Mundialmente, 43% dos adultos têm excesso de peso e cerca de 16% são obesos. Não surpreende que as farmacêuticas que produzem as novas drogas de controlo de peso como a Eli Lilly e a Novo Nordisk tenham visto as suas valorizações aumentar.
Comemos muito e comemos mal. A par da comida ultraprocessada, com excesso de sal, açúcares e gorduras, alterámos também a nossa relação com a comida. E, no entanto, nunca vimos e lemos tanto sobre alimentação. Cerca de 37% dos utilizadores de plataformas eletrónicas seguem contas focadas em culinária, marcas, chefs, nutricionistas, influenciadores. E, de acordo com as estatísticas, 77% das pessoas baseiam a decisão do que comem em tendências que seguem na net. Algo bastante perigoso se pensarmos que 65% dos conteúdos promovem alimentos com perfis nutricionais desadequados e 60% das publicações sobre nutrição se qualificam como desinformação.
Estamos à mesa de forma muito diferente. Segundo os dados conhecidos, 25% da população ocidental come quase todas as suas refeições sozinha. As famílias acompanham os alimentos com o ecrã. Já não é apenas a televisão, uma fonte de distração mas que, ainda assim, permitia uma conversa única. Agora, adultos e jovens têm os seus telemóveis consigo. Os ausentes parecem ser mais importantes do que os presentes. Não deixar escapar uma notificação tornou-se imperativo. Cada um na sua bolha, com pouca disponibilidade para iniciar e manter conversas.
Reduzimos o número de refeições em família, pressionados pela dificuldade de conciliar horários de trabalho e atividades extracurriculares. Sucumbimos à comida pronta, à facilidade de cada um escolher o que mais lhe agrada. E a preparação de refeições é muitas vezes encarada como um fardo ao invés de um momento de convívio, criatividade e tradição. No zapping das nossas vidas, uma refeição em família zipou-se a 12 minutos (as estatísticas são dos Estados Unidos… onde o mundo parece viver na hipérbole), quando era de 1h30, nos anos 1960.
Não sofremos apenas no corpo. De acordo com um estudo da Universidade de Harvard, uma refeição em família expõe uma criança com menos de 3 anos a mil palavras novas… a leitura de um livro, apenas a 140. Crianças que fazem refeições em família demonstram melhor domínio da língua e posteriormente maior capacidade de leitura e melhores resultados escolares. A nossa saúde mental também não é indiferente. Refeições em família promovem a comunicação, aligeiram conflitos e os estudos demonstram que diminuem o perigo de comportamentos de risco. A mesa é espaço de partilha e não apenas de alimentos. Como diz o provérbio, tristezas partilhadas, tristezas mitigadas, alegrias partilhadas, alegrias dobradas.
No Japão, o almoço na escola é um momento educativo. As refeições são confecionadas por adultos, mas são as crianças que preparam a sala, põem a mesa, servem as refeições e no final limpam o espaço. Antes de iniciarem a refeição, um dos garotos lê o menu do dia, destacando a localidade onde foram produzidos os alimentos e agradecendo a oportunidade de os partilharem juntos. A partir dos 6 anos, não há snacks na escola e o almoço chega como um momento de grande alegria. A qualidade nutricional é muito importante para a comunidade escolar e será certamente uma das razões por que o Japão é a nação desenvolvida e de alto rendimento com a mais baixa taxa de obesidade.
Em casa e nas escolas temos espaço para melhorar a nossa qualidade de vida e o convívio, fazendo algo que em Portugal adoramos: comer bem e com a família, amigos e colegas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.