Há um cheiro acre nas escolas portuguesas. Não é o dos marcadores de quadro branco, nem o das fotocópias ainda quentes. É o odor metálico da desconfiança institucionalizada. É o fedor da repressão disfarçada de “modernização”. É a podridão silenciosa de um sistema que, em vez de cuidar dos seus professores, os transforma em alvos de vigilância burocrática — como se cada aula fosse um ato suspeito, e não um gesto de esperança.
A mais recente demonstração dessa lógica punitiva veio do próprio ministro da Educação, Ciência e Inovação: doravante, o registo dos sumários nas plataformas digitais deixou de ser um mero instrumento pedagógico para se tornar condição sine qua non do pagamento salarial. Ou seja: se um professor, por cansaço, doença, sobrecarga ou simples esquecimento humano, não carregar o seu sumário até ao fim do mês, corre o risco de ver o seu vencimento ameaçado. Como se ensinar fosse uma transação contabilística e não um encontro entre saberes, afetos e futuros.
Mas vamos recuar um instante. O que é, afinal, um sumário? Na sua essência — aquela que os burocratas parecem ter esquecido —, trata-se de um registo pedagógico. Um mapa do caminho percorrido com os alunos. Um testemunho do que foi ensinado, do que foi tentado, do que ficou por concluir. É um documento vivo, feito de intenções e imprevistos, não de números redondos e conformidades cegas. Transformá-lo num mecanismo de controlo administrativo é como exigir a um jardineiro que conte, folha a folha, as árvores que plantou antes de lhe entregar a água.
Esta medida não surge no vácuo. Surge num contexto de erosão contínua da confiança na classe docente. Surge depois de anos de precariedade, de cortes, de promessas incumpridas, de corpos exaustos e vocações esgotadas. Surge quando os professores já se sentem — com razão — hostilizados, invisibilizados, tratados como meros executores de tarefas, e não como profissionais com formação, juízo e responsabilidade ética. E agora, como cereja no bolo da humilhação, condiciona-se-lhes o pão ao preenchimento de um formulário digital.
Os sindicatos reagiram, claro. A Federação Nacional da Educação lembrou — com firmeza e tristeza — que o sumário deve servir a pedagogia, não a polícia administrativa. Diretores de agrupamentos, muitos deles antigos professores, alertaram para os riscos técnicos, humanos e simbólicos desta medida: plataformas incompatíveis, sistemas obsoletos, pressão adicional sobre quem já trabalha à beira do colapso. Mas acima de tudo, denunciaram o que está em jogo: a autonomia das escolas, o respeito pela profissão docente e a própria alma da educação democrática.
Porque há algo de profundamente antidemocrático nesta lógica de vigilância. Algo que ecoa — sem querer comparar regimes, mas lembrando princípios — aquilo que Alain, o grande cronista e filósofo francês, tanto temia: a substituição da confiança pela suspeição, do diálogo pelo comando, da liberdade pela submissão. Quando o Estado decide que só acredita no trabalho de um professor se este for validado por um clique numa plataforma, está a dizer, sem palavras, que não confia nele. E quando um sistema educativo deixa de confiar nos seus professores, deixa também de acreditar na própria educação.
Pior: esta medida vem mascarada de eficiência, de transparência, de “rigor”. Mas o verdadeiro rigor não é o da contabilidade fria; é o do pensamento crítico, da escuta atenta, da adaptação às necessidades reais dos alunos. O verdadeiro rigor exige tempo, recursos, estabilidade — não punições automáticas por falhas administrativas. E o verdadeiro respeito pela educação começa por respeitar quem a faz todos os dias, mesmo quando ninguém está a olhar.
Até onde se vai neste pântano? Até ao ponto em que os professores, já tantas vezes feridos, decidirem que não vale a pena continuar a nadar contra a corrente. Até ao momento em que as escolas deixarem de ser lugares de encontro e passarem a ser postos de controlo. Até ao dia em que olharmos para trás e percebermos que, enquanto discutíamos sumários, perdemos a alma da escola.
Não é tarde para recuar. Não é tarde para devolver aos professores a dignidade que merecem. Não é tarde para lembrar que educar não é cumprir metas, mas cultivar seres humanos — com falhas, com ritmos, com histórias. E que, nesse cultivo, o primeiro ingrediente é a confiança.
Sem essa total confiança e absoluto respeito pelos Professores, nenhum sumário salvará a Educação.
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