Existem dois grandes temas na vida que tenho tentado compreender, pese embora sem grande sucesso. Um deles é a morte e todas as suas questões inerentes. Outro é o amor. O que é o amor, no que diz respeito às relações amorosas propriamente ditas, pois é certo que existirão diversas formas de amor.
A ele deverá preceder sempre a paixão, apesar de esta ser frequentemente desvalorizada nas relações amorosas. Deve ser encarada com cautela. É um processo químico, visceral e animal, que vai desaparecer ao fim de 18 meses, na melhor das hipóteses. No entanto, deste estado de alma surgem das coisas mais belas da vida. Parece que ganhamos novamente vontade de viver. Ficamos providos de uma energia revitalizada, colorida, oxigenada. Uma força desmedida, mas simultaneamente inquietante e desgastante. Fosse controlável e conseguiríamos viver assim para sempre.
Veja-se textos de Vinicius de Moraes, como o soneto de fidelidade:
“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”.
Isto vindo de um homem que viveu em permanente estado de embriaguez. Um boémio, que casou nove vezes. Diz-se que “amava” as mulheres. Talvez tenha sido só um bom exemplo do que a pulsão sexual pode fazer por um homem. Seria esta pulsão a falar, a paixão ou o amor?
Pedro Arrupe , um padre jesuíta escreveu: “apaixona-te, permanece apaixonado, isso decidirá tudo em ti.” Aí, sofregamente, aplaudimos de pé. Tens que viver apaixonado pelas coisas, seja no trabalho, nas relações amorosas e de amizade.
Os profissionais do amor não hesitam em dizer que o amor não tem nada que ver com paixão ou pulsão sexual. Faz parte de outra dimensão, de outro léxico. É a arte de permanecer, mesmo na ausência. É compreensão, admiração e respeito. É calma e plenitude. Parece tratar-se de algo que poucos alguma vez conseguirão alcançar.
Quando o amor já vai longo e as relações perduram no tempo, a narrativa adapta-se gradualmente, e vamos introduzindo palavras como trabalho, esforço e sacrifício . O amor passa a ser aceitação nas contrariedades, compreensão nos tempos maus.
Parece que ficamos presos na fase final de uma maratona, nos últimos quilómetros, sem nunca alcançarmos a meta. Um estado permanente de tentativa de manter a força nas pernas.
As discussões são mais frequentes e quotidianas, o sexo tem que ser combinado, uma espécie de sessão de ginásio, que faz bem ao corpo, mas que perdeu o fulgor, os olhos nos olhos, as tardes na cama, onde nada mais era preciso. Apenas dois corpos entre quatro paredes. O prazer mais barato do universo.
Os homens vão mitigando a sua pulsão sexual frenada dos últimos anos de várias formas. Antigamente compravam carros, agora fazem provas físicas de endurance, mantendo uma certa prova viva de masculinidade e as mulheres vão sonhando com os tempos idos do verdadeiro amor, do desejo, uma nostalgia expectante e reconfortante. Logicamente, também elas procuram as suas compensações, seja nos filhos, no desporto ou noutras atividades recreativas.
Nunca consegui compreender, mas invejo profundamente, as relações de casamento ou não, com 20, 30, 40 ou mais anos. Penso como é possível as pessoas permanecerem juntas tanto tempo. Será o amor de que tanto falam? Serão essas pessoas as iluminadas que alcançaram a verdade?
Será o amor um puzzle e nós as suas peças? Serão os casais resilientes aqueles que de início não faziam parte do mesmo (puzzle), mas que moldaram as suas peças até encaixarem toscamente e o amor o resultado desse maduro esforço? Serão os casais duradouros as peças certas que encaixavam de início na perfeição e que se mantiveram “encaixáveis “ adaptando se às mudanças temporais da forma do puzzle?
Na minha prática clínica, como urologista, vejo muitos casais, mais homens em particular, em todas as fases das suas vidas.
Na generalidade, parece-me que a maior parte das longas relações sofrem de grandes problemas, ocultos ou não, em particular para o sexo masculino. Traem quase garantidamente, com ou sem qualquer importância afetiva , mas na maioria das vezes, permanecem, sólidos, junto da família. Umas vezes fazem-no por tradição familiar, outras vezes por convicções religiosas, porque acreditam que será o melhor para
os filhos, outros porque economicamente seria desgastante e destrutivo destruir um casamento/ relação. As mulheres, muitas delas, resignam-se no seio familiar, vivem na expectativa de que um dia reviverão um grande amor. Naturalmente, a angústia é vivida em silêncio, principalmente nas idades em que ainda acreditam que podem ser felizes (entre os 40-50 anos) . Esta visão pode ser considerada negativa, redutora, fria e generalista, mas apenas pretendo falar do que observo e nunca de forma personalizada. É claro que há inúmeras exceções à regra e ainda bem.
Deparo-me cada vez mais com “novas” famílias, fruto de novas relações, geralmente a partir dos 40-50 anos. Pergunto-me o qual será a razão.
Terão as relações um prazo de validade à partida? Existirá a possibilidade de sermos magnetos que simplesmente deixaram de funcionar e se perderam pelo caminho? Duas pedras gastas cuja fricção já não faz fogo? Estaremos todos incapazes de coabitar e de nos entendermos? Perdemos a resiliência? Somos mais egocêntricos?
Nos dias de hoje, é comum vermos pessoas a terem duas grandes relações ao longo da sua vida. À medida que vivermos mais tempo, estou convicto que passarão a três ou quatro em vez de duas. Talvez não existam mais porque uma segunda longa relação poderá ter um início mais intencional. Pessoas já estabelecidas na vida e no trabalho, com os filhos encaminhados, mais seguras e focadas na outra pessoa. Quando decidimos casar aos 25-30 anos, existe inevitavelmente e de forma inerente algo estratégico no seu ato. O desejo e necessidade de constituir família. Existem muitas distrações e projetos a estabelecer que talvez nos afastem da outra pessoa, que caminha connosco no chamado “projeto “. Mais velhos e amadurecidos, o projeto talvez possa ser apenas e só, a nova relação. Talvez não haja ainda uma terceira relação porque ao 60-70 anos, as pessoas têm como que a aceitação plena de que já não valerá a pena procurar outra pessoa que as possa fazer novamente felizes.
Não consigo deixar de pensar que quando casamos e “prometemos” tentar passar o resto da vida com outra pessoa, estamos a acreditar que para essa outra pessoa só existimos nós. Num universo com biliões de pessoas, é de uma soberba e ingenuidade tremenda acharmos que só existirá uma pessoa capaz de nos fazer felizes e vice-versa. Não estaremos com uma pessoa toda a vida porque por acaso não estamos com outra?
Mais do que trabalho, sacrifício ou dedicação, não existirá uma afinidade quase animal e oculta que nos liga a outra pessoa e é essa base atrativa que nos liga para sempre ou não?
Tradicionalmente achamos que uma relação de sucesso foi a relação que durou para sempre. Não estou certo disso, como não estou certo de nada, apenas da morte e que daqui a duas gerações, quase todos os que estão a ler esta crónica serão esquecidos por completo, tal como eu.
Seja o que for o amor , continuarei a amá-lo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.