Vejo no telejornal o rosto de alguns dos prejudicados pelos bancos. As poupanças de uma vida, dizem eles quando falam do que perderam. No entanto, mesmo através do ecrã, dá para perceber que perderam muito mais do que isso. Gritam contra portas fechadas, contra muros de pedra. O desespero desses rostos alimenta angústia transparente em quem os vê sem mudar de canal. Até o pivot do noticiário está incomodado quando acaba a reportagem.
Mas, logo a seguir, vem outro assunto. E essa angústia, cada vez mais remota, vai-se dissolvendo até desaparecer, até ser menos do que uma memória. Sempre soubemos que não podíamos fazer nada ou, pelo menos, nunca permitimos outra possibilidade. Nós não temos depósitos ou investimentos nesses bancos. Nós temos os nossos próprios problemas. Estas são as desculpas imediatas que encontramos para não nos envolver. Como se sentirão os prejudicados pelos bancos perante esse silêncio coletivo, esse abandono? E já que estamos em maré de perguntas: o que fariam esses mesmos indivíduos se não fossem eles os prejudicados?
Sou o próprio, afirmam certos anúncios de jornal em que o dono tenta vender algo sem intermediários.
Ouve-se dizer muitas vezes que os médicos, os guardas prisionais, os socorristas do INEM têm de cultivar uma certa insensibilidade. De outra maneira, não poderiam levar uma vida normal. Suponho que exista alguma lógica nessa ideia. Parece-me até que, de certa forma, todos estamos nessa posição. Não faltam temas que seriam insuportáveis se os considerássemos realmente, em todas as dimensões da vida concreta.
No mesmo telejornal das manifestações contra os bancos, faz-nos uma certa impressão o caso do homem que, não me lembro onde, não me lembro quando, matou a mulher e se suicidou. E, logo a seguir, culpamos o jornalismo populista pela ofensa que sentimos ao saber da criança violada, falamos alto para não se ouvir o que está a ser dito na televisão. Mas essa criança existe. Uma voz, em ameaça, repetiu-lhe muitas vezes: não contes a ninguém.
Neste preciso momento, desde este exato lugar, qual a distância, em metros, até pessoa mais próxima presa num inferno privado? Essa é uma resposta que não queremos saber. É demasiado terrível. Exigimos que alguém trate do assunto, mas nós não, nós temos muito que fazer nesta semana, precisamos de levar o carro à revisão.
Todos conhecemos exemplos de milionários que sofrem de uma doença e que, de repente, se tornam nos lutadores mais abnegados contra essa mesma doença, criam fundações, promovem a investigação. Nós somos esses milionários antes de ficarem doentes.
Na sala de espera do dentista, aquele que veio fazer uma consulta de rotina, e que está a ler estas palavras, não sente as dores daquele que tem a cara inchada, os olhos fechados, e espera que o doutor o atenda depois de todos porque não tem marcação. E, no entanto, estão sentados lado a lado.
Há uma distância enorme entre ter conhecimento e saber.
Pimenta no cu dos outros é refresco. Não sei se esta expressão já pode ser considerada provérbio popular. Não sei se a origem brasileira faz com que as múmias das universidades portuguesas a enjeitem. Talvez um desses leitores que escrevem cartas de protesto para os jornais saiba responder. Pouco importa. Aquilo que me parece evidente é a verdade absoluta e literal a que dá expressão. Louvo a escolha criteriosa de substantivos: pimenta, cu, outros, refresco.
Na gramática, talvez o problema sejam os advérbios. Enquanto estamos aqui, os outros estão ali ou, uma boa parte deles, está lá, demasiado longe. Dirigimo-nos para ali e, mal chegamos, percebemos que, afinal, ainda estamos aqui. Então, decidimos ir para lá, aventuramo-nos nesse longo caminho e, claro, mal chegamos, percebemos que, depois de tanto, ainda estamos aqui e os outros ainda estão ali ou, uma parte deles, ainda está lá, demasiado longe.
Um reflexo nunca pode ser visto a partir de dentro.
Assim continuaremos até ao momento em que já não pudermos fugir, até ao momento em que se tratar das nossas próprias poupanças, da nossa própria vida. Até lá dizemos nós, dizemos eles, porque custa muito dizer eu.