A infância continua a ser, aos olhos dos adultos, claro, o maior e mais inocente tesouro da vida. Podemos dizer que as crianças são a grande oportunidade que nos é dada na nossa breve história. E o melhor é que nos é dada de graça, fruto de um dos maiores prazeres da vida.
Vemos ali um ser que é nosso — até ver — vivo, dotado de uma inocência pura e de uma plasticidade infinita. Para alguns, apenas a reprodução genética que devemos deixar: um objetivo cumprido. Para outros, e cada vez mais, talvez por inexistência de vida própria, a salvação das suas próprias vidas.
Em tempos passados vinham cedo demais; agora, porque tudo o resto é mais importante – não o sendo – vêm tarde demais.
Da nossa soberba nasce a vontade de mostrar o que “os nossos filhos” serão e para onde vão.
Começa ainda antes de eles saberem que existem. “O meu filho não vê televisão.” Só brinca com brinquedos de madeira, mexe na terra, sobe árvores. Não come açúcar. Vejam como são puros e cheios de ancestralidade.
Paradoxalmente, tudo o que fazem ou dizem vai parar às famosas redes sociais, como que dizendo: olhem para nós, não para eles; aplaudam-nos, sigam-nos. No fundo — como na maioria dos casos, estou convicto — é apenas alguém a dizer: preciso de um abraço, preciso que me amem. Quem não precisa? Quem não o deseja?
Depois crescem e começam os planos: as escolas. Quem será o melhor? Quem será o mais diferente?
O poliglotismo à força surge como quem enfia comida no bico de um pato para foie gras. Quantas mais línguas, melhor — tantas que nem sabem a sua própria.
“O meu está na escola inglesa.”
“O meu está na francesa.”
“O meu foi para a alemã.”
Temos de deixar tudo em aberto. Não será ele um grande gestor na City de Londres? Ou um entrepreneur avant-garde em Paris? Ou um engenheiro físico em Munique?
Desporto, muito — de preferência vários.
Natação, porque nunca se sabe quando caem numa piscina.
Esgrima, porque é elegante e tem etiqueta.
Râguebi, porque desenvolve força e espírito de grupo.
Devem ser grandes e fortes. Os “nossos filhos” são sempre grandes, gigantes. “Não é que ele já come uma pizza familiar?”
Não podemos esquecer a música. Ah, a música!
“Os teus filhos não estão na música?” — perguntam os audiófilos da rádio comercial que nunca ouviram nada para lá dos one-hit wonders.
“Tens de os pôr na música, é muito importante.”
Dizem-no, sobretudo, pessoas que nunca ouviram música. “É essencial para a criatividade.”
Até ao dia em que, aos 18 anos, eles querem fazer da música vida. E aí?
“Nem pensar.”
“Tens de ter uma boa carreira.”
Como pai — mas sobretudo como espectador passivo, tentando ser humildemente ativo, embora sem certezas — pergunto-me muitas vezes: será esta geração olímpica, que nem tempo teve para estar, permanecer ou contemplar, a melhor geração de todos os tempos?
Serão pessoas melhores? Boas, justas, honestas?
Criamo-los numa bolha competitiva, como se a vida fosse uma prova permanente, quando no fim precisarão uns dos outros — no trabalho, no amor, na vida.
Cansa-me o cliché do “eles têm é de ser felizes”, como me cansam todos os parolos que partilham a morning routine, as férias nas Maldivas, os retiros de silêncio na Índia, os filhos a saltar em poças de lama.
Tenho plena consciência de que sem esforço — e sem dinheiro — dificilmente se é feliz.
Quem nasce em berço de ouro, que o reconheça e o valorize.
Quem não nasce — e dificilmente chegará aos olímpicos porque não tem quem o ponha lá — que tenha a força e a sorte para lá chegar.
Uns com tanto. Outros com tão pouco.
Há um certo egoísmo na ideia tradicional de família. Queremos o bem e o melhor para os nossos. Nos nossos ninguém toca. Mas os nossos precisarão dos vossos no futuro, porque a felicidade estará no amor e na partilha entre eles.
Espero, sinceramente, que esta geração olímpica faça deste mundo — ao contrário do que hoje vemos — um mundo melhor.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.