Em fevereiro de 2025, há precisamente um ano, o diretor nacional da PJ deslocou-se ao Parlamento, para, a pedido da Iniciativa Liberal, ser ouvido, a propósito da situação da criminalidade em Portugal. Luís António Trindade das Neves, respondendo a dúvidas dos deputados, aproveitou para, sustentado em números, factos e estatísticas, desconstruir determinadas narrativas, que atribuiu a “notícias falsas” divulgadas por forças que pretenderiam “instalar o caos”. Começou por negar que tenha havido um aumento da criminalidade, nos últimos anos. Sabendo que a memória é curta e o que conta é a perceção do momento, socorrendo-se dos números, provou que determinados crimes − assaltos, sequestros e outros − tinham sofrido uma regressão, relativamente a anos anteriores. Reconheceu, ainda assim, que Portugal tem uma taxa de homicídios considerável, mas esclareceu que 90% dos crimes graves são cometidos por cidadãos portugueses. Explicou que, embora um imigrante seja um estrangeiro, um estrangeiro pode não ser imigrante – isto para dizer que o elevado número de estrangeiros nas nossas prisões é composto por criminosos que cometeram crimes em Portugal, mas que não viviam permanentemente e muito menos trabalhavam, necessariamente, no nosso país. Disse que um imigrante, pelo contrário, mais do que um nacional, tende a evitar cometer crimes, por saber que a perpetração de um crime pode destruir o seu sonho inicial de procurar uma vida melhor num outro país – neste caso, o nosso. Disse, ainda, que boa parte das detenções de estrangeiros decorre de correios da droga sul-americanos que passam por Lisboa, normalmente mulheres pobres, na maioria brasileiras.
Este esclarecimento, estribado em factos, estraga completamente a narrativa do Chega, e um dos seus mais recentes convertidos, o ex-social-democrata Rui Gomes da Silva, acusando o toque, apressou-se a vir a terreiro, imediatamente após se conhecer o nome do novo ministro da Administração Interna, prometendo um escrutínio severo e esperando que o novo MAI reveja, a este propósito, as suas conclusões – o que, escusado será dizê-lo, implicaria fazer do novo ministro um negacionista dos factos. Ao mesmo tempo, a deputada do Chega Cristina Rodrigues divulgava um vídeo um tanto ou quanto tonto, em que declarava que “estamos entregues aos bichos”. Atenção que o Chega sente uma natural incomodidade, por saber duas coisas: primeiro, conhece o currículo de Luís Neves no combate à criminalidade organizada e sabe que ninguém acreditaria numa eventual tentativa para denegrir, em matéria de repressão da “bandidagem”, o novo ministro. Em segundo lugar, André Ventura foi sempre muito vocal na defesa da Polícia Judiciária e no seu trabalho de “combate à corrupção”.
No meio da euforia gerada pela mediática escolha, subsistem alguns irritantes de difícil resposta: primeiro, as capacidades em matéria de Proteção Civil. Segundo, a inédita transferência de um chefe, no ativo, de uma polícia que investiga crimes de colarinho branco, para um “ministério do interior”
Mas, voltando a fevereiro de 2025, é preciso reconhecer que muita coisa mudou desde então: o primeiro-ministro foi investigado pelo Ministério Público, através da polícia de investigação criminal, a PJ de Luís Neves, no âmbito do caso da Spinunviva. Por causa disso, o governo caiu e Montenegro voltou a ganhar eleições, desta vez, com maioria reforçada. O Chega tornou-se a segunda força parlamentar e o governo acolheu boa parte das suas teses, na área da imigração e da segurança, aproximando-se de André Ventura, no âmbito de acordos para modificar a legislação que regula a imigração e a concessão de nacionalidade. O primeiro-ministro e várias figuras do PSD, como os presidentes das câmaras de Lisboa e do Porto, acolheram as teses do Chega, sobre as perceções de insegurança, muitas vezes baseadas, apenas, no receio suscitado pela presença de pessoas diferentes, na cor e na cultura, nas ruas das suas cidades, e não em números comparativos com períodos pré-imigratórios.
Por outro lado, a segunda tentativa de Montenegro de encontrar uma boa ministra da Administração Interna falhou. Não tanto por deficiências no âmbito da segurança interna, mas nas falhas da Proteção Civil. Incêndios e tempestades deixaram a nu as falhas do Estado e uma Proteção Civil “balcanizada” mostrou as deficiências de sempre. Entretanto, as eleições presidenciais serviram para operar a correção do tiro: afinal, o povo de direita, da direita democrática, decisivo nos últimos atos eleitorais, preferiu, de forma esmagadora, um candidato originariamente socialista a um radical da direita populista. Montenegro tinha a palavra.
E conseguiu “uma flor”: revelando capacidade de gerir a informação − sem fugas, como vem sendo hábito –, mostrou que também ainda consegue recrutar, fora da esfera partidária, indo buscar um independente prestigiado, um operacional com provas dadas na área da segurança e uma figura conotada com o centro-esquerda (para não dizer com o PS). Depois de toda a “língua na orelha” com o Chega, o primeiro-ministro vai desencantar um ministro com o qual as imagens da polémica operação do encosto à parede dos imigrantes, no Martim Moniz, teriam sido impossíveis. E, justiça se lhe faça, já terá procurado em Maria Lúcia Amaral esse perfil humanista e menos securitário (no mau sentido), mas a antiga provedora de Justiça não teve tempo (nem autoridade) para o demonstrar. De repente, temos, no MAI, a certeza de alguém que respeitará as liberdades, os direitos e garantias dos cidadãos e que tem as capacidades de liderança para os impor.
Luís Neves, não sendo um homem de partido, é, paradoxalmente, um político hábil. E fornece a Montenegro aquilo de que ele mais precisava, no MAI, e que tem sido um défice nesse ministério-chave, desde os tempos de António Costa: capacidade de gestão da informação, competência na comunicação com os média e a opinião pública, carisma, notoriedade e credibilidade. Sendo um independente, Luís Neves entra diretamente para a galeria dos ministros políticos e com peso político.
Além da capacidade operacional, foi “política” pura e dura aquilo que Neves fez, à frente da PJ: conseguiu persuadir os governos a dotarem a polícia dos meios de que precisava. Conquistou subsídios de risco para os operacionais, muito antes das forças de segurança. Publicitou com mestria os sucessos da PJ na investigação criminal, desde as espetaculares apreensões de droga e detenções de traficantes internacionais aos casos mais mediáticos, a que deu – por saber que eram mediáticos… − atenção especial: a localização e a detenção, na África do Sul, de João Rendeiro, a localização e a detenção, um a um, dos evadidos de Alcoentre e o desmantelamento do grupo neonazi 1143.
No meio da euforia gerada pela mediática escolha de Luís Neves para o MAI, subsistem, porém, alguns irritantes de difícil resposta: primeiro, as capacidades de Neves para superintender sobre as áreas da Proteção Civil e da respetiva reforma – anunciada no plano exposto pelo primeiro-ministro, na ressaca das tempestades − são um melão por abrir. Segundo, acima de tudo, a inédita (em termos europeus) transferência de um chefe, no ativo, de uma polícia de investigação criminal, o que inclui os crimes de colarinho branco, diretamente para um “ministério do interior”. E isto no momento em que, embora com o caso Spinunviva arquivado, se abre uma terceira investigação sobre a casa de Espinho do primeiro-ministro, tutelada pelo Ministério Público, órgão judiciário totalmente independente, mas com os instrumentos de investigação da PJ. Será Luís Neves demasiado perfeito para ser verdade?… Só o tempo o dirá.