Será que o verão de 2026 vai ser marcado por uma diminuição do desejo de viajar?
Pelo contrário. Os dados disponíveis apontam para uma procura turística adaptável e crescente. O que se observa é uma mudança na forma de viajar. Após uma fase de euforia associada à pós-pandemia, o período de férias adota agora uma escolha menos impulsiva e mais exigente. O que mudou não foi a vontade de viajar; foi o critério com que o destino é escolhido. Segundo a European Travel Commission, 82% dos europeus planeiam viajar entre abril e setembro de 2026, o percentual mais elevado desde 2020. Contudo, esta tendência de viajar é acompanhada de precaução, com estadias mais curtas, menos deslocações e orçamentos mais moderados.
Este critério é moldado pela instabilidade geopolítica no Médio Oriente, pelo conflito contínuo entre a Rússia e a Ucrânia, pelas preocupações climáticas, pelas restrições no espaço aéreo, pelo aumento dos combustíveis e pela incerteza sobre rotas de longo curso, que tornam, neste caso, a Europa um destino mais seguro para muitos passageiros. A ETC sublinha que a procura intraeuropeia continua a dominar e que os destinos a sul da Europa, incluindo Portugal, beneficiam desta preferência.
É por isso que as viagens de proximidade ganham peso. Não por falta de ambição, mas porque reduzem o risco. Em Portugal, este sinal também é relevante. Em 2025, as viagens turísticas dos residentes atingiram um máximo histórico de 26 milhões, com 85,2% do total a realizar-se no País. A duração média ficou em 3,9 noites, o valor mais baixo desde 2016, o que sugere espaço para escapadinhas curtas, propostas mais flexíveis e maior frequência ao longo do ano.
Portugal pode beneficiar deste contexto, mas não deve acomodar-se a uma leitura simplista da oportunidade. O País não ganha apenas por parecer uma alternativa segura a outras geografias; ganha se for capaz de afirmar uma proposta de valor própria, reconhecível e consistente. Isso implica menor dependência do volume e maior foco na qualidade percebida, na distribuição territorial, na hospitalidade, na cultura e na gastronomia.
A relevância económica do setor torna essa exigência ainda mais clara. Segundo o Banco de Portugal, as exportações de turismo totalizaram 28 mil milhões de euros em 2024. Esse valor colocou Portugal em quinto lugar na União Europeia em receitas externas absolutas do setor e em quarto lugar quando essas receitas são expressas em relação ao PIB. O turismo internacional tem, portanto, peso suficiente para justificar uma discussão exigente sobre a capacidade de entrega, a sazonalidade, a mobilidade, a habitação e a distribuição de benefícios.
A política de preços será uma das decisões mais sensíveis deste verão. A ETC mostra que aumentou a proporção de viajantes com orçamento de até 1.000€ por viagem, enquanto diminuiu a quota de quem planeia gastar 1.500€ ou mais. Num mercado assim, subir os preços sem reforçar o valor percebido é um erro estratégico. Hotéis, restauração, operadores e destinos terão de justificar melhor cada euro solicitado – por serviço, autenticidade, conforto, curadoria e consistência da experiência.
As questões climáticas introduzem também uma segunda pressão sobre a mudança. A Booking.com indica que 74% dos viajantes consideram o risco de clima extremo ao escolher o destino e o momento de viajar; 42% planeiam viajar fora da época alta e 25% procuram destinos mais frescos. Estes dados são úteis como sinal de mercado, mas devem ser lidos com cautela metodológica: trata-se de respostas recolhidas online, em janeiro de 2026, junto de 32.500 participantes de 35 países e territórios. Ainda assim, o sentido da tendência cruza-se com os sinais oficiais do território: o IPMA classificou 2024 em Portugal continental como extremamente quente e seco, e o verão de 2025 como extremamente quente e seco.
Para Portugal, isto não significa abdicar do sol e do mar. Significa alargar a promessa. Norte, Centro, Alentejo e interior podem ganhar maior centralidade se forem apresentados não como alternativa menor, mas como expressão completa do País: montanha, rios, aldeias, património, percursos, produtores, vinhos, azeites, mercados e mesas. A gastronomia, em particular, pode funcionar como uma âncora de confiança entre visitante, território e comunidade, pois aproxima a experiência do lugar real e confere substância à ideia de autenticidade.
Num mercado saturado, os destinos que se destacam não são necessariamente os que falam mais alto. São os que se tornam mais claros, inteligíveis e verificáveis. A literatura sobre confiança na comunicação digital mostra que a linguagem simples, o tom honesto, a transparência e a validação externa reduzem o ceticismo; os guias públicos portugueses de escrita clara apontam na mesma direção. Em termos editoriais, isto significa trocar a abstração por precisão, o jargão por linguagem corrente e as promessas vagas por compromissos observáveis.
O verão de 2026 poderá, assim, ser menos ingénuo e mais seletivo. Quem compreender esta mudança não venderá apenas férias. Construirá confiança. E, no turismo, a confiança continua a ser a forma mais consciente de criar preferência, memória e retorno.
Fontes consultadas
[1] European Travel Commission. European travel sentiment reaches record high for summer 2026.
https://etc-corporate.org/news/european-travel-sentiment-reaches-record-high-for-summer-2026/
[2] EUROCONTROL. European Aviation Overview 2026, Week 17. https://www.eurocontrol.int/publication/eurocontrol-european-aviation-overview-2026-week-17
[3] European Union Aviation Safety Agency (EASA). Conflict Zone Information Bulletin CZIB 2026-03 R10. https://www.easa.europa.eu/en/domains/air-operations/czibs/2026-03-r10
[4] Reuters. Price hikes, outlook cuts: what airlines are doing as fuel costs surge. https://www.reuters.com/world/asia-pacific/price-hikes-outlook-cuts-what-airlines-are-doing-fuel-costs-surge-2026-05-13/
[5] TravelBI / Turismo de Portugal. Domestic travel reaches 26 million trips in 2025. https://travelbi.turismodeportugal.pt/en/tourism-in-portugal/domestic-travel-reaches-26-million-trips-2025/
[6] Banco de Portugal. Tourism revenues and travel exports data. https://bpstat.bportugal.pt/api/media/files/scripts/numerosquecontam/2801/EN/conteudo.html
[7] Booking.com. Research reveals how climate uncertainty is reshaping peak-season travel. https://news.booking.com/bookingcom-research-reveals-how-climate-uncertainty-is-reshaping-peak-season-travel/
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