Há uma ideia que continua profundamente enraizada em Portugal: investir é para quem tem muito dinheiro. Primeiro poupa-se, paga-se a casa, criam-se os filhos e enfrentam-se os imprevistos. Só quando sobra algum capital é que se pensa em investir. Para muitos portugueses, esse momento, simplesmente, nunca chega.
Esta forma de olhar para o investimento parece prudente, mas assenta em dois erros. O primeiro é pensar que poupar e investir são etapas sucessivas da vida financeira. Não são. Cumprem funções diferentes e, sempre que possível, devem coexistir: a poupança assegura liquidez para as necessidades de curto prazo; o investimento coloca uma parte do património a trabalhar para objetivos de médio e longo prazo. O segundo erro é reduzir o investimento à expectativa de que algo valha mais amanhã. Investir é, antes de mais, dar um propósito ao dinheiro.
As famílias portuguesas mantêm uma forte preferência por depósitos e instrumentos de elevada liquidez. Ter uma reserva disponível é essencial, mas não faz sentido manter todo o património com o mesmo nível de liquidez quando os objetivos e os horizontes temporais são diferentes. Por isso importa perceber o conceito de rentabilidade real: o que conta não é quanto rende uma aplicação, mas o que sobra depois da inflação, dos custos e dos impostos. Em 2022, a inflação média em Portugal foi de 7,8%, muito acima da remuneração dos depósitos. Quem tinha as poupanças aplicadas dessa forma viu o capital manter praticamente o valor em euros, mas perder poder de compra. Não investir também é uma decisão financeira, e tem consequências.
O primeiro grande investimento da maioria das famílias é, aliás, um que raramente é encarado como tal: a casa. A grande maioria dos portugueses vive em casa própria, mas poucos olham para ela com os critérios de um investidor. Deviam. A casa de família é, ao mesmo tempo, um bem de consumo e um ativo. A sua utilização equivale a um rendimento: quem vive em casa própria deixa de pagar renda, e esse valor que fica na família todos os meses é um retorno tão real como um dividendo, apenas recebido em espécie. As próprias contas nacionais o reconhecem, através do conceito de renda imputada. A esse rendimento soma-se a eventual valorização do imóvel e subtraem-se os custos: juros, impostos, seguros, condomínio e manutenção.
O financiamento bancário que normalmente acompanha esta compra deve ser estudado com o mesmo rigor, e à luz da inflação. Um empréstimo é uma dívida fixa em euros: a inflação vai reduzindo o seu peso real ao longo do tempo, e a casa, sendo um ativo real, tende no longo prazo a acompanhar a evolução dos preços. Um exemplo simples: com uma inflação média de 2% ao ano, uma renda de 750 € atualizada ao ritmo dos preços chegaria a cerca de 1.360 € dentro de 30 anos. Já uma prestação de crédito a taxa fixa manter-se-ia igual e, no fim do empréstimo, valeria em poder de compra pouco mais de metade do que vale hoje. Bem dimensionado, o crédito permite antecipar em muitos anos um investimento que só com poupança levaria décadas a concretizar.
Mas o crédito tem um custo e tem riscos. A subida da Euribor de valores negativos para mais de 4%, em menos de dois anos, lembrou a muitas famílias que a inflação pode trazer consigo taxas de juro mais altas e prestações mais pesadas. Comparar taxa fixa, variável e mista, avaliar a taxa de esforço, manter uma reserva para imprevistos e evitar concentrar todo o património num único imóvel são cuidados que devem vir antes da assinatura, e não depois. Vista assim, a casa deixa de ser apenas uma despesa e passa a ser o que é: um investimento com um propósito claro, que dá segurança, estabilidade e um rendimento que se sente todos os meses.
Existe uma segunda forma de investir, bem menos presente na cultura financeira portuguesa: ser investidor de capital numa empresa ou num projeto. Também neste caso é preciso mudar o olhar.
Há duas maneiras muito diferentes de comprar uma ação. Uma é tratá-la como uma mercadoria: um título que se compra hoje na esperança de que alguém pague mais por ele amanhã, e cujo retorno depende sobretudo do humor do mercado. A outra é comprá-la pelo que realmente é: uma participação num negócio. Quem investe assim torna-se sócio. O retorno não depende de acertar no momento de vender, mas da capacidade da empresa para gerar lucros, reinvesti-los, desenvolver novos produtos, chegar a novos mercados e crescer ao longo do tempo. Benjamin Graham resumiu-o bem: no curto prazo, o mercado funciona como uma máquina de votar; no longo prazo, como uma balança que pesa o valor das empresas.
É nesta segunda forma que o investimento ganha a dimensão de uma aventura. Ser sócio de uma empresa é acompanhar a abertura de uma nova fábrica, o lançamento de um produto que ainda não existia, a chegada a um país onde a marca era desconhecida. É saber que o capital investido está a financiar pessoas, ideias e projetos concretos. No capital de risco e no private equity, esta ligação é ainda mais direta: o investidor entra muitas vezes quando o negócio é pouco mais do que uma visão e partilha o caminho que o transforma numa empresa.
Como todas as aventuras, esta tem riscos. Nem todos os projetos correm bem, alguns falham, e o investimento em empresas não cotadas é, por natureza, pouco líquido e de longo prazo. Exige conhecimento, diversificação, paciência e apenas a parte do património de que não se precisa no curto prazo. Mas é precisamente neste tipo de investimento que a sua relevância se torna mais evidente. As empresas portuguesas continuam muito dependentes do crédito bancário e com pouco capital próprio para crescer. Cada euro investido no capital de uma empresa pode transformar-se em inovação, exportações e emprego qualificado. O investidor não se limita a esperar que o seu dinheiro valha mais: ajuda a criar o valor de que depois beneficia.
Em qualquer destes caminhos, o tempo é a variável decisiva. Começar mais cedo permite beneficiar da capitalização: os retornos gerados pelo capital geram, eles próprios, novos retornos. A título meramente ilustrativo, 100 € investidos todos os meses a uma rentabilidade hipotética de 5% ao ano resultariam em cerca de 83 mil € ao fim de 30 anos e em cerca de 153 mil € ao fim de 40. Os dez anos adicionais exigem mais 12 mil € de entregas e valem perto de 70 mil € a mais no final. Ao esperar pelo momento ideal ou por um património significativo, desperdiça-se aquilo que não se recupera: tempo.
Criar uma verdadeira cultura de investimento em Portugal não significa desvalorizar a poupança. Significa reconhecer que poupar e investir desempenham papéis distintos. Poupar ajuda a proteger o presente. Investir pode ajudar a construir o futuro.
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