Ao sexto dia do Festival de San Sebastián, quando já começamos a confundir salas, legendas, cafés, conferências de imprensa e a nossa própria identidade, apareceu finalmente um filme que percebe que a cultura também pode ser uma atividade de risco. Chama-se The Debut, é o terceiro filme realizado por Jesse Eisenberg — o rapazinho que fazia de Mark Zuckerberg em A Rede Social — e constitui uma das melhores surpresas e, para mim, um dos melhores filmes desta Selecção Oficial. Convém, aliás, corrigir desde já uma pequena injustiça profissional: Eisenberg deixou de ser «o ator que agora também realiza». Ao terceiro filme, já é, de facto, um senhor realizador. Ponto. Em When You Finish Saving the World — já com Julianne Moore — percebeu-se que tinha coisas para dizer; em A Verdadeira Dor (A Real Pain) percebeu-se que sabia perfeitamente como dizê-las; agora, em The Debut, percebe-se que também sabe perder a cabeça sem perder o filme. O que, no cinema contemporâneo, é uma excelente qualificação profissional e artística.
A história de The Debut parece, ao princípio, demasiado simpática. Mona Friedman (Julianne Moore) é uma dona de casa de Nova Jérsia tão apagada que provavelmente poderia passar três semanas sentada no sofá da própria família sem ninguém reparar que estava ali. Os filhos estão praticamente de saída de casa, o marido olha através dela como quem contempla uma parede que talvez precise de uma demão de tinta; e Mona decide fazer uma audição para um pequeno papel em Nosy Neighbors, um musical amador representado num teatro comunitário. Até aqui, poderíamos estar perante aquela espécie de comédia independente americana em que uma mulher redescobre a vida, aprende cerâmica, compra uma bicicleta e finalmente diz ao marido que precisa de “espaço”. Felizmente, Jesse Eisenberg tem ideias bastante mais arriscadas e bastante mais inteligentes.
Stanislavski, uma sanita e um Frankenstein
No início, Mona é obviamente uma péssima atriz. Não apenas má: péssima com uma aplicação quase profissional. A sua frase decisiva — “A renda está atrasada!” — sai-lhe da boca com a energia de quem pergunta, numa biblioteca, se a secção de História fica no primeiro ou no segundo andar. Jerry (Paul Giamatti), o encenador, percebe que tem um problema. E decide resolvê-lo como muitos homens do teatro resolvem problemas desde o mestre Stanislavski: complicando-os enormemente e chamando ao resultado “Método”. Jerry começa a trabalhar Mona, obrigando-a a procurar motivações, emoções, memórias, raiva, verdade interior e, provavelmente, qualquer coisa escondida desde a infância entre o trauma, a conta da eletricidade e as receitas culinárias da família. Num magnífico exercício de representação, obriga-a a exigir um cheque da renda e vai perguntando “porquê?” até Mona rebentar emocionalmente e imaginar-se num beco a comer ratos contaminados pela peste. Nesse momento nasce uma atriz. E Jerry, sem ainda o perceber, acaba de fabricar o seu próprio Frankenstein.
É aqui que The Debut deixa de ser apenas uma comédia sobre teatro amador e começa a transformar-se numa máquina muito mais estranha. Mona descobre o Método com o entusiasmo de quem encontrou simultaneamente uma religião, uma droga e um advogado de divórcio. Para preparar a personagem, invade praticamente a vida real: entra no apartamento de desconhecidos fazendo-se passar pela encarregada do prédio para reparar uma sanita, abandona o marido, muda-se para um hotel miserável e começa a exigir que cada gesto, cada frase, cada parafuso do cenário respeite rigorosamente a “verdade” da personagem. O teatro amador passa então a parecer uma pequena célula terrorista com coreografias. E Paul Giamatti, extraordinário como sempre, ganha aquele olhar muito específico de um homem que queria apenas montar um musical e percebe demasiado tarde que desencadeou uma revolução estética.
O grande achado de Eisenberg consiste em nunca fazer exatamente o filme que estamos à espera. The Debut começa numa zona reconhecível, atravessa da sátira ao teatro, passa pelo melodrama doméstico, aproxima-se de Charlie Kaufman, cumprimenta os irmãos Coen, pisca o olho a David Lynch e, quando damos por isso, estamos numa espécie de thriller psicológico sobre uma mulher que talvez esteja a descobrir a própria identidade ou talvez tenha simplesmente enlouquecido por causa de uma personagem secundária num musical de terceira categoria. A diferença é pequena. A certa altura, a aparência de Mona — depois de um acidente eléctrico lhe chamuscar as sobrancelhas e lhe pôr os cabelos em pé — parece o resultado de uma reunião impossível entre Joan Jett, Camille Paglia e um cabeleireiro que viu demasiados filmes de Lynch. E Julianne Moore sustenta tudo isto com a convicção de quem decidiu que, se é para saltar do precipício, ao menos salta de salto alto.
