A Europa quer ser verde, independente e sustentável. Mas, na prática, continua dependente do exterior para garantir algo básico: energia. Importa gás, petróleo e eletricidade, expõe-se a choques geopolíticos e paga preços elevados por essa dependência. O discurso é ambicioso. A realidade é frágil.
Portugal segue o mesmo caminho. Produz energia renovável, mas não é autossuficiente. Quando o vento e o sol falham, depende do exterior. Não controla totalmente o seu fornecimento nem os seus custos.
E é aqui que surge a pergunta que ninguém quer fazer: como é que queremos independência energética… sem sequer considerar energia nuclear?
A energia nuclear é, hoje, uma das poucas fontes capazes de garantir produção estável, previsível e com baixas emissões de carbono. Ao contrário das renováveis intermitentes, não depende das condições meteorológicas. Ao contrário dos combustíveis fósseis, não emite CO₂ em operação.
A questão da segurança é frequentemente usada como argumento contra. Mas a realidade é simples: a energia nuclear moderna é uma das formas mais seguras de produzir eletricidade. A tecnologia evoluiu, os sistemas são altamente controlados e os riscos são conhecidos e geridos. Então porque não avançar? A resposta não é técnica. É política.
Projetos nucleares exigem investimento elevado, planeamento de longo prazo e decisões que ultrapassam ciclos eleitorais. Não produzem resultado imediatos nem ganhos políticos rápidos. Exigem consistência, visão e, sobretudo, coragem.
E essa coragem simplesmente não existiu. Em Portugal, não houve um único político nos últimos 50 anos com a capacidade de assumir que a energia nuclear poderia ser necessária — e agir em conformidade. O tema foi sempre evitado, adiado ou descartado, não por falta de lógica, mas por falta de vontade.
O resultado é uma contradição evidente. A Europa quer reduzir emissões, mas evita o nuclear. Quer independência energética, mas aumenta a dependência externa. Quer estabilidade de preços, mas aposta em sistemas intermitentes. Este desalinhamento entre discurso e realidade é o que define a atual hipocrisia energética europeia.
Portugal tem aqui uma escolha estratégica. Um debate sério sobre energia nuclear não é um capricho ideológico: é uma questão de soberania, competitividade e futuro económico. Não se trata de substituir renováveis, mas de as complementar com uma base estável e previsível.
A transição energética exige mais do que intenções. Exige decisões difíceis.
A questão já não é se a energia nuclear faz sentido. A questão é se existe coragem para a discutir — e para agir.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.