Florian Zeller imagina um multimilionário da tecnologia a encomendar um bunker para sobreviver ao desastre; Alex Gibney passa 225 minutos a desmontar Elon Musk, um homem que parece ter decidido que, se o planeta falhar, compra-se outro. Uma ficção e um documentário que, vistos no mesmo dia, dizem quase a mesma coisa: os poderosos já não querem salvar o mundo. Querem apenas garantir que têm uma saída de emergência.
No sétimo dia de Veneza, o dramaturgo e realizador francês Florian Zeller, há muito consagrado também nos palcos do West End londrino, mostrou-nos Bunker, o seu novo filme, depois de O Pai e O Filho, sobre um arquiteto contratado para projetar um refúgio de sobrevivência para um multimilionário da tecnologia. Por sua vez, o documentarista Alex Gibney, autor de Enron: Os Mais Espertos da Sala, apresentou Musk: quase quatro horas a retirar verniz ao multimilionário da tecnologia mais famoso do planeta. Um inventa o cliente. O outro apresenta-nos o original.
E é precisamente por isso que dois filmes tão diferentes — uma ficção psicológica de 126 minutos em Competição e um documentário monumental de 225 minutos Fora de Competição — dialogam de forma quase perfeita. Bunker é uma ficção íntima, construída sobre um casamento que começa a abrir fissuras quando o dinheiro entra pela porta com a promessa de salvar apenas alguns escolhidos. Musk é um documentário gigantesco, cheio de arquivos, depoimentos, empresas, foguetões, plataformas digitais, política, dinheiro, ego e aquela megalomania contemporânea que costuma chegar embrulhada na palavra “futuro”. Zeller pergunta o que acontece quando um homem aceita colaborar com a fuga dos ricos. Gibney pergunta o que acontece quando os ricos deixam sequer de precisar de pedir autorização a alguém, incluindo aos governos.
Quando o apocalipse também tem arquiteto
Em Bunker, Javier Bardem é um arquiteto de prestígio a quem aparece a encomenda perfeita para qualquer revista ou prémio de arquitetura e péssima para qualquer consciência minimamente acordada: desenhar um bunker para um magnata tecnológico interpretado por Paul Dano. A arquitetura transformada na forma mais cara de desistir da humanidade. Penélope Cruz, mulher do arquitcto, percebe aquilo que o marido tenta arrumar muito profissionalmente numa gaveta: não se está apenas a desenhar betão, corredores, portas blindadas e sistemas capazes de resistir ao apocalipse. Está-se a aceitar uma ideia do mundo. A de que, quando tudo correr mal, haverá quem fique cá em cima e quem tenha dinheiro suficiente para carregar no botão do elevador e desaparecer lá para baixo. O que Zeller faz melhor é transformar esta questão política e social numa crise íntima. O bunker começa por ser uma encomenda e acaba instalado no meio do casamento. A pergunta deixa rapidamente de ser “devemos construir isto?” para passar a ser “quem és tu, afinal, se aceitas construí-lo?”. Depois de O Pai e O Filho, Zeller volta a fechar pessoas dentro de espaços onde já não conseguem fugir umas das outras, mas desta vez alarga a claustrofobia: o problema já não é apenas a família. É a sociedade inteira.
Bardem e Cruz, casal na vida real e novamente no ecrã, dão ao filme aquilo que nenhum argumento conseguiria fabricar sozinho: uma história anterior entre os corpos. Há cumplicidade, desgaste, irritação, afeto, ressentimento e aquela pequena violência dos casais que sabem exatamente onde tocar para magoar sem precisar de levantar a voz, também uma forma de violência psicológica. Zeller aproveita isso muito bem, mesmo quando não resiste à tentação de explicar aquilo que nós já percebemos. Por vezes, Bunker aproxima-se perigosamente do ensaio dramatizado, com as personagens quase a transportar às costas as grandes questões do nosso tempo. Felizmente, Cruz e Bardem puxam-no constantemente de volta para a vida.
