A morte recente de Jean-Paul Rappeneau, realizador da extraordinária adaptação cinematográfica deCyrano de Bergerac de 1990, levou-me de volta a uma obra que me acompanha há décadas. Rappeneau morreu no passado dia 1 de setembro de 2026, aos 94 anos, deixando uma filmografia breve e exigente, marcada por apenas oito longas-metragens, e aquela que continua a ser, para muitos espectadores, a mais memorável transposição para o cinema da peça de Edmond Rostand. O filme, protagonizado por Gérard Depardieu, conquistou dez prémios César, entre os quais os de melhor filme e melhor realizador e recebeu ainda um Oscar pelo guarda-roupa.
Mas esta não é uma crónica sobre a morte de um realizador. Nem sequer sobre a genialidade de Rostand, embora ela atravesse inevitavelmente tudo o que se possa dizer acerca de Cyrano de Bergerac. É, antes de mais, uma reflexão sobre a leitura, sobre o cinema e sobre a forma como algumas obras entram na nossa vida e se recusam a sair dela. Há livros que lemos e esquecemos, como quem atravessa uma paisagem vista da janela de um comboio. E há livros que permanecem connosco durante décadas, regressando em momentos inesperados, não para nos recordarem apenas aquilo que eram, mas para nos mostrarem aquilo em que nos tornámos.
Li Cyrano de Bergerac ainda muito jovem. Li-o em francês, nas escola, com a comoção, o entusiasmo e a disponibilidade de um leitor romântico que acreditava, como se acredita antes de a vida começar a desmentir algumas certezas, que a beleza da palavra podia alcançar tudo aquilo que a realidade deixava incompleto. Nessa altura, o fascínio dirigia-se inevitavelmente para aquilo que primeiro seduz os olhos de quem entra na literatura pelos caminhos da aventura: os duelos, a bravura, o movimento, a teatralidade da linguagem e a figura quase impossível daquele homem capaz de derrotar adversários com uma espada numa mão e um verso na outra. Cyrano surgia como uma espécie de herói absoluto, tão brilhante na inteligência quanto destemido na ação, excessivo em tudo, até na maneira de esconder o que sentia.
A peça de Rostand, uma comédia heróica em cinco atos e em verso, foi representada pela primeira vez no Théâtre de la Porte-Saint-Martin, em Paris, a 28 de dezembro de 1897. A sua história é conhecida, mas não deixa de exigir que regressemos ao essencial. Cyrano ama secretamente a prima Roxane, mas acredita que a sua aparência física o exclui da possibilidade de ser amado. Roxane, por sua vez, apaixona-se pela beleza de Christian, um jovem cadete sincero e corajoso, mas incapaz de exprimir o que sente com a eloquência e o fulgor verbal que ela deseja. Cyrano aceita ajudá-lo, emprestando-lhe as palavras com que Christian conquista Roxane. Escreve-lhe as cartas, sopra-lhe as frases sob a varanda e oferece a outro homem a linguagem do seu próprio amor. Quinze anos depois, Roxane compreenderá finalmente de quem eram as palavras que a tinham acompanhado e comovido.
Esta síntese, porém, diz muito pouco sobre aquilo que verdadeiramente acontece na peça. Cyrano de Bergerac não é apenas a história de um triângulo amoroso, nem a oposição simplista entre um homem belo sem palavras e um homem feio dotado de génio. Christian não é uma personagem vazia nem um homem incapaz de sentimentos profundos. Ama Roxane genuinamente. O que lhe falta não é a capacidade de sentir, mas o poder de traduzir esse sentimento numa linguagem que esteja à altura da mulher amada. Christian possui a beleza que conquista o olhar; Cyrano possui as palavras que alcançam a alma. Um tem o rosto que Cyrano desejaria ter. O outro tem a voz interior que Christian não sabe transformar em discurso. Ambos são incompletos e é dessa insuficiência que Rostand constrói uma das mais belas e dolorosas reflexões da literatura sobre o amor, a aparência, a identidade e o poder da palavra.
Mais tarde, descobri o filme de 1950, protagonizado por José Ferrer, e, muitos anos depois, o de 1990, com o ator Gérard Depardieu, realizado por Jean-Paul Rappeneau. Cada reencontro acrescentou uma nova camada à obra, como se o livro e o cinema mantivessem entre si uma conversa iniciada muito antes de eu nascer e na qual fui sendo admitido, discretamente, ao longo dos anos.
