As sucessivas intempéries, em particular a depressão Kristin, que atingiram Portugal no início do ano, deram-nos algumas lições que não devem ser ignoradas. Para além dos números, fábricas e casas destruídas ou quilómetros de estrada interrompidos, ficou exposta a fragilidade e capacidade de resposta do país perante uma calamidade desta dimensão.
Passadas semanas destes acontecimentos, persistiam ainda zonas isoladas, sem eletricidade ou comunicações, dificultando o tão necessário “regresso à normalidade”. A atividade económica continuou sob pressão, com prejuízos acumulados e com um impacto que se agrava a cada dia. Cerca de 20% da produção nacional concentra-se em regiões como o Centro, o Oeste e o Vale do Tejo, territórios particularmente afetados, onde a ausência de condições para manter a atividade deixou muitas empresas desesperadas na busca de alternativas para retoma das operações. Com danos que o Governo estima já ultrapassarem os dois mil milhões de euros, torna-se imperativo repensar como aumentar a resiliência das infraestruturas a um custo aceitável.
No caso da rede elétrica, fortemente dependente de sistemas aéreos, ficou claro o risco associado a uma dependência quase exclusiva da eletricidade como principal fonte de energia. A consequência foi imediata e refletiu-se, sobretudo, na paralisação da atividade económica, em ruturas nas cadeias de abastecimento e no agravamento dos impactos sociais. Uma fragilidade que não é nova, nem exclusiva de Portugal. Também no início do ano, fenómenos climáticos extremos afetaram igualmente a Europa Ocidental, desde o Reino Unido à Alemanha, deixando milhares de famílias sem fornecimento elétrico. E quando a eletricidade falha, tudo cessa: serviços interrompidos, escolas encerradas, atrasos logísticos e produtivos, e prejuízos incalculáveis.
Como resposta imediata, multiplicaram-se os geradores alimentados por combustíveis fósseis. Eficazes como solução temporária, mas que representam um retrocesso ambiental e não podem constituir a resposta estruturante sempre que o sistema entrar em rutura.
E principalmente quando temos provas dadas por outros países de que é cada vez mais urgente pensar na resiliência energética. Na Dinamarca, Suíça, Alemanha ou Países Baixos, esta prevenção é encarada como prioridade estratégica, com investimentos significativos em linhas elétricas subterrâneas e em infraestruturas menos vulneráveis a tempestades. Em Portugal, esta realidade permanece desigual e longe de ser universal.
É aqui que a diversidade energética ganha relevância. Uma estratégia resiliente exige alternativas complementares, que incorporem combustíveis de baixo teor de carbono como os fuelóleos produzidos a partir de resíduos, capazes de complementar a eletrificação total dos sistemas produtivos. Estas soluções, tecnologicamente maduras e já disponíveis no mercado, contribuem para reduzir emissões, reforçar a competitividade industrial e garantir que a sustentabilidade não é sacrificada em momentos de crise.
Portugal precisa mesmo de assumir, sem hesitações, esta visão integrada e apoiar alternativas com provas dadas de eficácia e resiliência energética. Reforçar a eletrificação continua a ser essencial, mas deve ser combinada com outras soluções energéticas complementares que assegurem continuidade operacional mesmo perante falhas da rede elétrica. Só assim teremos uma economia menos vulnerável e infraestruturas realmente preparadas para fenómenos cada vez mais frequentes.
A grande aprendizagem desta crise é clara: resiliência, segurança e diversidade energética têm de ser pilares estratégicos da economia nacional. Apenas com um mix de soluções limpas, eficientes e tecnologicamente maduras poderemos garantir uma indústria competitiva e preparada para enfrentar o futuro. Porque, num cenário de crescente incerteza climática, a prevenção e não a reação é o verdadeiro fator diferenciador.
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