Em 2008, estive na Biblioteca Angélica, em Roma. Fica ao lado da Piazza Navona, escondida atrás de uma igreja agostiniana. E mudou-me a forma de ver o mundo. Mas calma que eu explico.
Eu era bibliotecária. E, nesse dia, tive nas mãos um manuscrito com quase mil anos. Pergaminho a sério, não é papel. Tinta feita à mão por alguém que morreu séculos antes de eu nascer. E tremia. Não o manuscrito. Eu.
Houve bibliotecas abertas a toda a gente no mundo antigo. Alexandria teve a maior de todas. Há dois mil e trezentos anos, uma pessoa que não sabia ler podia sentar-se e ouvir alguém a ler para ela. Grátis. Ao ar livre. O primeiro podcast da História era em papiro e não tinha patrocínios. E depois perdeu-se. Ninguém sabe ao certo se ardeu, se foi destruída, se simplesmente a deixaram morrer. Mas o saber desapareceu. E durante quase mil anos, ficou trancado em mosteiros. Quem o guardou foi a Igreja. Quem o trancou também.
Em 1604, um bispo chamado Angelo Rocca fez uma coisa estranha: abriu uma biblioteca em Roma para toda a gente. Sem limites de classe. Sem limites de riqueza. Qualquer pessoa podia entrar. A Biblioteca Angélica guarda duzentos mil volumes. Mas a parte mais bonita não é o tamanho. É que a Igreja lhe deu autorização especial para guardar livros proibidos. Livros que a própria Igreja mandou queimar estão lá dentro, intactos. O homem do Vaticano abriu a porta que o Vaticano queria fechada. E guardou o que o Vaticano queria destruir. Se isto não é subversão, não sei o que é. Um padre subversivo. Filha, isto é o meu tipo de padre.
Eu tive um desses livros nas mãos. E percebi que sem aquele objeto, sem a cadeia de gente que passou a vida a copiar à mão o que outros tinham pensado, não haveria ciência, não haveria democracia, não haveria nada do que hoje damos como adquirido. A civilização é um manuscrito copiado à mão. E quem controla o manuscrito controla a civilização.
Durante quase dois mil anos, quem controlou o manuscrito foi a Igreja. O Vaticano é o data center mais antigo do mundo. Não usa servidores. Usa abóbadas. Não guarda ficheiros. Guarda segredos. Os Arquivos Apostólicos do Vaticano, que até 2019 se chamavam Arquivos Secretos, não são de livre acesso. Oitenta e cinco quilómetros de prateleiras. Documentos desde o século VIII. Dois mil anos de informação controlada por uma instituição que decidiu que o conhecimento era perigoso demais para ser partilhado.
Não é paranoia. É modelo de negócio. Quem detém o conhecimento, detém o poder. E, durante séculos, a Igreja não só controlou o que se sabia. Controlou o que se sentia. A relação das pessoas com o sagrado, com o corpo, com o medo, com a morte, com o amor. Não precisou de algoritmo. Precisou de púlpito. E de fogueira para quem perguntasse demais.
E o que é que esconderam? Tudo o que não cabia na narrativa. Antes de Abraão, antes do Deus único e masculino, havia deusas. Inanna na Suméria, Ishtar na Babilónia, Astarte em Canaã. Havia sacerdotisas. Na Mesopotâmia, os templos tinham sacerdotes chamados gala, que não eram homens nem mulheres, e que eram considerados sagrados precisamente por isso. A arqueologia documenta-o. A ciência confirma-o. Havia Lilith, que segundo o próprio texto hebraico recusou ser submissa e saiu do Paraíso por vontade própria. O monoteísmo não inventou Deus. Inventou o masculino de Deus. E tudo o que era feminino, fluido, ambíguo, múltiplo, ficou trancado na cave dos arquivos ou ardeu na fogueira. O manuscrito que eu tive nas mãos sobreviveu. Eu também. E olhem que as probabilidades não eram grandes para nenhum dos dois. Milhares não tiveram essa sorte. E o que eles diziam, nunca saberemos.
A versão mais recente desta empresa não usa batina. Usa fato e gravata. Já repararam que o pastor evangélico se veste exatamente como o CEO? O mesmo fato. A mesma gravata. O mesmo palco com iluminação profissional. O mesmo microfone de lapela. A mesma linguagem de sucesso, de prosperidade, de conquista. Não é coincidência. É fusão. A igreja evangélica é a startup da fé. O dízimo é a subscrição mensal. O milagre é o produto. E o pastor é o influencer com Bíblia. A Igreja Católica, pelo menos, finge que é sobre pobreza. A evangélica já nem finge. Diz-te abertamente que Deus quer que sejas rico. E se não és, o problema é a tua fé, não o sistema. É o capitalismo com incenso. Ou, se preferirem, o incenso do capitalismo.
