Morreu um genuíno falcão da política americana, Dick Cheney, ex-vice-presidente e ex-secretário da Defesa. Também foi congressista, por um período relativamente curto, mas, nas duas administrações Bush — pai e filho —, notabilizou-se pela firmeza com que lidou com a Guerra do Golfo e, mais tarde, em resposta ao ataque às Torres Gémeas, com a invasão e o derrube dos regimes do Afeganistão e do Iraque.
Cheney foi a mão dura e implacável de dois presidentes. Era tímido, gostava pouco das luzes dos holofotes, mas dominava nos bastidores da Casa Branca e do Departamento de Defesa. Foi ele quem empurrou a lenta carroça do Pentágono, e as hesitações de Colin Powell, na guerra que libertou o Kuwait. Anos depois, já como vice-presidente, foi o inspirador do derrube de Saddam Hussein, mesmo quando havia poucas evidências do envolvimento do Iraque com a Al-Qaeda.
Pai de uma ex-congressista republicana que detesta Trump, Dick Cheney nunca teve a intenção nem o desejo de lutar pela presidência dos Estados Unidos. Quando Bush filho o convidou para vice-presidente, teve muitas dúvidas em aceitar — conta os pormenores de como isso aconteceu no seu livro autobiográfico — e informou abertamente o então governador do Texas de que já tinha sofrido dois enfartes do miocárdio e que não sabia se viveria muito mais tempo.
Foi ele quem deu a ordem para abater o quarto avião do ataque terrorista contra as Torres Gémeas e o Pentágono, que se dirigia para o Congresso, mas cuja ordem não foi executada devido à queda da aeronave na Pensilvânia, quando os passageiros tentaram tomar o controlo do aparelho. Foi também ele que convenceu o rei da Arábia Saudita, em 1990, a receber milhares de tropas americanas e de outros países na coligação para a libertação do Kuwait. E fê-lo de forma simples: mostrou a localização e o tamanho da força militar iraquiana que estava concentrada na fronteira, com base em imagens de satélite.
Em In My Time, Cheney não escondeu que foi um dos progenitores da “Doutrina Bush” — atacar antes de qualquer ataque (guerra preventiva)—, defendeu os “interrogatórios reforçados” e expressou a sua forte convicção na legalidade e necessidade de programas de vigilância interna. Nunca um vice-presidente teve tanto poder e influência numa administração americana como Dick Cheney.
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