
A felicidade faz bem ao corpo, mas é a dor que produz a força da mente. Emanuel Oliveira é hoje um homem vacinado contra o desalento. Mas até chegar a este estádio de regozijo sentiu que algo tocou no seu núcleo mais vulnerável, bem lá no fundo. Mas já lá vamos.
Nunca a superstição ligada à sexta-feira 13 fez tanto sentido a Emanuel. Foi esse o dia em que suspeitou estar infetado com o novo coronavírus. Nessa fatídica sexta-feira de março soube que uma amiga que trabalha no Hospital da Feira, com quem tinha tomado café uns dias antes, tinha dado positivo. Nem sempre é possível determinar em que circunstâncias ocorre um contágio, mas ele não teve dúvidas que foi ali, naquele encontro.
Emanuel adoeceu no dia seguinte, com dores de cabeça e dificuldades respiratórias. No hospital de Santo António, no Porto, onde fez o teste, confirmaram o que ele já suspeitava: tinha contraído a Covid-19. Apesar de ter apenas vinte anos, a sua situação era preocupante porque sofre de asma. Perguntaram-lhe se queria ficar internado, mas ele escolheu ir para casa, em Esmoriz, onde vive com os pais.
Por mais anos que passem, Emanuel jamais esquecerá os 25 dias que passou em quarentena, no seu quarto. Isolado de tudo e todos, impedido sequer de falar com os pais, com um horror a que começava a misturar-se o medo. Foi preciso força para enfrentar a doença e vencê-la. Uma força que depois descobriu que podia partilhar com os outros – uma espécie de efeito secundário do seu próprio tratamento.
Emanuel estava longe de imaginar que viria a ser o primeiro infetado de Ovar, concelho que acabou por ficar confinado numa cerca sanitária durante um mês. Quando recuperou, Salvador Malheiro, presidente do município, convidou-o para o gabinete de crise que então formara e propôs-lhe participar numa ação que consistia em dar apoio telefónico aos novos infetados. Emanuel aceitou esse papel, com verdadeiro entusiasmo. Afinal, tinha experiência para partilhar, empatia, uma palavra de compreensão genuína. Diariamente passou a dar alento a quem, como ele, foi obrigado a suspender a vida por obra e graça de um vírus cujo poder destrutivo tanto o afligiu, mas que de uma forma inesperada também despertou em si uma faceta solidária que mal conhecia. E nasceu nele a consciência de ter franqueado os limites de uma prisão e alcançado uma liberdade que sempre desejara.
Ouvir algumas das histórias foi uma experiência para estômagos fortes, mas Salvador Malheiro estava certo. A ação de Emanuel no terreno funcionou com a precisão de um relógio: as pessoas sentem-se amparadas com os seus telefonemas e o seu otimismo impenitente. Preocupações, angústias, dúvidas, que as pessoas já não precisam de ocultar como se fossem assuntos desprezíveis. Quando alguém conhece os nomes do outro lado do telefone, imagina melhor as pessoas. Sente-as, ainda que não as conheça.
Hoje, Emanuel é a própria imagem da saúde e da força, franco, ruidoso e amável. Com uma inquebrável motivação, um subproduto da sua empatia consciente, nos primeiros dias desta missão chegou a passar 14 horas a dar alento às pessoas. Elas contam-lhe a sua história, ele ouve as suas vozes desfiguradas pelo medo, mas esse medo multiplicou-lhe as forças. Sempre que se justifica, comunica alguns casos à rede de apoio social e ao gabinete de psicologia. Já falou com mais de 200 pessoas e todas elas, do outro lado da linha, ouvem-no de um modo intenso, engolindo as suas palavras, como um remédio que cura a alma. Ouvimos esta história e apetece apertar-lhe a mão, ser seu amigo, e dizer: “Emanuel, fizeste uma coisa bonita e nobre.”
Há pessoas que, depois de um mau momento, desenvolvem um otimismo vital, um convencimento íntimo de que há na vida bastantes coisas boas pelas quais ela vale a pena ser vivida. E não é que estão certos?