O sono é um processo biológico natural do organismo, que desempenha um papel essencial na nossa saúde e bem-estar. Segundo a Organização Mundial de Saúde, os bebés precisam de dormir 14 a 17 horas por dia; as crianças em idade escolar entre 9 a 11 horas; e os adultos, em média, de 7 a 9 horas. Aliado a outros comportamentos, o sono é um dos pilares para um bom funcionamento físico e mental, sendo essencial para o desenvolvimento cognitivo, a regulação metabólica e a imunidade. É durante o sono que o nosso corpo descansa, regenera e prepara-se para o dia seguinte.
Todos sabemos, sem precisar de muita pesquisa, que a falta de sono é prejudicial ao organismo, mas será que percebemos que esse mesmo défice compromete diretamente a nossa saúde visual? O ciclo do sono divide-se em duas fases – REM e não REM – que se alternam ciclicamente ao longo da noite. A fase não REM, composta por estágios de profundidade crescente, caracteriza-se pela diminuição da frequência respiratória e cardíaca, pela diminuição do tónus muscular e pela maior parte da recuperação física do corpo. Já a fase REM está associada ao rápido movimento dos olhos, a uma respiração mais profunda, a um tónus muscular ainda mais baixo e à presença de sonhos.
É precisamente durante o sono que os olhos também encontram a recuperação de que necessitam. Ao adormecermos, as nossas pálpebras fecham-se e, apesar de a produção de lágrimas diminuir, elas mantêm sempre os olhos hidratados, dispensando a necessidade de pestanejar. Na fase não REM, os olhos ficam relativamente imóveis, enquanto os músculos oculares relaxam e a atividade cerebral se reduz progressivamente. Já na fase REM, movem-se rapidamente de um lado para o outro, em sincronia com a intensa atividade cerebral e os sonhos mais vívidos.
Este ciclo noturno revela-se vital para os olhos, proporcionando-lhes o momento perfeito para uma regeneração celular profunda. Os tecidos da córnea e da retina recuperam da exposição do dia a dia às luzes artificiais e aos ecrãs, renova-se a lubrificação e a película lacrimal, e a retina elimina as toxinas e os resíduos metabólicos que se acumularam ao longo do dia. Graças a este processo restaurador, previnem-se danos a longo prazo e garante-se uma visão nítida e estável.
Este equilíbrio é especialmente importante num contexto em que as exigências do dia a dia já colocam a nossa saúde visual em causa. As atividades rotineiras deixam, frequentemente, os nossos olhos secos, vermelhos e irritados, com visão turva, maior sensibilidade à luz e até dores de cabeça. Com a redução da qualidade do sono, estes problemas podem agravar-se de forma significativa. Pode manifestar-se a síndrome do olho seco, com diminuição da lágrima e aumento da irritação ocular; podem surgir tremores oculares causados por fadiga e esforço; a visão pode tornar-se turva e instável devido ao controlo inadequado do foco; e pode elevar-se a pressão ocular, agravando o risco de glaucoma, degeneração macular e danos no nervo ótico – com potencial para perda permanente da visão a longo prazo.
Por tudo isto, torna-se imperativo adotar uma boa higiene de sono, criando rotinas consistentes com horários regulares, tanto para deitar como para acordar, num ambiente confortável e agradável, e evitando luzes e ecrãs nas horas que precedem o descanso. Dormir bem pode ser o alicerce para uma vida plena e uma visão saudável a longo prazo. É essencial lembrarmo-nos de que o repouso noturno não é uma simples interrupção, mas sim um processo restaurador vital que nos permite ver o mundo com clareza renovada.
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