Os prémios normalmente chegam acompanhados de muitos flashes, vestidos de alta-costura, fotógrafos aos gritos, assessores com auriculares e ctores a descobrir subitamente que Veneza é a cidade mais bonita do mundo. O Prémio Robert Bresson entregue a Pedro Costa, no passado sábado, 5 de setembro, no Italian Pavilion do Lido, durante a 83.ª Mostra de Veneza, passou relativamente despercebido no ruído habitual do Festival. O que, pensando bem, talvez seja a forma mais adequada de premiar Pedro Costa: discretamente, sem fogo-de-artifício, sem campanha para os Oscars e, sobretudo, sem ninguém lhe perguntar quem lhe desenhou o fato. Até porque, como sempre, apareceu demasiado informal para essas liturgias.
Mas convém não deixar passar a coisa. Porque não é propriamente todos os dias que a Santa Sé distingue um cineasta português e, menos ainda, um cineasta português que sobe a um pequeno palco para explicar que “o cinema é a arte da revolta”. O Prémio Robert Bresson, promovido pela Fondazione Ente dello Spettacolo e pela Rivista del Cinematografo, com o parecer dos dicastérios da Cultura e Educação e da Comunicação, é o único prémio cinematográfico do mundo atribuído pela Santa Sé e distingue anualmente um realizador cuja obra seja testemunho de uma procura espiritual do sentido da existência. Pedro Costa é apenas o segundo português a recebê-lo, depois de Manoel de Oliveira.
A ironia é boa demais para ser desperdiçada. O Vaticano premiou um homem que construiu a sua filmografia inteira a desconfiar das instituições, das convenções, da indústria, dos consensos e desse cinema internacional cada vez mais concebido como uma longa reunião de produção com uma estreia no fim. E premiou-o precisamente porque essa recusa nunca foi pose estética, estratégia de autor ou cartão de visita para festivais. Em Pedro Costa, a radicalidade formal vem sempre agarrada a uma ideia moral do cinema: quem filma quem, de que lugar, durante quanto tempo, com que direito e para mostrar exatamente o quê?
A motivação do prémio percebeu-o muito bem. Em mais de três décadas, Costa foi retirando do cinema tudo aquilo que considerava acessório — aparato, movimentos gratuitos, música ornamental, interpretação convencional — até restarem o rosto, o tempo, uma parede, uma porta, um corpo sentado numa cadeira e uma réstia de luz onde outro realizador provavelmente pediria mais três projetores, dois refletores e um diretor de fotografia em estado de pânico. O resultado nunca foi pobreza cinematográfica. Pelo contrário. Poucos cineastas contemporâneos conseguem fazer uma parede parecer tão monumental, uma porta tão ameaçadora ou um silêncio transportar tanta História.
Das Fontainhas para o mundo, sem fazer turismo da miséria
A história começa em O Sangue, em 1989, passa por Casa de Lava e muda decisivamente com Ossos. Depois chega No Quarto da Vanda, o filme em que Pedro Costa praticamente desmonta a máquina tradicional de fazer cinema e se instala no velho bairro das Fontainhas com uma pequena câmara digital, tempo, paciência e disponibilidade para escutar e filmar. Seguem-se Juventude em Marcha, Cavalo Dinheiro e Vitalina Varela. Pelo meio, Onde Jaz o Teu Sorriso?, extraordinário filme sobre Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, porque até quando filma cineastas Pedro Costa parece muito mais interessado em filmar o trabalho do que a celebridade.
É frequente resumir tudo isto dizendo que Pedro Costa “deu voz aos marginalizados”. A expressão é bem-intencionada, mas demasiado confortável e, no fundo, até um pouco paternalista. Vanda, Ventura ou Vitalina Varela nunca precisaram que um realizador lhes concedesse uma voz só por que sim. O que Costa fez foi bastante mais significativo e também bastante mais difícil: criou as condições para que aquelas pessoas ocupassem o plano com uma dignidade, uma duração, uma gravidade e uma presença que o cinema normalmente reserva aos reis, aos heróis, às estrelas e, agora, aos super-heróis com orçamento de 200 milhões.
As Fontainhas tornam-se assim uma espécie de estúdio de Hollywood ao contrário. Não há fachadas falsas ou efeitos especiais, mas casas verdadeiras a desaparecer; não há figurantes, mas pessoas carregadas de memória; não há cenários concebidos para impressionar, mas lugares onde a vida deixou marcas; não há a luz que embeleza, mas a luz que revela e esconde. E não existe essa pressa contemporânea de explicar imediatamente ao espectador aquilo que deve sentir, não vá ele distrair-se durante vinte segundos, olhar para o relógio ou abrir o Instagram.
