A pós-verdade não é um ruído passageiro nem um excesso retórico sem consequências. Tem efeitos concretos e profundos, muito para além do que é mais visível. Não se trata apenas de convencer pessoas de que as vacinas são perigosas ou de que os cientistas mentem sistematicamente. O que está verdadeiramente em causa é algo mais corrosivo: colocar tudo em causa. Tornar tudo suspeito. Fazer com que nada pareça seguro.
Ao minar a confiança dos cidadãos na sociedade, no Estado, nas empresas e nas instituições em geral, atinge-se o núcleo da legitimidade democrática. Quando essa confiança se quebra, instala-se um descrédito generalizado que cria o terreno ideal para quem promete “romper com o sistema” e se apresenta como antítese das elites. É uma lógica simples, mas eficaz: se ninguém merece confiança, então qualquer alternativa serve.
Este processo tem ainda outro efeito perverso. Ao dissolver os critérios com que os eleitores avaliam propostas políticas, a pós-verdade esvazia o próprio debate democrático. Se tudo é incerto, se tudo é manipulado, se políticos e jornalistas são vistos como “comprados”, a política deixa de ser um confronto de ideias e transforma-se num concurso de ressentimentos. A emoção ocupa o centro do palco e saem da equação aquilo que deveria ser essencial: propostas, competência, mérito.
Neste contexto, a mentira não é usada para convencer, mas para corroer. Não se pretende substituir uma verdade por outra, mas criar um vazio onde já não se acredita em nada. O objetivo não é adesão, é desorientação. E essa desorientação traduz-se numa progressiva destruição do espaço público e numa desconfiança crescente em relação à vida democrática.
É precisamente deste mecanismo que o populismo se alimenta. De uma divisão artificial e simplificadora: de um lado, um “povo” autêntico, duro, traído; do outro, uma elite corrupta, distante e conspiradora. A dúvida deixa de ser um exercício saudável e passa a ser encarada como fraqueza. Questionar é suspeito; gritar é sinal de força.
O problema é que, quando aceitamos que quem grita mais alto é quem vence, quando deixamos cair o princípio da credibilidade institucional, perde-se uma fronteira essencial. E quando deixamos de confiar, deixamos também de resistir. Sem confiança, não há exigência; sem exigência, não há escrutínio.
Sem um escrutínio eficaz das instituições e sem critérios que enquadrem e normalizem o debate político, torna-se cada vez mais difícil — senão impossível — fazer política em democracia.
Esta é a pescadinha de rabo na boca em que não podemos cair. Parece que o debate político se faz dos “casos e casinhos”, mas não se olha ao esfumar do crédito institucional. O que diminui a força democrática.
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