Agora que o Mundial de Futebol terminou e a conhecida silly season entrou em pleno, talvez pudéssemos usar os tempos livres para refletir um pouco sobre o caminho que estamos, consciente ou inconscientemente, a seguir.
Independentemente do resultado final e da fraca prestação da Seleção Nacional, à semelhança de outras que se tinham como favoritas, o Mundial revelou, como se preciso fosse, que os Estados Unidos da América mudaram indiscutivelmente a forma como se relacionam com os outros países, chegando ao ponto de interferir em decisões, certas ou erradas, de arbitragem e de tentar impedir a entrada de jogadores e familiares, como se a política e o desporto se devessem misturar.
Para além das guerras iniciadas por Trump, sob o lema America first, cujos impactos se refletem sobre todos nós, deixando a Europa, e Portugal em especial, numa posição de extrema fragilidade, sucede que outros problemas graves e que merecem uma séria posição se tem vindo a colocar com cada vez mais acuidade.
Refiro-me em concreto à designada Inteligência Artificial, que não é, reitere-se, nem inteligência, nem artificial, e que tomou conta das nossas vidas sem que nos apercebamos das suas verdadeiras consequências. A título de mero exemplo, sem darmos por isso, assim que falamos, ainda entre amigos, sobre um determinado tema, logo os anúncios nas nossas redes sociais refletem a conversa. Isto só pode significar que os nossos telemóveis têm funcionalidades que desconhecemos e que nunca nos foram explicadas. O mesmo sucede quando fazemos buscas na internet sobre temas.
Depois, dando como outro exemplo, o que sucedeu nos exames nacionais, ao contrário do que era claramente a intenção, a informatização quase total do sistema levou a perguntas que não testam os verdadeiros conhecimentos que deveriam ter sido adquiridos, causou o caos nas correções e levou a uma fundada suspeição no sistema que nunca teve precedentes. Em nome de um alegado progresso e inovação, o que parece estar em causa é a destruição de um sistema de ensino que tinha vantagens incomparáveis, desde logo porque permitia potenciar a aprendizagem e o desenvolvimento. Educar não é, necessariamente, padronizar, antes correspondendo a ensinar o melhor conhecimento científico, humano, artístico, matemático, filosófico e literário, o que se não confunde com perguntas e respostas padronizadas. Na realidade, mantendo-se o atual sistema, estamos a criar gerações de alunos com pouca capacidade crítica e de reflexão, completamente viciados nos telemóveis e em dispositivos similares, para os quais, por exemplo, os resumos de livros equivalem ao seu original.
A dita Inteligência Artificial traz ainda outra consequência evidente, que é a da perda de postos de trabalho, realidade pouco estudada mas que se começa a refletir nos múltiplos despedimentos coletivos em curso ou já finalizados, deixando massas de trabalhadores sem ocupação e dependentes das prestações de desemprego, substituídos por máquinas que não têm as mesmas virtualidades. Quantos de nós não desesperaram já a tentar explicar um problema num sistema de atendimento exclusivamente virtual, em que acabamos quase a rezar por chegar, finalmente, a um ser humano, nem que para isso tenhamos que pagar?
Nada tenho contra o progresso científico, excepto quando o mesmo põe em causa o que sempre foram valores da Humanidade, como a criatividade ou a ausência de formatação do pensamento. É, quer queiramos ou não, o que nos está a acontecer é estamos a ser remetidos a padrões em que tudo o que escape do formato é liminarmente recusado por um sistema cujas regras e formas de controlo desconhecemos em absoluto.
Estará, por ventura, na altura de pensarmos no que está a acontecer e nos revoltarmos. O que aconteceu ao vizinho ao lado, por exemplo, despedido porque substituído por uma qualquer máquina, fatalmente bater-nos-á à porta e nessa altura pode ser tarde demais.
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