A enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça. É uma doença neurológica crónica, que pode ser incapacitante e profundamente condicionante da vida de quem sofre desta patologia. Ainda assim, continua a ser, muitas vezes, percecionada como uma dor que se resolve facilmente com medicamentos, um quarto escuro e algumas horas de descanso.
No entanto, esta perceção não corresponde à realidade. Em Portugal, estima-se que cerca de dois milhões de pessoas vivam com enxaqueca. Esta doença tem um impacto especialmente relevante em mulheres, em idade fértil e ativa, uma fase de vida em que as pessoas estão a trabalhar, a construir família e a participar ativamente na sociedade. A nível global, a enxaqueca é a principal causa de anos vividos com incapacidade entre as mulheres em idade fértil, segundo dados do WifOR Institute, “O Impacto Socioeconómico da Enxaqueca: O Caso de 6 Países Europeus”.
Estes números ajudam a posicionar a enxaqueca na sua verdadeira dimensão. Mas, mais do que estatísticas, é importante compreender o impacto real da doença: a enxaqueca não se traduz apenas em dor mas em limitações concretas na vida pessoal, familiar, social e profissional porque não se trata apenas de dor.
Uma crise pode significar ter de faltar ao trabalho, adiar uma reunião, não conseguir acompanhar os filhos, cancelar um jantar ou simplesmente não ser capaz de fazer atividades simples do quotidiano. Prova disso são as 80% das pessoas com enxaqueca inquiridas que afirmaram ter cancelado planos ou ter receio de fazer plano devido à doença. E as 71% das pessoas que precisaram de ajuda de familiares ou amigos para realizar tarefas do dia a dia. Já na vertente laboral, também se verificam faltas ao trabalho, perdas de produtividade e, consequentemente, custos diretos e indiretos. Em Portugal, a enxaqueca representa um custo anual de 1,2 mil milhões de euros, com maior impacto entre os 20 e os 60 anos.
E é precisamente aqui que a questão deixa de ser exclusivamente individual. Quando uma doença tão prevalente condiciona a capacidade de trabalhar, estudar, cuidar da família e participar na vida social, estamos perante um desafio que diz respeito a toda a sociedade (e não apenas à pessoa que sofre de enxaqueca).
A invisibilidade da enxaqueca contribui muitas vezes para a sua desvalorização e pode atrasar a procura de cuidados, o diagnóstico e o acesso a um acompanhamento adequado.
É por isso que a literacia em saúde assume um papel fundamental. Uma sociedade informada está mais preparada para reconhecer os sintomas, compreender o impacto da doença e saber quando procurar ajuda. Contudo, esta responsabilidade não pode recair apenas sobre quem vive com enxaqueca.
Precisamos de profissionais de saúde preparados para reconhecer e acompanhar a doença, de sistemas de saúde capazes de responder atempadamente, de empresas mais conscientes do impacto das doenças invisíveis e de uma sociedade que saiba ouvir, compreender e apoiar. E precisamos, naturalmente, de continuar a investir em ciência e inovação, para que as pessoas tenham acesso a opções de tratamento cada vez mais eficazes.
A inovação científica é indispensável, mas só alcança todo o seu potencial quando existe um ecossistema capaz de transformar conhecimento em qualidade de vida. A enxaqueca deve ser, por isso, encarada com uma responsabilidade coletiva, reunindo farmacêuticas, profissionais de saúde, empresas, associações de doentes e pessoas que sofrem de enxaquecas.
No Dia Europeu de Ação na Enxaqueca, assinalado a 12 de setembro, o desafio não deve ser apenas falar mais sobre a doença. O importante é encará-la de uma nova forma e agir para que, juntos, possamos construir um ecossistema de saúde mais informado, atento e centrado nas necessidades das pessoas.
Desta forma, melhorar a vida das pessoas com enxaqueca torna-se muito mais do que uma responsabilidade individual. É uma responsabilidade coletiva.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.