Com os resultados do acesso ao ensino superior a colocar dezenas de milhares de jovens nas universidades e politécnicos portugueses, repete-se um ritual anual: discutem-se médias, vagas esgotadas, cursos com maior procura e os setores que parecem garantir emprego imediato. É um debate natural, mas que acredito que peca pela pergunta de partida. Estaremos a pedir aos nossos jovens que escolham um percurso académico ou que adivinhem o futuro?
É legítimo dizer que o País precisa de engenheiros, profissionais de saúde, especialistas em tecnologia, dados, gestão, indústria, sustentabilidade ou proteção civil. Seria irresponsável ignorar as necessidades do mercado de trabalho quando a Comissão Europeia recorda, por exemplo, que Portugal enfrenta escassez de mão de obra em engenharia e TIC, apesar de 28,9% dos estudantes do ensino superior estarem inscritos em áreas CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Apesar de estarmos acima da média europeia (26,9%), mantemo-nos abaixo da meta proposta de 32% até 2030.
No entanto, uma escolha feita aos 17 ou 18 anos não pode ser tratada como se fosse a escolha definitiva de uma profissão para toda a vida. A empregabilidade de hoje pode não ser a empregabilidade de amanhã. E
escolher apenas em função das “saídas profissionais” pode ser tão redutor como escolher sem qualquer atenção à realidade. Como mãe, já vivi este dilema de perto. Como profissional do ensino superior, vejo-o todos os anos: queremos que os jovens escolham bem, mas nem sempre é simples definir o que significa bem”.
Será que a melhor escolha é o curso com mais saída ou a área de que realmente gostam? Devem os jovens escolher um setor que todos dizem ser o mais promissor ou a profissão que a família considera mais segura?
Talvez a escolha mais sólida esteja no cruzamento difícil entre interesse, competência, informação e futuro possível. Gostar da área não é um detalhe romântico. Um curso exigente torna-se ainda mais difícil quando o estudante não se revê minimamente no que estuda. A curiosidade, a motivação e alguma identificação com o campo de conhecimento contam. Mas o gostar também precisa de ser informado: conhecer exigências, limites, contextos profissionais e possibilidades reais.
Escolher melhor exige, por isso, outra forma de orientar que não se resume apenas no momento da candidatura, quando a ansiedade já está instalada. As escolhas mais seguras e assertivas dependem da experimentação, do contacto direto com as suas áreas de interesse e com profissionais que podem partilhar
experiências reais em contexto de mercado de trabalho.
Considero que os jovens devem contactar mais cedo com empresas, hospitais, laboratórios, autarquias, centros de investigação, organizações sociais, indústria, tecnologia, cultura e serviços públicos. Não para serem empurrados para uma profissão demasiado cedo, mas para perceberem melhor o mundo em que um dia poderão trabalhar e definir e qual o seu contributo para a área escolhida. Esta proximidade permite a descoberta de novos interesses, esclarecer dúvidas, definir o que se gosta ou não e, acima de tudo, encontrar
propósito na futura carreira profissional!
Escolher um curso superior apenas com base numa “designação” parece-me sempre redutor. Por isso mesmo, acredito que a pergunta não deve ser “que cursos têm futuro?”, mas talvez “que formação permite aos jovens continuar a construir o futuro quando as profissões mudarem?”.
Perante o paradigma atual de constante evolução e mudança, a experiência diz-me que a melhor formação superior é a que dá competências técnicas, mas, acima de tudo, que ensina método, que incentiva a capacidade de aprendizagem contínua e o pensamento crítico, e que forma para a literacia digital, comunicação, ética, empatia, cultura e flexibilidade. Os cursos superiores têm a responsabilidade de formar um aluno competente numa determinada área, mas devem, cada vez mais, prepará-lo para a adaptação a
diferentes realidades do mercado de trabalho.
Por isso mesmo, considero que a estatística de empregabilidade que mais importa talvez não seja a “probabilidade do primeiro emprego”, mas sim a capacidade de continuar a ter lugar num mundo profissional instável, tecnológico e em permanente evolução. Neste contexto, e entre aquilo de que o país Precisa e aquilo que cada jovem pode vir a ser, insisto que há um trabalho sério a fazer: informar melhor, orientar melhor, formar melhor e abrir mais horizontes.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.