Vivemos numa época em que quase tudo à nossa volta é desenhado para ser feito o mais rápido possível e esperamos que as nossas vidas avancem exatamente na mesma velocidade: aos 18 anos escolhe-se um curso, aos 22 termina-se a licenciatura, segue-se o primeiro emprego e/ou o mestrado e, pouco depois, começam as perguntas sobre carreira, salário e progressão. Mas para uma geração cada vez mais atenta às desigualdades, às alterações climáticas ou às causas sociais, esta sensação de que não se pode parar pode ser um obstáculo invisível à vontade de dedicar tempo a causas em que acreditam.
A expectativa de seguir um percurso tradicional pode pesar quando surge a vontade de fazer algo diferente, mesmo que apenas durante algum tempo. Adiar por um ano um mestrado, um estágio ou o primeiro emprego pode facilmente ser interpretado como um atraso no percurso, sobretudo quando estamos habituados a medir cada etapa pelo que acrescenta à seguinte. No entanto, nem tudo aquilo que fazemos precisa de ter um resultado imediato ou de servir diretamente o próximo passo. Dedicar um período a um projeto, uma comunidade ou a uma realidade diferente da nossa pode trazer aprendizagens que dificilmente surgiriam se seguíssemos sempre o caminho mais previsível
Os problemas sociais são complexos, exigem proximidade, continuidade e disponibilidade para compreender antes de agir. Não se trata apenas de chegar, fazer e partir. É preciso conhecer o contexto, perceber as necessidades existentes, criar relações e aceitar que algumas mudanças levam o seu tempo.
Dedicar um ano ao voluntariado pode trazer aprendizagens difíceis de encontrar noutros contextos. Lidar com a incerteza, assumir responsabilidades, adaptar-se a circunstâncias inesperadas ou aceitar que nem todos os problemas têm uma solução rápida obriga a rever expectativas e a tomar decisões de outra forma. Ao mesmo tempo, pode criar espaço para perguntas que o ritmo habitual nem sempre permite fazer: o que valorizamos? Que tipo de trabalho queremos desenvolver? Que papel queremos ter na sociedade?
E estas aprendizagens não ficam certamente limitadas a este período. Saber trabalhar em equipa com pessoas com percursos e formas de pensar diferentes, encontrar soluções perante recursos limitados, comunicar num contexto desconhecido ou lidar com a frustração são capacidades que podem ser importantes em qualquer percurso profissional. Para algumas pessoas, um ano fora do caminho previsto pode ajudar a perceber melhor que área querem seguir. Para outras, pode simplesmente alterar a forma como olham para responsabilidade, colaboração ou sucesso. São aprendizagens que podem ter um impacto duradouro, mesmo que não apareçam numa linha do currículo.
Parar o percurso tradicional durante um ano não significa necessariamente ficar para trás. Se esperamos que os jovens sejam profissionais competentes, mas que sejam também cidadãos atentos e envolvidos na sociedade, é fundamental reconhecer o valor dos contextos que permitem desenvolver essas duas dimensões. Nem todas as aprendizagens precisam de acontecer numa sala de aula ou num local de trabalho.
Talvez investir no futuro não signifique apenas chegar mais depressa à próxima etapa. Talvez signifique ter coragem para parar. Parar para aprender, para servir, para compreender e para decidir com maior consciência o caminho se quer seguir. Num contexto em que estamos constantemente a ser incentivados a avançar, talvez dar um ano a algo em que se acredita seja, precisamente, uma forma de não passar pela vida demasiado depressa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.