A Moonshot, uma empresa chinesa, divulgou o Kimi K3. Um modelo de Inteligência Artificial que, de acordo com os especialistas, rivaliza com os modelos mais avançados da Anthropic e da OpenAI. E, não apenas o tornou acessível ao público, de forma gratuita, como disponibilizou o código, permitindo que outras empresas o usem como base para desenvolver as suas próprias aplicações.
O governo americano chama-lhe “roubo”. Que as capacidades de Kimi K3 resultam da “destilação” das capacidades de modelos americanos e que a Moonshot terá usado chips da Nvidia, cuja aquisição por entidades chinesas estava proibida.
E provavelmente não é mentira. Mas como sentir solidariedade por quem para treinar os seus próprios modelos varreu a internet, sugando toda a criação humana disponível? Violou impunemente direitos de propriedade intelectual? Utilizou dados pessoais de, literalmente, todas as pessoas, que direta ou indiretamente contactaram com um computador? Utiliza a sua imensa riqueza para impedir a publicação de legislação que tribute os seus lucros e obrigue a pagar o preço justo pelas infraestruturas de comunicação, energia e água que utiliza?
E que, com sobranceria, afirma, continuamente, que em breve atingirá a inteligência suprema, onde as pessoas não serão precisas… e já agora… talvez os “Estados” devam começar a pensar numa forma de sustentar quem fica sem trabalho, ou será o caos social.
Mas não nos apressemos a pensar que esta lição de humildade irá apenas atingir os lideres das big tech e a Administração Trump.
Em 2025, as big tech e ações ligadas ao boom da Inteligência Artificial (como é o caso da Nvidia) foram responsáveis por 63% dos ganhos do S&P 500. Ou seja, a economia americana encontra-se alicerçada na crença de que estas empresas serão capazes de gerar lucros imensos no futuro. Se a destruição criativa – o processo em que inovações substituem modelos antigos, produzindo/prestando de forma mais barata o mesmo bem/serviço – também destronar a Anthropic e parceiros, não será apenas a economia americana a sofrer.
A crise financeira de 2007/2008 começou nos Estados Unidos da América, com base num ativo que até era real (o imobiliário), mas dois oceanos não impediram que chegasse à Europa e à Ásia como um tsunami, e que 40% a 50% da riqueza mundial desaparecesse entre 2007 e 2009.
O valor de mercado dos ativos é, supostamente, o reflexo da melhor informação disponível e dos juízos mais avisados, mas, se assim fosse, as crises de 1929, 2000 e 2007/2008 nunca teriam acontecido. Na verdade, os mercados dão os primeiros sinais: as ações da SpaceX já se transacionam abaixo do preço da oferta e a dívida da Oracle está apenas um nível acima do rating “lixo”. Mas o mercado está numa “onda” casino, onde o segredo parece ser conseguir sair no momento certo.
Os reguladores advertem. No seu relatório anual, publicado no passado mês de junho, o BIS (Bank of International Settlements) alerta para quatro pontos de stresse: inflação devido às falhas na cadeia de abastecimento (os bombardeamentos no estreito de Ormuz não ajudam…), o sobreinvestimento em Inteligência Artificial, a sobrevalorização das ações, e o crescimento exponencial do mercado da dívida, pública e privada. O BIS exorta os governantes a agir, reforçando a supervisão do mercado da dívida (sobretudo os hedge funds) e promovendo a estabilidade dos preços (o que significa aumentar as taxas de juro.) Esperemos que os nossos representantes eleitos e os gestores dos nossos fundos de pensões estejam atentos…