O primeiro filme conservava ainda muito da solenidade e da arquitetura teatral da peça. O segundo abriu-lhe as portas do mundo, devolveu-lhe o movimento das ruas, das tabernas, dos campos de batalha e das estações, sem sacrificar a música dos versos. Rappeneau compreendeu que adaptar Rostand não significava libertar o cinema da palavra, mas dar corpo, respiração, luz e movimento à palavra. Como o próprio realizador explicou, o desafio não consistia numa simples transposição visual da peça: o verdadeiro risco era fazer com que as personagens continuassem a falar em verso dentro do cinema.
Hoje, porém, percebo que o centro de Cyrano de Bergerac não pode ser reduzido à coragem, embora Cyrano seja corajoso, nem apenas ao amor, embora toda a obra seja atravessada por ele.
O que nela pulsa é algo mais profundo e mais humano: a distância entre aquilo que somos, aquilo que julgamos ser e aquilo que receamos que os outros vejam em nós. Cyrano é admirado pela inteligência, respeitado pela coragem, temido pelos adversários e amado pelos amigos. Contudo, vive aprisionado por uma representação de si próprio que o impede de acreditar que possa ser escolhido e amado. A sua tragédia não reside verdadeiramente no famoso nariz. Reside na forma como o transformou numa sentença e interiorizou o olhar dos outros até fazer dele uma prisão.
Mas há ainda outra dimensão, sem a qual a obra perderia a sua grandeza: o valor da palavra. Cyrano não domina a linguagem apenas para vencer duelos verbais, humilhar adversários ou exibir inteligência. A palavra é o lugar onde ele consegue existir por inteiro. É através dela que ama, sofre, se oferece e se oculta. As suas palavras chegam a Roxane, mas chegam assinadas por outro. Revelam o homem e, no mesmo instante, apagam-no. Permitem-lhe dizer tudo, exceto assumir que é ele quem fala. Esta é a contradição mais dolorosa da personagem: Cyrano possui uma voz capaz de trespassar o coração de quem ama, mas não acredita que o seu próprio corpo possa acompanhar essa voz.
A beleza de Cyrano não está, por isso, apenas no que diz. Está no que um homem pode verdadeiramente sentir e na forma como esse sentimento, atravessado pela inteligência e pela imaginação, se torna linguagem. Rostand recorda-nos que a palavra não é um ornamento colocado sobre a emoção. Quando é autêntica, a palavra concede forma ao que sentimos, ilumina aquilo que permanecia confuso e permite que um ser humano alcance outro para além das aparências. Há palavras que seduzem, palavras que ocultam, palavras que ferem e palavras que salvam. As de Cyrano fazem tudo isso, mas carregam ainda a tragédia de não poderem conduzir aquele que as escreve até ao lugar onde elas chegam.
É também por isso que o amor de Cyrano não pode ser reduzido a uma simples renúncia romântica. Existe nele generosidade, mas também medo. Há grandeza no modo como ajuda Christian, mas há igualmente uma recusa de se expor à possibilidade da rejeição. Cyrano prefere oferecer as suas palavras através de outro a apresentá-las com o seu próprio rosto. O seu sacrifício é belo, mas não é inteiramente livre. Nasce também da ferida, da vergonha e da convicção de que não merece ser amado. Rostand não nos dá uma personagem moralmente lisa. Dá-nos um homem admirável e contraditório, capaz de enfrentar exércitos, mas incapaz de atravessar a curta distância que separa o silêncio de uma declaração de amor.
Esta é a razão pela qual a obra continua tão atual. Vivemos numa sociedade que multiplicou os espelhos. Nunca tivemos tantas oportunidades para nos mostrarmos e tão poucas para nos reconhecermos. As redes sociais transformaram a imagem num critério permanente de avaliação, enquanto a comparação alimenta inseguranças que raramente confessamos.
Mudaram os instrumentos, mas não mudou o drama humano. Continuamos, em muitos aspetos, contemporâneos de Cyrano. Continuamos a esconder partes de nós por receio de não sermos aceites. Continuamos a imaginar que os outros possuem naturalmente aquilo que nos falta. Continuamos a acreditar que há pessoas mais dignas do amor que desejamos para nós.
