Faz-se assim: vai-se ao Google e escreve-se «índice de desenvolvimento humano». Procuram-se os resultados de 2014, publicados em 2015, e, como é habitual, aparece a Noruega em primeiro lugar. Não me perguntem por que razão, pois nunca fui à Noruega.
Portanto, primeira sugestão para férias: aproveitem o sufoco do calor irritante do Verão e visitem a Noruega, se puderem.
Se não puderem, há algo que é mais comportável com as bolsas lusas e que constitui a minha segunda sugestão para férias: comprem uma anuidade do Spotify, que custa o equivalente a um maço de cigarros poupado por mês (durante um ano, claro). Mesmo que não comprem a anuidade de 60/70 euros, há a hipótese de recorrer à versão gratuita, que tem menos graça (porque mete anúncios no meio) e menos possibilidade de escolha, mas não permite desculpas financeiras.
O Spotify é um site que tem milhões de registos musicais e que podemos ouvir à nossa vontade, não precisando de comprar e carregar milhares de discos durante anos e anos. Não tem tudo. E quando nos tornamos esquisitos e exigentes, podem faltar coisas essenciais. Não é o «Discogs», nem a Amazon. Mas torna-se muitíssimo mais barato. E prático, pois não precisamos sequer de gravar os discos no «Ipod».
Chegados ao Spotify, aqui vai a terceira sugestão de férias: vamos dedicar o tempo que podemos roubar à futilidade, e antes que comecem as olimpíadas, a ouvir música norueguesa. É que, desde que o desenvolvimento humano se instalou, os noruegueses passaram a produzir música celestial. Ou não fosse a música a manifestação mais elevada de desenvolvimento humano que é possível conceber.
O único músico norueguês de prestígio que alguma vez conheci, antes desta malta moderna, foi Grieg. É autor de um Peer Gynt que tem altos e baixos e de um concerto para piano que é verdadeiramente notável (não sei se tem mais de um, mas admito que todos consigam identificar de que concerto estou a falar). No entanto, não me parece que Grieg tenha a dimensão europeia, ou mesmo mundial, dos dois compositores que vou referir.
O primeiro chama-se Tord Gustavsen. É um músico de jazz que tem um conjunto de discos maravilhosos, dos quais se destaca – para o meu gosto – o «Changing places». Absolutamente representativo do «jazz nórdico», é suave, melodioso e, a tempos, quase silencioso. Pode, de quando a quando, criticar-se uma certa falta de atrevimento, de risco, até de dissonância mais contemporânea. Mas, a determinada altura, somos obrigados a reconhecer que o homem não pode deixar de estar, à partida, perdoado.
O segundo chama-se Ketil Bjørnstad, e é um caso muito sério.
Em primeiro lugar, porque é um escritor de grande prestígio, com diversas obras publicadas, de romance, poesia e crítica literária.
Em segundo lugar, porque é um músico de excepção e de difícil rotulagem. Eu próprio, que conheço bem a sua obra e o seu estilo, tenho muitas vezes dificuldade em classificá-lo no jazz ou na música contemporânea. A editora ECM optou pelo jazz (não o incluiu nas «New series»), mas eu tenho muitas dúvidas. Aconselho os álbuns «New life» e «Early piano music».
Apesar de, também ele, estar sempre perdoado, acho que podia evitar alguma tendência – recente e exagerada – para a cantoria.
Uma das coisas que mais me entusiasma no Spotify é a possibilidade de ouvirmos tudo, ou quase tudo, e podermos formar uma opinião não baseada naquilo que lemos, ou seja, na opinião dos outros.
Boas férias.