Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer
Cazuza – Brasil
Acabaram as minhas férias e acabou a silly season. Infelizmente, não acabou o estado do País.
Agosto findou já há mais de uma semana e com ele terminou oficialmente aquele período mágico do ano em que parece que Portugal fica fechado para férias, excepto para os incêndios, as filas nas urgências, os preços das casas e, naturalmente, as declarações políticas feitas à sombra de uma palmeira.
É isto a chamada silly season: uma espécie de suspensão temporária da realidade, que, contud,o se continua a mover, mas durante a qual se convencionou que o País pode esperar.
Agora chegou a rentrée. E, com ela, regressam os fatos, as gravatas, os debates parlamentares, as entrevistas, os comentadores e aquela extraordinária capacidade nacional de apresentar como novidade aquilo que já sabíamos em maio.
Os partidos regressam ao palco. O Governo retoma mais claramente a atividade. A oposição afia as críticas e, entre elas, o Chega apresenta moções de censura. E nós, cidadãos, voltamos a assistir ao espetáculo com a esperança — talvez excessivamente ingénua — de que, desta vez, alguém tenha aproveitado o verão para fazer o que ainda não parece ter sido realmente feito: pensar.
A verdade impõe que se diga que a rentrée política portuguesa começou antes de setembro. E talvez seja precisamente esse o problema: há demasiada preocupação com o palco e pouca com a peça em que estamos todos envolvidos.
Portugal não precisa de mais uma temporada de frases feitas sobre “crescimento”, “competitividade”, “reformas” e “contas certas”. Já ouvimos tudo isto tantas vezes que quase seria possível fazer um hino da governação portuguesa.
Falta saber uma coisa muito mais simples: quem paga a fatura?
Porque quando se fala de crescimento, raramente se pergunta o que cresce.
Crescem os salários? Cresce o poder de compra? Cresce a habitação pública? Cresce o número de trabalhadores com contratos estáveis? Cresce o investimento no Serviço Nacional de Saúde? Cresce a capacidade de as pessoas terem filhos sem hipotecarem a vida? Ou cresce apenas o PIB e os lucros das empresas, esses maravilhosos números que podem subir enquanto a vida de quem trabalha continua exatamente no mesmo sítio?
É aqui que a rentrée profissional encontra a rentrée política.
Milhões de portugueses regressam ao trabalho depois das férias — ou, para muitos, regressam simplesmente ao segundo emprego, às horas extraordinárias, aos recibos verdes, aos contratos a prazo e à ansiedade de saber se o salário chega ao fim do mês.
Entretanto, discute-se produtividade, o que é muito curioso.
Quando um trabalhador produz mais, fala-se de produtividade. Quando uma empresa aumenta lucros, fala-se de eficiência e até se tem traduzido em maior desemprego. Quando os salários ficam para trás, fala-se de competitividade.
Há palavras que têm uma extraordinária elasticidade. E, depois, temos o mundo.
Um mundo em que a Inteligência Artificial está a transformar o trabalho, em que a geopolítica condiciona economias inteiras e em que a tecnologia avança muito mais depressa do que a capacidade dos Estados para proteger quem fica pelo caminho. Na minha opinião, e pelos reflexos que já está a ter nos despedimentos, esta deveria ser uma questão central. Temos de perguntar quem ficará com a riqueza produzida por uma economia cada vez mais automatizada.
Se a tecnologia permitir produzir mais com menos trabalho, a resposta não pode ser simplesmente: “excelente, agora trabalhemos todos ainda mais”. Talvez esteja na altura de discutir a redução do tempo de trabalho, a redistribuição dos ganhos de produtividade, a valorização salarial e uma verdadeira proteção social para quem atravessa períodos de transformação profissional.
Isto, evidentemente, parece radical.
Em Portugal, pedir que as pessoas tenham tempo para viver talvez seja considerado uma excentricidade revolucionária.
Entretanto, a política continuará a falar-nos de “liberdade” e “flexibilidade”, Mas liberdade e flexibilidade para quê?
