Nas férias grandes da escola, uma das tarefas lá de casa era ir apanhar pinhas. A nobre arte de acender a lareira começava sempre da mesma forma: duas pinhas bem secas, apanhadas no final de um tórrido agosto.
Percorríamos os pinhais com total liberdade. Foi nessas caminhadas que a minha mãe me ensinou o significado de um marco. Eram pedras colocadas nas extremidades dos terrenos para delimitar propriedades. Na aldeia, todos sabiam a quem pertencia cada parcela. Conheciam-se os limites da terra, mas também a história de cada família.
Hoje, muitos desses marcos desapareceram, engolidos pelo mato. E talvez essa seja a melhor metáfora para o estado da nossa floresta: perdeu-se não apenas a gestão da terra, perdeu-se a relação com ela.
Há dias ouvi João Miguel Tavares defender, no seu habitual espaço de comentário, que a sua tese passaria por “não deixar as árvores crescer depois de elas terem sido queimadas nalguns sítios do interior”.
Conheço suficientemente João Miguel Tavares para saber que não é um homem dado a simplificações fáceis. Temos visões políticas muito diferentes sobre vários temas, mas isso nunca me impediu de reconhecer a importância do debate de ideias. É precisamente por reconhecer essa seriedade que considero importante discutir esta tese.
Não sou especialista em incêndios nem em engenharia florestal. Sou apenas alguém que nasceu e cresceu no interior. E, por vezes, conhecer um território também é uma forma de especialização.
Quem nasce no interior aprende cedo que a floresta nunca foi apenas uma paisagem. Sempre foi economia, abrigo, lenha para o inverno, sombra para os animais, água, biodiversidade e identidade. Era nela que brincávamos, era dela que muitas famílias retiravam parte do seu sustento e era através dela que o território encontrava equilíbrio.
Por isso, custa-me aceitar que a resposta aos incêndios possa passar por desistir da floresta.
Compreendo a preocupação. Todos os verões assistimos à repetição da tragédia. O interior entra em sobressalto, enquanto o litoral procura refúgio junto ao mar. Desde Pedrógão Grande, sabemos que o fogo pode transformar-se numa catástrofe humana em poucas horas. As imagens de 2017 continuam gravadas na memória coletiva e recordam-nos que o país falhou.
Mas a pergunta que devemos fazer é outra.
Falhou a floresta?
Ou falhámos nós?
Durante anos fomos abandonando o interior. A população envelheceu, os campos deixaram de ser cultivados, a propriedade fragmentou-se em milhares de pequenas parcelas, muitas sem cadastro atualizado e outras sem qualquer gestão. Hoje, apenas cerca de 2% da floresta portuguesa pertence ao Estado. O restante território está disperso por centenas de milhares de proprietários, muitos deles ausentes, desconhecidos ou sem capacidade económica para cuidar das suas terras.
Ao mesmo tempo, fomos aceitando que a gestão da floresta fosse uma preocupação sazonal. Fala-se dela quando arde. Depois regressa ao silêncio.
Mas uma floresta não se constrói entre junho e setembro. Constrói-se durante décadas.
Exige ordenamento do território, gestão permanente, limpeza seletiva, mosaicos agroflorestais, caminhos acessíveis, espécies adaptadas a cada região, valorização económica dos produtos florestais e pessoas que possam viver e trabalhar no território. Nada disto cabe num ciclo eleitoral.
Há outro aspeto que me parece essencial. Vivemos num planeta cada vez mais quente. A ciência tem demonstrado que as árvores desempenham um papel fundamental na regulação da temperatura. Através da sombra e da evapotranspiração, arrefecem o ambiente, conservam a humidade dos solos, protegem a biodiversidade e ajudam a mitigar os efeitos das alterações climáticas.
É precisamente por isso que as cidades investem milhões na plantação de árvores, na criação de corredores verdes e na expansão dos espaços arborizados.
Se reconhecemos que precisamos de mais árvores nas cidades para enfrentar o calor, porque haveríamos de concluir que o interior deve resignar-se a ficar sem elas?
Naturalmente que não estou a defender florestas abandonadas, contínuas e carregadas de combustível. Essas representam um risco sério e exigem intervenção. Mas isso é muito diferente de defender que deixemos de ter floresta.
Uma floresta bem gerida não é um problema. É uma solução.
É uma infraestrutura natural capaz de reduzir temperaturas, proteger os solos, armazenar carbono, regular o ciclo da água, preservar biodiversidade e criar melhores condições para enfrentar fenómenos extremos.
Talvez o verdadeiro debate não seja entre ter ou não ter árvores. Talvez seja entre continuar a abandonar a floresta ou decidir, finalmente, geri-la.
A Proteção Civil cumpre uma missão essencial: proteger pessoas e bens. Mas talvez seja tempo de perguntar se o País não precisa também de uma estratégia permanente, técnica e transversal para a floresta, que sobreviva aos governos e aos calendários eleitorais.
Porque combater incêndios não começa quando os meios aéreos levantam voo. Começa muito antes. Começa no cadastro. Começa no ordenamento. Começa na gestão dos combustíveis. Começa na valorização económica do território. Começa por devolver futuro ao interior.
Continuo a percorrer caminhos que conheço desde criança. Alguns estão hoje quase escondidos pela vegetação. Outros perderam os marcos que delimitavam as propriedades. Mas continuo a reconhecer aquele cheiro a pinheiro aquecido pelo sol de agosto.
É impossível olhar para esta paisagem e pensar que a melhor resposta é desistir dela.
O interior não precisa de menos floresta.
Precisa de melhor floresta.
Porque desistir da floresta seria, no fundo, desistir também do interior. E um país que desiste de um terço do seu território dificilmente estará preparado para enfrentar os desafios climáticos, económicos e sociais das próximas décadas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.