Foi precisamente Bresson quem ajudou Pedro Costa a perceber muito cedo que outro cinema era possível. Quando ainda estudava e tentava descobrir o que fazer da vida, encontrou os filmes do realizador francês nas retrospetivas organizadas em Lisboa por João Bénard da Costa na Cinemateca e na Fundação Calouste Gulbenkian. O Diabo, Provavelmente (1977), de Robert Bresson, caiu-lhe em cima, segundo recordou agora, como “dinamite”. Para os jovens portugueses dessa altura, poucos anos depois do 25 de Abril, aquele cinema falava de desencanto, resistência, juventude perdida e de uma revolução que começava já a perceber que também podia acabar. Para Costa, Bresson ficou desde então associado não à solenidade, mas à rebelião.
Daí que este prémio agora tenha muito menos de casamento improvável do que à primeira vista parece. A espiritualidade do cinema de Pedro Costa não está em anjos, milagres, santos iluminados ou redenções prontas a consumir. Está numa pergunta muito mais oportuna: como filmar um ser humano sem o reduzir a personagem sociológica, vítima exemplar, decoração miserabilista ou argumento para um relatório de boas intenções?
O cinema não é uma agência de viagens para festivais
Foi aí que Pedro Costa deixou no Lido a frase que deveria ter feito bastante mais barulho e efeito mediático, do que fez. O cinema, disse, não consiste simplesmente em juntar uma equipa e andar pelos festivais. “O cinema é a arte da revolta. Quando deixa de se confrontar com a realidade, ou se recusa a vê-la, deixa de ser cinema.”
Num Festival onde todos os dias se fala da crise do cinema enquanto dezenas de milhões continuam a circular por produções, plataformas, mercados, agentes, campanhas promocionais, festas privadas e hotéis com preços capazes de provocar uma pequena crise bancária, a frase tem qualquer coisa de deliciosamente inconveniente. Pedro Costa continua a defender que o cinema não existe apenas para fabricar conteúdos, alimentar catálogos, cumprir algoritmos ou fornecer duas horas de assunto antes do jantar. Deve confrontar-se com alguma coisa. Com a História, com a injustiça, com a memória, com o colonialismo, com os fantasmas de um país ou simplesmente com aquele homem sentado diante da câmara que merece ser olhado sem paternalismo, sem exotismo e sem pressa.
É também por isso que Pedro Costa permanece uma figura curiosamente maior fora de Portugal do que a sua visibilidade pública portuguesa poderia fazer supor. É estudado, retrospetivado, discutido, premiado e venerado por cineastas e cinéfilos de meio mundo, enquanto por cá continua demasiadas vezes alojado naquele simpático armário chamado “cinema difícil”, onde costumamos guardar tudo aquilo que não sabemos muito bem como vender, programar, explicar ou encaixar numa sessão das nove da noite com pipocas e refrigerantes.
Há também qualquer coisa de muito portuguesa nesta contradição. Exportamos Pedro Costa como um dos grandes cineastas contemporâneos e, depois, em casa, comportamo-nos como se fosse um parente excêntrico de quem reconhecemos o talento mas que preferimos deixar sentado no fundo da mesa porque provavelmente vai começar a fazer perguntas incómodas para a família.
O Prémio Robert Bresson não vai transformar No Quarto da Vanda num sucesso de multiplex, nem Pedro Costa parece particularmente preocupado com semelhante tragédia. Serve, contudo, para recordar uma evidência que por vezes parece precisar de confirmação estrangeira para ser levada a sério por cá: Portugal tem em Pedro Costa uma das vozes mais singulares, coerentes, radicais e internacionalmente reconhecidas do cinema contemporâneo.
E talvez seja justamente essa coerência que torna este prémio tão justo. Pedro Costa nunca facilitou o cinema para facilitar a vida ao espectador, nunca amaciou as imagens para tranquilizar programadores, nunca transformou a pobreza em postal exótico nem os seus personagens em bandeiras convenientes. Ficou. Olhou. Escutou. Voltou. Filmou outra vez. E fez do tempo uma forma de resistência. No sábado, em Veneza, a Santa Sé percebeu isso e premiou-o. Pedro Costa agradeceu e respondeu falando de revolta. Há prémios que decoram uma carreira. Este, por uma vez, parece ter percebido aquilo que estava a premiar. E, convenhamos, ver o Vaticano distinguir um cineasta português porque fez da revolta uma ética, enquanto Veneza corria atrás da próxima estrela na passadeira vermelha, é uma imagem bastante mais cinematográfica do que muita coisa que tem passado pelos festivais de cinema.