No passado dia 8 de janeiro, Derek Thompson, do The Atlantic, escreveu um texto em que declarou que o nosso século é o século “anti-social”. O seu argumento baseia-se em dados que mostram que os cidadãos americanos fazem cada vez mais refeições sozinhos, passam menos tempo com amigos e mais tempo sozinhos em casa: “Americans are spending less time with other people than in any other period for which we have trustworthy data, going back to 1965.” Claro que isto não é apenas uma tragédia americana – como tudo aquilo que é americano, também este fenómeno é global.
A conveniência que o smartphone trouxe para o seio da vida do cidadão comum está a tornar-se, como apontou Thompson, uma maldição. É por isso que defendo, hoje mais do que nunca, que ter experiências coletivas – sejam elas de que índole forem – é uma necessidade básica do Humano. O exemplo mais elementar será, porventura, o da experiência cultural: ir ao cinema e experienciar um filme com mais pessoas que decidiram, a uma determinada hora, num determinado local, assistir ao mesmo filme. Há poesia neste acaso. Uma sala de cinema nada mais é do que um sítio onde totais desconhecidos se sentam para apreciar uma obra de arte, sabendo que correm o risco de ouvir o vizinho do lado a comer pipocas a alto e bom som – é preciso coragem para isto. Ver em casa podia ser mais cómodo? Talvez sim. Mas está a tornar-se notório que faz falta interagir com o outro, nem que seja para pedir “com licença” ou para lançar um “shiu!” passivo-agressivo àquela pessoa que não para de comentar o filme com o seu date. O mesmo se aplica, diga-se, ao ato de ir às livrarias comprar livros, em vez de se recorrer ao conforto viciante da Amazon ou qualquer outra plataforma online. O Ser Humano precisa de conviver com o seu igual, precisa de estar numa livraria e ficar irritado com o cliente que não sai da estante onde também ele quer também procurar pelo seu livro ideal. Urge ainda ir aos concertos ouvir música ao vivo e lutar por uma pequena brecha no meio da multidão numa arena esgotadíssima. A luta pelo espaço, pelo conforto no meio do caos social que é o exterior é um dos grandes desafios dos dias de hoje.
O excesso de conforto que o online possibilita está a retirar ao Humano uma das suas potencialidades mais extraórdinárias: viver em comunidades organizadas de forma civilizada, seguindo códigos morais e de comportamento. E isto implica precisamente lidar com pessoas que não seguem os mesmos comportamentos ou ideais que nós – é assim que se desenvolvem as ferramentas para lidar com os ódios inorgânicos forjados por quem pretende tirar proveito de uma reclusão voluntária da sociedade por percepções de insegurança ou ansiedade social.
Portanto, que se jante fora e se olhe para a mesa do lado para ver o que tem bom aspeto; que se beba café na rua e se diga “bom dia!” de volta ao desconhecido que confundiu a nossa pessoa com uma outra que ele conhecerá de outros walks of life.
É bom que se volte, rapidamente, a falar com quem se discorda sem saber a priori que, efetivamente, tem uma posição diferente sobre seja lá o que for. A facilidade com que é possível saber, de antemão, as crenças de uma pessoa, acabou com o efeito surpresa que só uma conversa espontânea pode despoletar. É, pois, na diferença que está o maior asset no trabalho constante que é a igualdade. A cultura e a vivência no exterior expõe o indivíduo ao conflito e à adversidade. O quentinho do lar é bom, mas é nos passeios das cidades que se conhece o mundo.
Não somos senão aquilo que vem antes de nós. Toda a interação pressupõe um passado – um conjunto de experiências e vivências – que dá força aos impulsos mais defensivos. Quem sabe, seja altura de agarrar nos impulsos e desáfia-los.
Pode parecer um salto peculiar, mas é nos pequenos passos – nas idas ao cinema, às livrarias, aos restaurantes, aos cafés, onde for – que se começa a melhorar a discussão política e a combater a polarização obscena que se verifica no paradigma político internacional e que em Portugal se vai fazendo sentir com o crescimento de movimentos descendentes da extrema-direita, criadores e disseminadores de desinformação. Só uma sociedade capaz de interagir é capaz de ter um discurso porque a comunicação implica a existência de interlocutores. Se o cidadão comum está em processo de isolamento, é normal que a política – que, por natureza, é uma arte de convencer – tenha passado para um plano que faz lembrar echo chambers: os eleitores passaram a falar sozinhos e os partidos fizeram o mesmo.
“Self-imposed solitude might just be the most important social fact of the 21st century in America”, escreveu o jornalista americano, e eu acrescentaria apenas à frase “and the world”. A cura? Comecemos pela ida ao cinema e ao café do bairro. Depois logo se vê.
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