E então chega “Musk”
Foram 225 minutos com Elon Musk, para abrir a máquina e mais dez de intervalo. Só a ideia desta projeção poderia parecer quase uma ameaça clínica. Mas Gibney sabe que, para desmontar um homem que fez da própria imagem uma empresa multinacional, não basta mostrar-lhe o rosto. É preciso abrir a máquina, levantar a tampa, seguir os cabos e perceber quem está a fornecer a eletricidade. Musk não quis falar com Gibney. E a ausência acaba por transformar-se numa presença gigantesca. Falam ex-mulheres, antigos colaboradores, jornalistas, especialistas e pessoas que estiveram perto do homem e das suas empresas. Algumas, segundo Gibney, tiveram inclusivamente medo de falar. E, aos poucos, aquela personagem vendida durante anos como mistura de Leonardo da Vinci, Tony Stark e salvador climático vai ficando menos extraordinária e muito mais reconhecível: um homem com uma capacidade excecional para vender futuros, atrair capital, concentrar poder e convencer milhões de pessoas de que os seus interesses privados são, por uma dessas felizes coincidências do capitalismo, exatamente os interesses da humanidade.
Gibney não precisa de negar os feitos da Tesla ou da SpaceX. Seria até contraproducente. A questão interessante está noutro lado: quem controla alguém quando esse alguém controla infraestruturas, satélites, plataformas de comunicação, fluxos de informação, enormes quantidades de capital, acesso direto ao poder político e uma parte bastante considerável da conversa pública mundial? E é aqui que Bunker e Musk finalmente se apertam a mão. O multimilionário de Zeller quer um refúgio porque já não acredita numa salvação coletiva. O Musk de Gibney vende uma fantasia muito semelhante em escala planetária: se a Terra se tornar insuficiente, vamos para Marte. A diferença é sobretudo imobiliária. Um cava para baixo. O outro aponta para cima. Ambos partem da mesma ideia: em vez de reparar a casa, construímos uma saída para quem pode pagar. É o capitalismo do apocalipse com serviço premium.
A privatização do futuro
Os velhos ricos compravam castelos para mostrar que estavam acima dos outros. Os novos compram bunkers para garantir que continuam vivos depois dos outros. Houve, portanto, progresso: passámos da ostentação para a sobrevivência seletiva. E é por isso que estes dois filmes dialogam tão bem neste Festival de Veneza. Bunker talvez seja a ficção que explica Musk melhor do que Musk, enquanto Musk é o documentário que transforma Bunker numa ficção assustadoramente plausível. Num vemos a escolha moral antes de o primeiro metro cúbico de betão ser despejado. No outro vemos o que acontece quando o poder já construiu o seu próprio bunker — mesmo que não tenha paredes, esteja espalhado por empresas, satélites, redes sociais, contratos públicos e foguetões. Zeller ainda acredita que uma conversa entre duas pessoas pode salvar alguma coisa. O seu filme procura uma possibilidade de reconciliação, talvez até o amor como último território que ainda não foi privatizado, cotado em bolsa ou comprado por um fundo de investimento. Gibney é bastante menos otimista. O seu objeto de estudo não parece particularmente interessado em reconciliar-se com o mundo. Prefere redesenhá-lo à sua escala. Talvez seja essa a grande ligação entre os dois filmes. Não estamos apenas perante histórias sobre multimilionários, tecnologia ou medo do fim do mundo. Estamos perante duas obras sobre a privatização do futuro. Durante décadas venderam-nos a ideia de que o progresso tecnológico acabaria por melhorar a vida de todos. Agora começamos a descobrir uma versão ligeiramente diferente: o progresso talvez sirva, antes de mais, para garantir que alguns chegam primeiro à porta de saída.
No fim deste dia 7 do Festival de Veneza 2026 fica, por isso, uma impressão bastante perturbadora. Talvez o verdadeiro luxo do século XXI já não seja ter um iate, um jato privado ou uma ilha. Talvez seja possuir um plano B para quando o plano A — isto é, a sociedade — deixar de funcionar. Nós ficamos com o planeta. Eles ficam com a chave. E, como de costume, ainda nos enviam a fatura.