Para escolher entre uma renda incomportável e outra ainda mais incomportável? Para aceitar um emprego mal pago porque a alternativa é o desemprego? Para trabalhar quase até aos 70 anos e depois ouvir que é preciso garantir a sustentabilidade das pensões? Aliás, já se fala novamente em suplementos extraordinários para pensionistas, apresentados como solução “amiga da sustentabilidade”. É uma curiosa conceção de sustentabilidade: dar uma ajuda extraordinária quando se pode, em vez de garantir pensões que permitam às pessoas viver com dignidade todos os meses do ano. Tudo, Porque a dignidade, ao contrário dos suplementos, não devia ser extraordinária mas permanente.
E talvez seja precisamente esta a discussão que falta fazer quando regressamos das férias e a política regressa aos palcos: que país estamos a construir para quem trabalha, para quem trabalhou e para quem ainda vai começar a trabalhar?
Um país onde o crescimento económico se traduz em melhores condições de vida ou um país onde celebramos indicadores enquanto pedimos às pessoas que continuem a apertar o cinto? Um país onde os ganhos de produtividade são distribuídos ou um país onde ficam concentrados em quem já detém o capital? Um país onde a tecnologia serve para libertar tempo ou um país onde serve apenas para reduzir custos?
Porque esta é, provavelmente, uma das grandes questões políticas dos próximos anos.
A Inteligência Artificial não é apenas uma questão tecnológica mas laboral, económica e social. E, inevitavelmente, é uma questão de poder.
Quem controla a tecnologia controla uma parte crescente da produção. Quem controla a produção decide, em grande medida, como se distribui a riqueza que dela resulta.
É precisamente por isso que a política existe ou deveria existir: para decidir aquilo que não pode ser deixado exclusivamente à lógica do lucro. A escolha é política e é nessa escolha que gostaria de ver os políticos concentrados.
Discutem-se competitividade, produtividade, défice, sustentabilidade, questões relevantes. Mas talvez devesse voltar a discutir também uma palavra antiga, perigosamente fora de moda e, ainda assim, bastante útil: distribuição. A da riqueza, do tempo, dos ganhos de produtividade e das oportunidades. Distribuição, enfim, do poder.
As palavras, como já vimos, têm uma extraordinária elasticidade.
A realidade é menos flexível e talvez seja essa que a rentrée política devesse enfrentar e, não, a das conferências de imprensa, dos cartazes e das frases cuidadosamente preparadas para aparecerem nos telejornais.
Aquela em que as pessoas acordam cedo, apanham transportes, deixam os filhos na escola, trabalham oito, nove ou dez horas, regressam a casa, fazem o jantar, abrem a aplicação do banco e descobrem que ainda faltam duas semanas para receber.
Aquela em que ter emprego deixou de ser garantia de não ser pobre.
Aquela em que uma geração inteira fez aquilo que lhe disseram para fazer — estudou, formou-se, trabalhou, adaptou-se, tornou-se flexível, aprendeu línguas, fez estágios, aceitou recibos verdes — e continua sem conseguir comprar uma casa.
Talvez seja também por isso que cresce o ressentimento e fosse prudente não desprezá-lo.
Quando a democracia deixa de oferecer respostas materiais às pessoas, aparecem sempre aqueles que oferecem culpados e, em vez de nos centrarmos em porque é que trabalhar deixou de ser suficiente para viver dignamente, discutimos quem merece menos direitos.
Enquanto nos concentramos no espetáculo, há decisões muito concretas a ser tomadas sobre o trabalho, a Inteligência Artificial, a habitação, os salários, as pensões e o Estado Social e que vão determinar quem paga e quem recebe durante as próximas décadas.
Cazuza perguntava, em 1988, por uma festa para a qual não tinha sido convidado, mas cuja conta lhe queriam apresentar. Passaram quase quarenta anos, o país é outro, mudou a tecnologia e os discursos. A pergunta, essa, continua extraordinariamente atual: Quem é convidado para a festa? Quem fica com os benefícios? E quem, no fim, paga a fatura?
As férias acabaram. A silly season também. Talvez esteja na altura de deixarmos de pagar sem ver.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.