O abate desmesurado de pinheiros no concelho de Ovar constitui hoje uma das mais preocupantes ameaças ambientais da região, não apenas pelo impacto direto na biodiversidade, mas também pelo papel crítico que esta floresta desempenha na proteção da zona costeira. O que se observa no terreno não é uma gestão florestal responsável, mas antes uma exploração intensiva que levanta sérias questões legais, ecológicas e éticas.
A floresta de pinhal que caracteriza grande parte do território de Ovar não é apenas um conjunto de árvores destinadas à produção de madeira. Trata-se de um ecossistema complexo, historicamente moldado pela interação entre o ser humano e a natureza, com funções ambientais essenciais. Entre estas destaca-se a sua capacidade de fixação de solos arenosos, atuando como uma barreira natural contra a erosão costeira. Num contexto de alterações climáticas e subida do nível do mar, esta função torna-se ainda mais crucial.
A remoção massiva de pinheiros fragiliza o equilíbrio deste sistema. Sem a cobertura florestal adequada, os solos tornam-se mais vulneráveis à ação do vento e da água, acelerando processos erosivos que podem ter consequências irreversíveis para as dunas e para a linha de costa. A médio prazo, este fenómeno poderá traduzir-se em perda de território, danos em infraestruturas e maior exposição das populações locais a riscos naturais.
A este cenário soma-se um fator adicional de preocupação, a presença de um aterro sanitário em Maceda, localizado numa zona sensível e relativamente próxima do mar. A conjugação entre a degradação da floresta e a proximidade deste tipo de infraestrutura aumenta significativamente os riscos ambientais. A erosão costeira e a instabilidade dos solos podem, em situações extremas, comprometer a integridade do aterro, potenciando a contaminação de aquíferos, linhas de água e, em última instância, do próprio oceano.
Para além do impacto físico, o abate intensivo compromete também a biodiversidade. O pinhal de Ovar alberga diversas espécies de fauna e flora que dependem deste habitat para sobreviver. A destruição indiscriminada do coberto vegetal reduz drasticamente os locais de abrigo e alimentação, contribuindo para o declínio de espécies e para a simplificação do ecossistema. Este empobrecimento biológico é um sinal claro de degradação ambiental.
Importa ainda referir que existe um Plano de Gestão Florestal assinado pelo ICNF e pela autarquia que valida todo este processo, por incrível que pareça! Pois, qualquer pessoa que visite a zona e observe atentamente os talhões onde tem sido feito o corte de pinheiros, curiosamente todos no interior da floresta e não na periferia da estrada florestal, apercebe-se do atentado ambiental em vigor.
É importante referir que uma gestão equilibrada implica cortes seletivos, reflorestação adequada e respeito pelos ciclos naturais, mas que está em causa em Ovar, afasta-se desses princípios, privilegiando o lucro imediato em detrimento do interesse coletivo.
O ICNF dá seguimento a este PGF insensível ao que está à vista de todos, o executivo da Câmara Municipal de Ovar assiste a tudo isto com um olhar cúmplice e mesmo perante a falta de argumentação opta por nada fazer. Infelizmente, na última sessão da Assembleia Municipal de Ovar, o PSD aliou-se ao movimento 2030 para chumbar uma moção apresentada pelos partidos na oposição que exigia a suspensão imediata deste PGF, contribuindo desta forma para a perpetuação do erro que está a destruir a floresta.
É caso para dizer que Ovar não teve sorte com o PGF, mas menos sorte teve com alguns autarcas que desrespeitam os compromissos assumidos no período eleitoral, colocando o tacticismo político acima do verdadeiro interesse das pessoas e do município que representam.
Perante este cenário, impõe-se uma intervenção coordenada das autoridades competentes, bem como um maior envolvimento da sociedade civil. A proteção da floresta não é apenas uma questão ambiental, mas também social e económica. Preservar o pinhal de Ovar é garantir a resiliência da costa, a qualidade de vida das populações e a segurança ambiental de infraestruturas sensíveis como o aterro de Maceda.
Ignorar o problema ou relativizar a sua gravidade será, em última análise, aceitar a degradação progressiva de um território que desempenha um papel estratégico no equilíbrio ecológico do litoral português. O momento de atuar é agora.
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