Nor Yungas é uma província da Bolívia situada a noroeste de La Paz, entre a cordilheira dos Andes e a bacia amazónica. Tem selva com vegetação densa, montanhas íngremes e florestas tropicais com tanta neblina que os guias turísticos caem quase sempre no cliché das “paisagens misteriosas”. A transição de altitude cria microclimas que favorecem a diversidade de espécies – e não falo apenas de orquídeas raras, que as há em abundância. Só no Parque Nacional de Cotapata, que também abrange a vizinha província Murillo, vivem mais de 150 espécies de aves e mamíferos ameaçados, como o urso-de-óculos (Tremarctos ornatus).
Em 2016, um morador de Nor Yungas caminhava numa estrada junto a uma floresta quando viu Tigrino e decidiu adotá-lo. O bicho teria poucos meses e o homem deu-lhe esse nome porque a sua pelagem castanho-clara, com rosetas de formato irregular, lembrou-lhe a dos gatos-tigre, pequenos felinos selvagens nativos da América Central e do Sul, do género Leopardus, que são comuns na região.
Passou-se mais de um ano. Tigrino alimentava-se bem, comendo frequentemente ovos e massa, mas ficara bastante mais pequeno do que um gato doméstico e miava de uma maneira estranha. No dia em que se tornou claro que nunca iria deixar em paz as galinhas lá de casa, o dono foi entregá-lo ao Santuário de Vida Selvagem Senda Verde, situado a caminho de Coroico, a capital de Nor Yungas.
A bióloga Paola Nogales-Ascarrunz, julgando estar perante um exemplar da espécie Leopardus tigrinus, ficou fascinada. “Tirei-lhe cem fotos”, recordou recentemente, citada pela National Geographic Society, da qual é explorer. Só dois anos depois, ao preparar um guia dos gatos-do-mato da Bolívia, se apercebeu de que as suas manchas em forma de roseta eram muito maiores do que as da foto de referência que estava a utilizar. E se Tigrino pertencesse, afinal, a uma espécie nunca antes identificada?
Embora as diferenças físicas, como o formato das manchas e das orelhas ou o comprimento da cauda, ajudem a delimitar as espécies, o facto de os gatos-do-mato serem esquivos dificulta o trabalho. Destrinçá-los a olho nu nem sempre é fácil. Foi preciso Paola Nogales-Ascarrunz e os seus colegas utilizarem dados genómicos, a partir de ossos de coleções de museus, para concluírem que existem, pelo menos, cinco espécies diferentes na América do Sul, lê-se no estudo agora publicado na revista Current Biology.
Entre elas, está o novíssimo Leopardus tilcayo, de que Tigrino é o exemplar mais conhecido. O outro é uma fêmea que há uns anos foi encontrada ferida e resgatada pelo mesmo santuário, onde recolheram pelos com bolbo e uma amostra de sangue antes de a devolverem ao seu habitat.
Não se sabe quantos tilcayos existem. Paola Nogales-Ascarrunz colocou entretanto dezenas de armadilhas fotográficas em Yungas e espera que o estudo sirva de catalisador para intensificar os esforços de conservação. “Descrever uma nova espécie de felino em mais de cem anos [desde a descrição do gato-dos-pampas-uruguaio, em 1923] recorda-nos a necessidade de proteger estas florestas que albergam tantas espécies”, lembra, “incluindo algumas que estamos apenas a começar a compreender”.