Se meia dúzia de escribas conseguiram manter este poder durante dois milénios com tinta e pergaminho, imaginem o que vem a seguir.
Os donos das plataformas digitais não são os novos reis. São os novos papas. Não controlam territórios. Controlam atenção. Não têm exércitos. Têm algoritmos. Não escrevem bulas papais. Escrevem termos de serviço que ninguém lê e que dizem, no fundo, o mesmo que a Igreja sempre disse: confia em nós, não precisas de perceber como funciona, basta aceitar. Como a missa em latim. Séculos de gente a rezar sem perceber o que dizia, a quem dizia, nem porquê. E aceitava. Porque quem não aceita, arde. Agora, em vez de latim, é código. Em vez de incenso, é dados. Mas a congregação continua de joelhos.
A Inteligência Artificial vai levar a colonização a outro nível. A Igreja colonizou almas. Os impérios colonizaram terras. O capitalismo colonizou o trabalho. A IA vai colonizar o pensamento. Não com violência. Com conveniência. Com respostas antes de teres feito a pergunta. Com decisões antes de saberes que havia decisão para tomar. Com uma realidade tão personalizada, tão confortável, tão perfeitamente ajustada ao teu perfil que nem vais perceber que já não estás a pensar. Estás a ser pensado.
E a Igreja? A Igreja é uma empresa. Sempre foi. Só que opera sem escrutínio. E aqui, porque gosto de exemplos concretos, Portugal dá-nos uma pérola. O SRIJ fiscaliza todos os jogos de apostas no País. Todos. Casinos. Apostas online. Tudo o que envolve dinheiro e sorte é regulado pelo Estado. Menos um. Os jogos da Santa Casa da Misericórdia. A Santa Casa tem o seu próprio departamento de fiscalização. Fiscaliza-se a si própria. O maior operador de jogo do País, com monopólio sobre as apostas offline, não é fiscalizado pelo organismo que fiscaliza todos os outros. É como pedir ao réu que seja o juiz.
E o padrão repete-se. Quando os escândalos de abusos sexuais de crianças rebentaram na Igreja Católica, o que é que a Igreja fez? Criou comissões internas. Investigações internas. Tribunais internos. O mesmo modelo da Santa Casa: o abusador investiga o abuso. O sistema que falhou avalia a falha. E o resultado é sempre o mesmo: relatórios, pedidos de desculpa, promessas de reforma, e tudo continua.
Uma Igreja fundada num mito de amor, de partilha, de perdão, de cuidado pelos mais frágeis. Um homem que, segundo a história que eles próprios contam, expulsou os mercadores do templo, jantou com prostitutas, lavou os pés aos pobres, e disse que era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Esse mito. E o que fizeram com ele? Construíram o edifício mais rico do mundo. Acumularam terra, ouro, poder, segredos. Protegeram abusadores. Condenaram quem amava diferente. Queimaram quem pensava diferente. E continuam a chamar-se seguidores de um homem que não tinha onde dormir.
Eu não tenho problema com a fé. Tenho problema com a empresa que a sequestrou.
Do manuscrito ao algoritmo, a lógica é a mesma: quem controla a informação, controla o mundo. A diferença é que o monge copiava um manuscrito por ano. O algoritmo copia-te a ti em milissegundos. E quando te copia, não te está a preservar. Está a prever. E quem te prevê, controla-te antes de saberes que foste controlado.
Naquela tarde em Roma, com o manuscrito nas mãos, senti o peso do que foi preciso para chegarmos até aqui. Séculos de mãos a copiar. De olhos a arder à luz de velas. De gente que morreu para que o saber não morresse com eles. E agora olho para o ecrã e pergunto: quem está a copiar agora? E para quem?
A biblioteca era de todos. O algoritmo é de sete. Sete. Como os pecados capitais. E a coincidência não é só no número. Capitais vem do latim caput, cabeça, o que está no topo, o que comanda. Os pecados capitais não são os piores. São os que geram todos os outros. A soberba gera a crueldade. A avareza gera a fome. A luxúria gera a exploração. Os sete do algoritmo funcionam da mesma maneira: não são as piores empresas do mundo. São as que geram todas as outras dependências. E capital, neste século, já não é apenas o que comanda. É o que se acumula. Os pecados são capitais porque geram outros pecados. O dinheiro é capital porque gera mais dinheiro. E as sete empresas são as duas coisas ao mesmo tempo: o pecado e o capital. A cabeça e o cofre.
E enquanto o algoritmo te distrai com o feed, alguém está a comprar o monte onde acampavas, o prédio onde moravas, o bairro onde cresceste. Os novos papas não precisam de abóbadas. Precisam de escrituras.
E a pergunta que ninguém faz: se a Igreja precisou de dois mil anos para perder o monopólio da verdade, quanto tempo vão demorar estes? Eu cá já estou a contar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.