Portugal é um país de grandes anúncios. Anunciamos estratégias nacionais, programas de transformação, planos de investimento, reformas estruturais e objetivos ambiciosos para praticamente tudo: habitação, saúde, educação, justiça, floresta, economia. Se avaliássemos o sucesso de um país pela qualidade dos seus anúncios, estaríamos provavelmente entre os melhores da Europa.
O problema é que os resultados não se medem pelos anúncios. Medem-se pela execução.
Esta é uma realidade que qualquer gestor conhece. Numa empresa, as reuniões são importantes. Os planos são importantes. As apresentações são importantes. Mas nenhum cliente compra uma apresentação. Nenhum produto é fabricado por um PowerPoint. Nenhum resultado aparece porque alguém definiu um objetivo numa sala de reuniões. Os resultados surgem quando existe capacidade de transformar intenções em ações concretas. E é precisamente aí que muitas vezes falhamos.
Ao longo dos últimos anos, Portugal produziu inúmeros diagnósticos sobre os seus principais desafios. Sabemos que precisamos de mais habitação. Sabemos que precisamos de uma economia mais produtiva. Sabemos que precisamos de processos administrativos mais simples, de maior eficiência do Estado e de
melhores condições para atrair investimento. O conhecimento existe. O problema raramente é perceber o que fazer. O problema é fazê-lo.
É por isso que muitas das discussões públicas parecem andar em círculos. Mudam os governos, mudam as prioridades e mudam os anúncios. No entanto, muitos dos problemas permanecem surpreendentemente semelhantes. Não porque sejam impossíveis de resolver. Mas porque a execução exige algo mais difícil do que anunciar. Exige continuidade. Exige acompanhamento. Exige responsabilização. E, acima de tudo, exige tempo.
Vivemos numa era em que o anúncio produz resultados imediatos. Gera manchetes, atenção mediática, votos e discussão pública. A execução, pelo contrário, é lenta, silenciosa e muitas vezes invisível.
Ninguém faz uma conferência de imprensa para anunciar que um processo ficou 20% mais eficiente. Mas são precisamente essas melhorias que transformam organizações e países.
Nas empresas, a diferença entre as melhores e as restantes raramente está na qualidade das ideias. Está na capacidade de implementação. Talvez o mesmo aconteça com os países.
Portugal não tem falta de estratégias. Não tem falta de relatórios. Não tem falta de diagnósticos. Tem, por vezes, dificuldade em transformar ambição em resultados. Existe ainda uma dimensão que raramente é discutida. Numa democracia, as eleições servem para que os cidadãos escolham uma direção. Naturalmente, haverá sempre oposição, escrutínio e debate. Fazem parte do funcionamento saudável de qualquer regime democrático.
Mas existe uma diferença entre escrutinar e bloquear. Entre melhorar propostas e impedir sistematicamente a sua concretização.
Quando uma sociedade expressa democraticamente uma vontade de mudança, é importante que as instituições tenham a capacidade de transformar essa escolha em ação. Caso contrário, corre-se o risco de criar uma crescente sensação de frustração entre aquilo que os cidadãos votam e aquilo que efetivamente acontece.
A democracia não se esgota no momento do voto. Mas também não pode ficar bloqueada depois dele. Porque, no final, os países não são avaliados pelas promessas que fazem. São avaliados por aquilo que conseguem concretizar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.