Foi essa complexidade que o cinema de Rappeneau conseguiu transportar para o ecrã. O realizador francês não filmou apenas uma peça célebre. Filmou a energia da palavra e a solidão de um homem capaz de pronunciar as frases mais belas, desde que ninguém descubra que lhe pertencem. Gérard Depardieu deu a Cyrano a força física, o excesso, a agilidade e a vulnerabilidade que impedem a personagem de se transformar numa estátua literária. A adaptação tornou-se um dos grandes clássicos do cinema francês, conquistou dez Césares e um Oscar, e valeu a Depardieu o prémio de melhor ator no Festival de Cannes de 1990.
À medida que envelhecemos, os livros mudam. Ou melhor, mudamos nós. Quando li Cyrano de Bergerac pela primeira vez, em francês, muito jovem e romântico, admirava nele o herói, o poeta, o espadachim e o homem que fazia da língua uma forma de combate. Hoje leio-o como um ser humano. Antes fascinava-me a eloquência; agora detenho-me nos silêncios. Antes impressionava-me a inteligência; agora comove-me a fragilidade. Antes via a coragem com que enfrentava os outros; agora reconheço o medo com que se enfrentava a si próprio. A maturidade poderá consistir precisamente nisso: deixarmos de procurar nas personagens a dimensão extraordinária que as separa de nós para reconhecermos nelas as fragilidades que nos são comuns.
Michel de Montaigne escreveu nos Ensaios: “Chaque homme porte la forme entière de l’humaine condition”, isto é, “cada homem traz em si a forma inteira da condição humana”. A frase encontra-se no Livro III, capítulo II, “Du repentir”, e não, como por vezes aparece erradamente indicado, no capítulo XIII. Cyrano confirma-a de maneira admirável. Não é apenas uma personagem francesa do século XVII, recriada por um dramaturgo do final do século XIX. É um espelho da condição humana. A sua luta não se trava apenas contra rivais, exércitos ou convenções sociais. Trava-se contra a imagem que construiu de si próprio, contra o medo de se mostrar e contra a dificuldade, tão humana, de acreditar que alguém possa amar em nós precisamente aquilo que aprendemos a esconder.
Quando soube da morte de Jean-Paul Rappeneau, não pensei apenas num realizador desaparecido. Pensei na estranha sobrevivência das obras e na cadeia invisível que une quem escreve, quem filma, quem representa, quem lê e quem vê. Edmond Rostand, nascido em 1868, morreu em Paris, a 2 de dezembro de 1918, aos 50 anos. Rappeneau morreu agora. José Ferrer desapareceu há muito. Gérard Depardieu envelhece diante dos nossos olhos. No entanto, Cyrano continua vivo. Continua a atravessar gerações, línguas, palcos e ecrãs. Continua a encontrar novos leitores e espetadores. Rostand pertence ao século XIX, Cyrano ao século XVII, Rappeneau ao cinema do século XX, mas a ferida que os reúne não conhece tal calendário.
E eu próprio continuo ligado àquele jovem leitor que abriu o livro em francês e se deixou deslumbrar pela música das palavras. Já não sou o mesmo leitor, mas não reneguei o seu romantismo. Compreendo-o melhor. Ele acreditava que as palavras podiam salvar o amor. Hoje sei que nem sempre o salvam, mas sei também que sem elas muitos sentimentos permaneceriam incompletos, encerrados no silêncio ou condenados ao equívoco. As palavras não substituem a vida, mas podem dar-lhe consciência. Não eliminam a solidão, mas constroem pontes sobre ela. Não garantem que sejamos amados, mas permitem-nos revelar a verdade do que sentimos.
É por isso que alguns livros nunca acabam verdadeiramente. Fechamos as suas páginas, devolvemo-los à estante e prosseguimos a vida. Eles permanecem ali, silenciosos, à espera de que o tempo faça o seu trabalho. Um dia, voltamos a abri-los e descobrimos algo surpreendente: o livro é o mesmo, mas o leitor já não é. E, por vezes, é nessa diferença que se encontra a mais bela definição de literatura. Não apenas a arte de contar histórias, mas a arte de nos acompanhar enquanto nos transformamos.
Cyrano de Bergerac acompanhou-me desde a juventude até aos nossos dias. Primeiro, através da língua francesa, depois através do cinema, e finalmente através dessa leitura mais lenta que a idade nos ensina. Hoje já não vejo apenas o nariz, a espada, o verso ou o amor impossível. Vejo um homem que, julgando-se indigno de ser amado, ofereceu a outro as palavras mais belas que possuía. E compreendo que a literatura começa, muitas vezes, nesse lugar: quando a palavra revela não apenas aquilo que um homem sabe dizer, mas a beleza inteira daquilo que é capaz de sentir.
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