No dia 9 de agosto de 2026, na Wolgon Road, uma estrada australiana situada em Oallen, foi encontrada, dentro de uma mala deixada numa berma, uma mulher (filha, irmã, tia, mãe, mas já nunca avó) com sinais evidentes de maus-tratos, violência extrema, desumanidade e sem vida.
No mundo onde vivemos, esta informação já não chega para nos chocar talvez porque, segundo as Nações Unidas, durante o ano de 2024, cerca de 50 mil mulheres foram mortas por companheiros ou familiares. Sim, são 137 mulheres mortas a cada dia de 366 que aquele ano teve. É, veja-se com clareza, uma mulher morta a cada dez minutos de um ano que tem, no total, 527.040 aproximadamente.
Ainda assim, mesmo que suplantados na apatia ingénua de que estes cenários só acontecem longe de nós, apesar de os dados teimarem em sugerir o contrário, o que aconteceria se em lugar desta mulher encontrada morta estivessem bem mais? Ouça-se: o que pensaríamos nós se em vez daquela mulher extremamente violentada e encontrada sem vida estivessem 4,13 mil milhões delas, que são, neste exato momento, todas as que existem no mundo?
A questão posta desta maneira pode parecer descabida porque numa mala abandonada à beira da estrada dificilmente poderiam caber todas as mulheres do planeta, mas foi, nem mais, de forma irrefutável, isso que esta descoberta veio demonstrar possível.
Em Wolgon Road, entre penhascos até ao céu, matas sem regresso e terra sem fim à vista, o corpo desta mulher, depois de levado aos respetivos exames forenses, foi identificado, surpreendentemente, como uma ultra realista boneca sexual de possível programação com Inteligência Artificial que lhe poderia, até, definir a personalidade (parceira tradicional, apaixonada no trabalho, amante de ginásio, etc) e caracterizada com dimensões humanas, roupas reais, cabelo igual ao nosso, brincos que todos podíamos ter mas, também, com algo que em qualquer um de nós é inaceitável: marcas fatais de hematomas graves, escoriações profundas e maus-tratos físicos grosseiros.
Veja-se que, à luz do direito penal, podia facilmente esquecer-se a situação deste ilícito já que, em popularismos jurídicos, vai-se dizendo, “não há crime sem corpo”, mas será assim mesmo desta vez?
Quando, justamente, se comercializa, de forma pública e generalizada, um produto que objetiva a existência da mulher através de uma massiva representação física que lhe reúne apenas condições de obediência, disponibilidade e submissão, não será este gesto uma evidente forma de discriminação, incitamento ao ódio e à violência contra as mulheres do mundo inteiro?
Mais, como é que mulheres e homens ou, acima de tudo, Pessoas, podem coabitar de forma saudável uma sociedade quando as relações humanas começam a ser ensaiadas através de alguma coisa construída para até se parecer, mas nunca chegar a ser, no que realmente é, o outro?
Uma das mais graves consequências sócio-humanas do manifesto ilícito criminal que acima vimos é justamente o fim do referido outro que segundo Byung-Chul Han, em Sem Respeito, consiste não apenas em i) existir num corpo diferente do nosso, que a super-boneca-ultra-realista cumpre, ii) falar com uma voz diferente da nossa, que a super-boneca-ultra-realista também cumpre, iii) responder com respostas diferentes das nossas, que a super-boneca-ultra-realista cumpre igualmente, mas numa coisa totalmente distinta disso.
A beleza do “inimitável do humano”, cada vez mais rara e, por esse motivo, mais bela ainda, reside, precisamente, na definição que Han atribui ao conceito de outro, ou seja, na existência de alguém que permanece sempre, em alguma medida, indisponível para nós. Por outras palavras, o outro é o outro que é porque nós jogamo-nos naquilo que, nele, nos escapa sempre: em pensamentos que não conseguimos ler, em desejos que não supomos e, essencialmente, numa vontade improgramável.
Aliás, o filósofo sul-coreano, arranca esta definição do facto de, o outro, em si perante nós, poder dizer-nos “sim”, mas tão só por conservar, antes, durante e depois do momento da anuência, a inteira possibilidade de um redondo “não” que concede às relações consideração, respeito e reciprocidade, culminando na experiência verdadeiramente humana de ser-se escolhido e aceite por alguém.
Ora, quando um indivíduo se relaciona com uma super-boneca-ultra-realista de personalidade programável, não existe uma relação entre duas pessoas, mas uma relação de alguém consigo próprio através de um corpo com aparência de mulher. O que deveria surgir como outro, autónomo, imprevisível e indisponível, aparece reduzido a uma coisa que vale enquanto serve, que permanece enquanto obedece e que, claro, pode ser substituída ou abandonada à beira da estrada quando deixa de cumprir a função que lhe foi atribuída.
É por isto mesmo que a vítima deste gravoso crime que passou em branco à generalidade dos media nacionais e internacionais não seria a super-boneca-ultra-realista, que não pode sê-lo por falta de personalidade jurídica, mas, como se viu, todas as mulheres do mundo cuja imagem coletiva é, mais uma vez, publicamente transformada num produto concebido para não resistir, não discordar, não recusar e, reiteradamente, satisfazer.
Os 4,13 mil milhões de mulheres que agora existem no planeta não são nada disto, mas tudo o que lhes apetecer ser, ainda que o mundo esteja a retroceder a um sítio cada vez mais violento e desigual, onde, neste caso, o maior risco face a este perigo iminente não é acreditarmos que esta super-boneca-ultra-realista pode, ou não, ser como uma mulher, mas, por completo, achar que a mulher terá de ser como esta super-boneca-ultra-realista.
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