Julianne Moore: perder a cabeça com Método
Moore está, de facto, prodigiosa. Não naquele sentido publicitário em que hoje qualquer ator capaz de uma boa mimese ou de nos arrancar duas lágrimas recebe imediatamente a palavra “extraordinário”numa campanha para os Oscars. Está mesmo prodigiosa. Começa encolhida, translúcida, quase a pedir desculpa por ocupar espaço no enquadramento, e vai crescendo até se transformar numa força cómica e dramática que engole o filme inteiro sem nunca o destruir. É um papel arriscadíssimo porque podia cair a qualquer momento no ridículo, na caricatura, no histerismo ou naquela “grande interpretação” que entra na sala cinco minutos antes da atriz. Moore consegue exatamente o contrário: quanto mais Mona exagera, mais humana fica. E ainda canta. E muito bem. O que prova que Deus distribui o talento de maneira manifestamente pouco democrática.
Mas seria injusto reduzir The Debut a Julianne Moore. O filme confirma sobretudo que Eisenberg está a construir uma verdadeira filmografia de realizador. Em When You Finish Saving the World, o seu primeiro filme, já trabalhava as relações familiares, o embaraço, a vaidade e essa extraordinária capacidade humana para sermos insuportáveis precisamente quando acreditamos estar a fazer o bem. A Verdadeira Dor elevou tudo isso a outro nível, juntando humor, memória, culpa e identidade numa viagem à Polónia que revelou uma segurança de escrita e realização que já não podia ser explicada por mero acaso. Agora, The Debut arrisca muito mais formalmente: a câmara movimenta-se, o tom muda, a realidade dobra-se, o musical entra e sai da narrativa, o absurdo ameaça tomar conta da casa. Nem tudo funciona com a mesma precisão — por vezes Eisenberg diverte-se tanto a inventar regras que se esquece de nos explicar quando mudou as anteriores —, mas prefiro um cineasta disposto a partir o brinquedo a outro preocupado em devolvê-lo intacto à caixa. O argumento é dele, a realização também, e ainda escreve as canções. Digamos que passou no exame completo.
E há depois uma coisa particularmente saborosa nesta sátira: qualquer pessoa que tenha passado mais de quinze minutos perto de atores, encenadores, cineastas, críticos ou festivais reconhecerá imediatamente aquele maravilhoso momento em que a defesa da “integridade artística” começa a justificar comportamentos que, numa empresa normal, dariam origem a uma reunião urgente com o departamento de pessoal. Mona não quer protagonismo, quer apenas respeitar a personagem, à risca. Claro. E Napoleão também só queria conhecer a Europa.
Ao terceiro filme, cai a desculpa do ator-realizador
No fim, Eisenberg faz em The Debut uma coisa mais inteligente do que a habitual parábola de emancipação feminina. Mona não encontra simplesmente “a mulher que estava escondida dentro dela”. Isso seria demasiado barato e provavelmente obrigaria a uma canção final ao pôr-do-sol ou a uma viagem de automóvel, vidros abertos e cabelo ao vento, sozinha pela estrada fora. Encontra antes a possibilidade de representar outra versão de si própria até essa representação começar a tornar-se verdadeira. O teatro não a cura; desarruma-a. Dá-lhe voz, mas também ego. Dá-lhe liberdade, mas retira-lhe algumas certezas. E transforma uma dona de casa invisível numa mulher que finalmente ocupa demasiado espaço; o que talvez seja precisamente o espaço que sempre lhe pertenceu.
No sexto dia de San Sebastián, entre filmes muito respeitáveis que sabem exatamente como devem comportar-se, The Debut teve pelo menos a educação de se portar mal. Julianne Moore oferece-nos uma interpretação enorme, Paul Giamatti fornece o desespero necessário e Jesse Eisenberg demonstra que aquilo que começou como uma segunda profissão, ou talvez como um desafio pessoal, começa seriamente a parecer a primeira. Aos 42 anos, continua suficientemente jovem para poder realizar muitos filmes e suficientemente experiente para já não precisar de favores nem de pedir licença. O título chama-se The Debut, mas a ironia é deliciosa: estreia, aqui, já não é coisa nenhuma. Jesse Eisenberg chegou ao terceiro filme. E o realizador já entrou em cena.