Eram 12h54 quando ela fechou a janelinha e eu percebi que tinha passado a vida inteira do lado errado dos vidros. Não parece nada extraordinário, não fosse a minha existência depender inteiramente do carimbo necessário que aquela senhora tinha em seu poder. Coisas que se tratam quando se vive num sítio mas ainda não se é desse sítio, quando se existe num lugar mas ainda não se pertence, essa condição estranha e muito antiga de estar sem ser.
Vim renovar o meu cartão de residente, murmurei, mais para mim do que para qualquer outra pessoa, e alguém atrás de mim sussurrou, aqui toda a gente vem pelo mesmo. O que era verdadeiro, mas não particularmente reconfortante. O guarda olhou para mim como se eu devesse estar noutro lado qualquer. Tirei a senha e memorizo como soa aquele número nesta língua que não é minha.
Chegou a minha vez. Dirijo-me ao balcão, daqueles de um vidro com uma abertura mínima em baixo. Do lado de lá, uma mulher de óculos na ponta do nariz.
Nem olhou para mim, as mãos erguidas com a solenidade de quem exerce, pela décima milésima vez, o único poder que a vida lhe concedeu. Podia fazer isto com os olhos fechados. A mão atingiu o vidro e os anéis bateram, os dedos aproximaram-se da pega metálica. Abrandou ainda mais nesse instante, hesitação ensaiada, dramática, operática. Os dedos a pousar no vidro e o vidro a descer devagar, com uma precisão que só vem de fazer a mesma coisa mil vezes, de fazer isto tão bem que já não é um gesto, é um reflexo, é o corpo a obedecer a uma lei que já nem precisa de ser dita. Clique. Seco. Definitivo. Zás.
Eram 12h54.
Levantei a mão para protestar qualquer coisa, mas ela apontou para o relógio antes que eu acabasse a frase. Segui o dedo como se fosse um argumento válido a demonstrar a inevitabilidade das coisas, os funerais, os impostos. E eu ainda tinha seis minutos. Na parede “13h00-15h00, hora de almoço”. Seis minutos. Dava para preencher qualquer formulário ali, agora. Aquilo deveria contar para alguma coisa. E os dedos dela a apontar para o relógio, eu confuso, ela convicta de que o tempo é uma prova que ela tinha em defesa dela e eu não, como se o relógio fosse uma sentença já escrita antes de alguém ter nascido neste país ou em qualquer outro. E eu ainda tinha na boca o sabor de uma frase a meio, daquelas frases que ficam para sempre a meio porque há janelas num departamento estatal qualquer que se fecham quando chega a tua vez de ser atendido.
Eram 12h54.
Bato na janela como se pudesse quebrar uma fronteira dentro de uma fronteira dentro de um departamento que existe apenas para confirmar fronteiras. Fiquei a olhar para o vidro onde antes estava o rosto dela e, por um instante, apareceu o meu reflexo. Estranho existir tão nitidamente ali quando ainda faltavam permissões para eu existir.
Espero. Duas horas. Saio dali esgotado mas autorizado. Consegui. Agora existo aqui mais um tempo. E faz calor. Vou celebrar, passo num 24 horas. A porta tem uma janelinha. Aponto para a cerveja. No english, responde, apontando para o relógio. A mão sobe. Os dedos pousam no vidro e começam a puxar. A janelinha desce devagar, com aquela precisão que vem de fazer a mesma coisa mil vezes.
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