não é, ou não é apenas, se a recolha de dados é transparente, mas garantir a reserva da vida privada. Se não praticámos nenhum crime, nem somos suspeitos de o ter feito, deveríamos ser livres de pesquisar informação e de nos deslocarmos, sem vigilância. Mas tal só voltará a ser possível quando a lei assumir que a privacidade é algo de que cada um não pode abdicar em prol de um “serviço”, mas um direito humano, intransmissível e inalienável.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.